"Os jornais são aparelhos ideológicos cuja função é transformar uma verdade de classe num senso comum, assimilado pelas demais classes como verdade coletiva - isto é, exerce o papel cultural de propagador de ideologia. Ela embute uma ética, mas a ética não é inocente. Ela é uma ética de classe." [Antonio Gramsci]

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Lenços (Kufiya) palestinos made in Palestine - A Fábrica Textil Hirbawi




A Fábrica Textil Hirbawi
A última e única fábrica de Kufiya na Palestina - reportagem fotográfica

A fábrica Hirbawi produz Kufiya, os lenços estampados que se transformaram em ícones por todo o Médio Oriente, e é "a única e última" que fabrica Kufiya na Palestina, afirma o gerente Abdul Hirbawi com orgulho. Outros países vizinhos onde a Kufiya também é popular, como a Jordânia e a Síria, fabricam as suas próprias - um pouco diferentes - versões. Hirbawi é a única fábrica na Palestina que produz a Kufiya original esperando a venda na pequena loja traseira da fábrica.

O portão da fábrica Hirbawi

A fábrica Hirbawi está situada na cidade de Hebron, (conhecida em árabe como Al-Khalil), a maior da Cisjordânia. Hebron é um dos pontos quentes no conflito entre a Palestina e Israel. Extremistas israelenses instalaram-se no centro da cidade provocando a violência quase diária entre colonos, soldados israelenses e residentes palestinos. A fábrica é modesta e está escondida numa rua residencial tranquila.


Tecelagem
No interior, quinze teares industriais (alguns que já não funcionam) ocupam metade da loja iluminada por luzes fluorescentes. As máquinas estão em constante movimento, criando um rugido insistente dentro do edifício. A fábrica tem agora apenas metade das máquinas em funcionamento, como resultado do declínio nas vendas desde a década de 1990. 



Yasser Hirbawi fundou a fábrica há mais de 50 anos, mas agora são os seus três filhos e um amigo da família que dirigem a fábrica. Por detrás dos carretéis de linha pode ver Keraki Abid (à esquerda), um velho amigo da família Hirbawi, verificando a produção ao lado de um dos herdeiros, Izzat Hirbawi.


Kufiyas tradicionais penduradas na loja da fábrica Hirbawi

A Kufiya de padrão preto e branco é sem dúvida, entre os lenços palestinos, o mais tradicional representando mais de 70 por cento das vendas da fábrica. É frequentemente referido como a bandeira palestina não oficial e carrega um profundo significado para aqueles que o usam. Existem várias teorias sobre a origem do padrão dos lenços. Entre muitas histórias, diz-se que representa uma rede de pesca, uma colméia, a união das mãos ou marcas de sujidade de suor limpas do rosto de um trabalhador.



O fundador da fábrica - Yasser Hirbawi - relaxa fumando um cigarro na pequena loja da fábrica. Atrás dele penduradas, uma amostra de Kufiyas produzidas na fábrica. Kufiya é mais popular do que nunca na Palestina, afirma satisfeito. Durante a primeira Intifada, muitos evitaram usá-la por medo de represálias. Mas hoje em dia, Kufiya é usada como um símbolo do património e da cultura palestina. Ele acrescenta: "É o nosso passado, futuro ... Significa tudo."



Em 2011 celebrou-se o 50 º aniversário da fábrica Hirbawi. Yasser Hirbawi tinha 33 anos quando iniciou a fábrica e, com o objetivo de manter o negócio na família, instruiu os seus filhos na gestão e controlo das máquinas.



Hirbawi Abdulla - diretor da fábrica - gesticula em frente à bandeira Palestina enquanto conta acerca das dificuldades da fábrica. As vendas estão caindo devido a importações mais baratas, de baixa qualidade, fabricadas no exterior, conclui Abdulla.



Aprender a complexidade dos teares é uma tarefa árdua. Cada processo tem que ser constantemente monitorizado para assegurar que os produtos terminados possam ser vendidos. Yasser Hirbawi garante que levou nove anos para aprender sobre cada uma das peças das máquinas. Aqui, o seu filho Izzat a cortar cuidadosamente os fios defeituosos de um lenço colorido em fabricação.



Em cooperação com Kufiya.org, Hirbawi desenvolve novos desenhos em cores modernas para transformar os lenços palestinos num acessório de moda que pode ser utilizado diariamente.


Fabrico de Kufiya
Mesmo com o pai como especialista e professor, levou mais de cinco anos para que os irmãos Hirbawi pudessem dominar os complexos teares industriais.



Abid Keraki tenta soltar linha enredada para colocar o tear de novo em funcionamento. Todo o trabalho de reparação e manutenção é realizado por estes homens, que afirmam que apenas um dos seis netos de Yasser será instruído no uso de máquinas. Para o restante dos netos é mais importante frequentarem a universidade.



Durante o fabrico de uma Kufiya tradicional, Abid Keraki segura a linha na sua boca enquanto substitui rapidamente uma bobina. Os oito teares operacionais exigem constante atenção.



Um vendedor ambulante em Belém oferece imitações de lenços palestinos a um grupo de turistas. Os lenços importados para a Cisjordânia são de fio solto e material mais barato e podem custar até um quarto do preço dos lenços originais.



Kufiya importada de baixa qualidade, pendurada no exterior de uma loja em Belém. Yasser Hirbawi confirma que paradoxalmente, apesar da popularidade dos lenços palestinos ter aumentado, as vendas da fábrica reduziram drasticamente, em grande parte devido às importações baratas principalmente da China.



Yasser Hirbawi reflete sobre o futuro da sua fábrica fundada em 1961. Ele descreve o seu trabalho como uma "batalha constante", onde ele e sua família lutam por permanecer no negócio e competir com os produtores de Kufiya de baixo preço de todo o mundo, e conclui: "Mas o que podemos fazer? Este é o nosso trabalho, a nossa vida, e com a vontade de Deus, nunca vamos parar a produção da Kufiya original fabricada na Palestina."



all rights @Palestine Speaks



::

Punição coletiva em Gaza



Punição coletiva em Gaza

Por Rashid Khalidi*, na New Yorker

Três dias após o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ter iniciado a atual guerra em Gaza, ele reuniu uma coletiva de imprensa em Tel Aviv que disse, em hebraico, de acordo com o jornal Times de Israel: “Eu acredito que o povo israelense entenda agora o que eu sempre disse: que não pode haver uma situacão, sob nenhum acordo, em que nós abandonemos o controle de segurança do território a oeste do Rio Jordão”.

Vale a pena ouvir cuidadosamente quando Netanyahu fala sobre o povo israelense. O que ocorre na Palestina hoje não diz respeito ao Hamas. Não diz respeito aos foguetes. Não diz respeito aos “escudos humanos” ou terrorismo ou túneis. Diz respeito ao controle permanente de Israel sobre as terras palestinas e sobre as vidas de palestinos. É disso que Natanyahu está falando, e é o que ele agora admite ser aquilo de que ele “sempre” falou: a inabalável política israelense, há decadas em vigor, de negar a autodeterminacao, liberdade e soberania da Palestina.

O que Israel está fazendo em Gaza configura uma punição coletiva. E uma punição pela recusa de Gaza a ser um gueto dócil. E uma punição aos palestinos por ter a pachorra de unificarem-se, e do Hamas e outras facções, por responderem ao estado de sítio e suas provocações com resistência, armada ou não, depois de Israel ter reagido repetidamente com força destrutiva contra protestos desarmados. Apesar de anos de cessar-fogo e tréguas, o estado de sítio de Gaza nunca foi suspenso.

Como as próprias palavras de Netanyahu desmonstram, contudo, Israel não aceita que os palestinos não concordem com sua própria subordinação. Aceita apenas um “estado” palestino despido de todos os atributos de um verdadeiro estado: controle sobre sua própria segurança, fronteiras, limites marítimos, contiguidade territorial e, portanto, soberania. A farsa de vinte e três anos de “processo de paz” mostra que isto é tudo que Israel oferece, com a aprovação total de Washington. Sempre que palestinos resistiram ao seu patético destino (como qualquer outra nação o faria), Israel os puniu por sua insolência. Isso não é novidade.

Punir palestinos por existir tem uma longa história. Essa foi a política de Israel anterior ao Hamas, e seus rudimentares foguetes foram o bicho-papão do momento para Israel, antes de tornar Gaza uma presídio a céu aberto, saco de pancadas e laboratório de armas. Em 1948, Israel matou milhares de inocentes e aterrorizou outros milhares em nome da criação de um estado de maioria judaica numa terra com 65% de árabes. Em 1967, desalojou centenas de milhares de palestinos novamente, ocupando o território que até hoje controla, em grande medida, 47 anos depois.

Em 1982, numa cruzada para expulsar a Organização pela Liberação da Palestina e extinguir o nacionalismo palestino, Israel invadiu o Líbano, matando 17 mil pessoas, a maioria civis. Desde os anos 80, com o levante da ocupação palestina, de forma geral atirando pedras e organizando greves gerais, Israel prendeu dezenas de milhares de palestinos: mais de 750.000 pessoas foram para prisões israelenses desde 1967, um número equivalente a 40% da população adulta hoje. Eles sairam da prisão com depoimentos de tortura, fundamentados por grupos de direitos humanos como o B’tselem. Durante a segunda intifada, que começou em 2000, Israel invadiu novamente a Cisjordânia (de onde de fato nunca saiu). A ocupação e colonização das terras palestinas continuou ininterruptamente através do “processo de paz” dos anos 90, e até os dias de hoje. E, ainda assim, nos Estados Unidos a discussão ignora esse contexto opressivo crucial, e esta sempre limitada à “auto-defesa” de Israel e à suposta responsabilidade de palestinos por seu próprio sofrimento.

Nos últimos sete anos ou mais, Israel sitiou, atormentou, e atacou regularmente a Faixa de Gaza. Os pretextos mudam: eles elegeram o Hamas; eles se recusam a ser dóceis; eles se recusam a reconhecer Israel; eles lançam foguetes; eles constroem túneis para contornar o estado de sítio etc. Mas cada pretexto é uma falácia, porque a verdade dos guetos – o que acontece quando você aprisiona 1.8 milhões de pessoas em 140 metros quadrados, quase um terço da área da cidade de Nova York, com controle de fronteiras, quase sem acesso ao mar para pescadores (apenas três de 20 quilômetros são permitidos segundo Acordo de Oslo), sem meio de entrada ou saída, e com mísseis guiados sobre suas cabeças noite e dia – é que eles acabarão contra-atacando. Isso aconteceu em Soweto e Belfast e acontece em Gaza. Nós podemos desaprovar o Hamas e alguns de seus métodos, mas isso nao é o mesmo que aceitar a ideia de que palestinos devem concordar de maneira apática com a recusa do seu direito de existir como povo livre em sua terra ancestral.

Esta é precisamente a razão pela qual o apoio dos Estados Unidos à atual política de Israel é insano. A paz foi alcançada no norte da Irlanda e na África do Sul porque os Estados Unidos e o mundo acordaram para o fato de que eles teriam de por pressão no lado mais forte, cobrando responsabilidade e dando fim a impunidade. O norte da Irlanda e a África do Sul estão longe de serem exemplos perfeitos, mas vale a pena recordar que para conquistar um resultado justo foi necessário que os Estados Unidos lidassem com grupos como o IRA e o Congresso Nacional Africano, que se envolveram com guerrilha e até mesmo terrorismo. Essa foi a única maneira de trilhar um caminho em direção à paz verdadeira e a reconciliação. O caso da Palestina não é fundamentalmente diferente.

Ao invés disso, os Estados Unidos estão fazendo pender a balança a favor do lado mais forte. Nessa visão de mundo surreal e inversa, o que parece é que os israelenses foram ocupados pelos palestinos, e não o contrário. Nesse universo distorcido, aqueles aprisionados nos presídios a céu aberto estão sitiando armas nucleares com uma das mais sofisticadas forças militares do mundo.

Se nós nos afastamos dessa irrealidade, os EUA tem que mudar suas políticas ou abandonar o argumento de ser um “mediador honesto”. Se o governo estadunidense quer subsidiar e armar Israel e repetir seus tópicos de discussão que ignoram a razão e o direito internacional, então que o façam. Mas não deveriam então reinvidicar autoridade moral e entoar solenimente sobre a paz. E não deveriam certamente insultar palestinos ao dizer que se preocupam com eles e suas crianças, que estão morrendo em Gaza hoje.


*Rashid Khalidi é Professor Edward Said de Estudos Arabes na Columbia University e editor do Journal of Palestine Studies, e foi conselheiro da delegacao palestina nas negociações palestino-israelense Madrid-Washington de 1991-93. Seu livro mais recente é intitulado “Brokers of Deceit.”


Tradução livre e fraterna de Fernanda Almeida


::

Oito manchetes que a grande mídia não tem coragem de imprimir

John Vachon/Library of Congress

Garoto lê jornal na entrada da biblioteca pública em Milwaukee (EUA), durante o período da Grande Depressão: atualmente declina
 o número de leitores de jornais nos Estados Unidos
por Paul Buchheit | Common Dreams | Nova York
Os destaques a seguir dizem respeito a assuntos relevantes e baseados em fatos; são as "notícias importantes" que a mídia tem a responsabilidade de divulgar. No entanto, a imprensa corporativista geralmente as evita.
1. A riqueza nos Estados Unidos cresceu em US$34 trilhões desde a recessão. Mais de 90% da população não recebeu quase nada dessa quantia.
Isto daria, em média, US$100 mil para cada americano. Mas as pessoas que já possuem a maior parte das ações de empresas responsáveis pelo crescimento dessa riqueza receberam quase todo o dinheiro. Para eles, o ganho médio foi de cerca de um milhão de dólares – livre de impostos, desde que não contabilizado.
2. Oito americanos ricos ganharam mais do que 3,6 milhões de trabalhadores que recebem salários mínimos
Um relatório recente afirmou que nenhum trabalhador que receba um salário mínimo nos EUA pode pagar pelo aluguel de uma residência de um ou dois dormitórios de acordo com os preços do mercado atual. Há 3,6 milhões de trabalhadores nestas condições, e seus salários somados ao longo de todo o ano de 2013 é inferior aos ganhos no mercado de ações de apenas oito investidores americanos durante o mesmo ano; todos eles são empresários que mais tiram do que contribuem para a sociedade: os quatro Waltons (donos da cadeia de supermercados Wal-Mart), dois Kochs (donos da Koch Industries), Bill Gates e Warren Buffett.
3. O noticiário fala apenas a 5% da população
Seria um alívio ler um editorial honesto: "Nós valorizamos com carinho os 5% a 7% de nossos leitores que ganham muito dinheiro e acreditam que seus patrimônios, cada vez maiores, estão ajudando todo mundo".
Em vez disso, a mídia corporativa parece incapaz de diferenciar entre os 5% no topo e o restante da sociedade. O “Wall Street Journal” exclamou: "Americanos de classe média têm mais poder de compra do que nunca", e, na sequência, : "Que recessão? A economia já saiu da recessão, o desemprego diminuiu..."
O “Chicago Tribune” pode estar ainda mais distante de seus leitores menos privilegiados, perguntando a eles: "O que é tão terrível no investimento de tanto dinheiro na campanha presidencial?"
Jared Rodriguez / Truthout

Imagem em perfil dos irmãos Koch: "executivos e empreendedores com destaque nos noticiários devem trilhões à sociedade"

 
4. As notícias televisivas ficaram mais burras para o espectador americano
Uma pesquisa de 2009 do European Journal of Communication comparou os Estados Unidos à Dinamarca, Finlândia e Reino Unido no que diz respeito à transmissão de noticiário doméstico e internacional, bem como de notícias importantes (política, administração pública, economia, ciência e tecnologia) e notícias secundárias (celebridades, interesses humanos, esportes e entretenimento). Os resultados:
- os americanos são especialmente desinformados quanto a assuntos públicos internacionais;

- os entrevistados americanos também não tiveram um bom desempenho no que diz respeito ao noticiário importante relacionado a questões domésticas;
- a televisão americana transmite muito menos noticiário internacional do que as TVs finlandesa, dinamarquesa e britânica;

- os programas de notícias da TV americana também relatam muito menos notícias importantes do que as TVs finlandesa ou dinamarquesa.

Surpreendentemente, o relatório informa que "nossa amostragem de jornais americanos estava mais orientada no sentido das notícias importantes do que as contrapartes europeias". É uma pena que os americanos estejam lendo menos jornais.

5. Executivos e empreendedores com destaque nos noticiários devem trilhões à sociedade
Toda a propaganda em torno do "self-made man", o empreendedor aventureiro, é uma fantasia. No início dos anos 70, nós, homens brancos privilegiados, fomos conduzidos de nossas faculdade para postos no mercado de trabalho que nos aguardavam nos setores de gestão e finanças; a tecnologia inventava novas maneiras de fazermos dinheiro, os impostos eram baixíssimos e a perspectiva de recebermos bônus e ganhos capitais ocupava nossas mentes.
Enquanto estávamos na faculdade, o Departamento de Defesa preparava a Internet para a Microsoft e a Apple, a Fundação Nacional da Ciência financiava a Digital Library Initiative,  que seria adotada como modelo pela Google, e o Instituto Nacional de Saúde realizava os primeiros testes de laboratório que seriam utilizados por empresas como Merck e Pfizer. Os laboratórios de pesquisa do governo e as universidades públicas treinaram milhares de químicos, físicos, designers de chips, programadores, engenheiros, operários de linha de produção, analistas de mercado, testadores, solucionadores de problemas etc.
Tudo o que criamos por conta própria foi uma atitude desdenhosa, como a de Steve Jobs: "Nunca tivemos vergonha de roubar grandes ideias".
6. Recursos para escolas e pensões desabam à medida que as empresas deixam de pagar impostos
Três estudos independentes entre si mostraram que as empresas pagam menos da metade do que deveriam pagar em impostos, recurso que serve como principal fonte para o fundo educacional K-12 e como parte significativa do fundo para pensões. Mais recentemente, o relatório  “A Base Tributária Corporativa está Desaparecendo" mostrou que a porcentagem dos lucros corporativos paga como imposto de renda ao Estado diminuiu de 7% em 1980 para 3%, atualmente.
7. Empresas sediadas nos EUA pagam a maior parte de seus impostos no exterior
O Citigroup recebeu 42% de seus lucros entre 2011 e 2013 na América do Norte (quase tudo nos EUA), tendo gerado US$32 bilhões de lucro, mas recebeu benefícios no imposto de renda ao longo de todos esses três anos.
A Pfizer teve 40% dos seus lucros entre 2011 e 2013 e quase metade de seus ativos físicos nos EUA, mas declarou quase US$10 milhões de prejuízo nos EUA, e, ao mesmo tempo, US$50 bilhões em lucros no exterior.
Em 2013, a Exxon tinha cerca de 43% de sua gestão, 36% das vendas, 40% de seus ativos de longa duração e entre 70 e 90% de seus poços produtivos de petróleo e gás nos EUA; no entanto, a empresa pagou apenas 2% de seu lucro total em impostos ao Estado americano, com a maior parte da quantia sendo paga sob a forma do que se chama de valor tributável "teórico".
8. Funcionários de restaurantes não recebem aumento há mais de 30 anos
Uma avaliação feita por  Michelle Chen mostrou que o salário mínimo para funcionários que recebem gorjeta é de US$2,00 a hora desde 1980. Ela também observa que 40% destes trabalhadores são pessoas negras, e cerca de dois terços são mulheres.
Para finalizar, aqui vai mais uma manchete possível e muito bem-vinda: Os progressistas se unem em prol de impostos sobre o patrimônio para as empresas de Wall Street.

Texto origialmente publicado em Common Dreams, site independente de notícias que prioriza informações para o bem comum, criado em 1997, nos Estados Unidos.

A aliança entre Israel e Arábia Saudita é banhada no sangue dos palestinos















por David Hearst – Infopalestine
Existem muitas mãos por trás do ataque do Exército israelense contra a Faixa de gaza. Os EUA não estão felizes ao ver o Hamas resistindo a tantos ataques. Quando as imagens da carnificina nas ruas de Shuyaiya acabavam de ser divulgadas, John Kerry declarou no programa Meet NBC que Israel tinha o “direito de se defender” e o embaixador estadunidense, Dan Shapiro, declarou ao Canal 2 da televisão israelense que os EUA queriam que as “forças moderadas” dominassem após o conflito na Faixa de Gaza, o que quer dizer (que Israel levaria em seus furgões) a Autoridade Palestina.
O Egito também não está cego de dor. Seu Ministro de Relações Internacionais, Sameh Shukri, culpou o Hamas pela morte de civis depois que o movimento repudiou o cessar fogo (projetado pelo Egito e Israel, deixando totalmente de lado a Hamas).
Existe um terceiro sócio não declarado desta aliança antinatural que deu luz verde a Netanyahu para uma operação militar de tamanha agressividade. Não falamos dos EUA, mas de um estado árabe.
O ataque contra Gaza foi lançado com uma aprovação real saudita.
Esta aprovação real não é nenhum segredo em Israel e o ex-Ministro de Defesa em exercício falou dela de forma bastante aberta.
O ex-Ministro israelense Shaul Mofaz surpreendeu o apresentador do Canal 10 ao dizer que Israel devia atribuir um papel à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos na desmilitarização da Hamas. Ele acrescentou que os fundos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos deviam ser utilizados para reconstruir Gaza uma vez que o Hamas fosse eliminado.
Amos Gilad, homem-chave do Ministério israelense de Defesa nas relações com o Egito de Mubarak e hoje diretor do Departamento de Relações Político-Militares, assinalou que “nossa cooperação de segurança com o Egito e os estados do Golfo é única. É o melhor período de segurança e relações diplomáticas que tivemos com países árabes”.
As felicitações são recíprocas. O rei Abdulá fez saber que telefonou ao presidente Abdul Fattah AL Sisi para aprovar uma iniciativa egípcia de cessar fogo que nem sequer foi submetida à avaliação do Hamas, o que levou alguns analistas, citados pelo Jerusalem Post, a questionarem se um cessar fogo tinha sido seriamente proposto.
O Mossad e os responsáveis pela inteligência saudita se reúnem regularmente. Os dois lados chegaram a um acordo quando o ex-presidente Mohammed Mursi estava a ponto de ser deposto no Egito e, desde então, têm andado de mãos dadas no que concerne ao Irã e à preparação de um ataque israelense contra esse país, que recebeu a permissão para utilizar o espaço aéreo saudita, assim como para a sabotagem do programa nuclear iraniano.
Os sauditas também financiam o essencial da custosa campanha de Israel contra o Irã.
Por que Arábia Saudita e Israel possuem tão boas relações?
Durante várias décadas, os dois regimes tiveram uma sensação idêntica: o medo. Sua reação era similar. Cada um promoveu campanhas contra seus vizinhos (Líbano, Iêmen) ou financiou guerras e golpes de estado (Síria, Egito, Líbia, Iraque). Eles têm inimigos comuns: Irã, Turquia, Qatar, Hamas na Faixa de Gaza e a Irmandade Muçulmana em outros lugares. Também possuem aliados em comum: os lobistas militares e industriais estadunidenses e britânicos e o homem forte do Fatah e agente dos EUA Mohammed Dahlan, que tentou tomar o controle de Gaza e fracassou, mas que, provavelmente, estaria disposto a tentar novamente.
A diferença hoje é que, pela primeira vez na história dos dois estados, foi posta em prática uma coordenação militar. O príncipe Al Turki, sobrinho do rei Abdulá, é o rosto público desta aproximação que saiu à luz pela publicação de um livro sobre a Arábia Saudita escrito por um acadêmico israelense. O príncipe saudita visitou Bruxelas em maio para se reunir com o general Amos Yadlin, o ex-chefe dos serviços de inteligência israelense, que foi processado por um tribunal turco por seu papel naquele ataque ao navio Mavi Marmara, que custou a vida de nove turcos, um deles de nacionalidade estadunidense.
O príncipe Turki parece muito lírico no que se refere às perspectivas de paz, segundo publicado no periódico israelense Haaretz: “Que prazer seria convidar não apenas os palestinos, mas também os israelenses do Riad! Eles poderiam visitar minha antiga casa em Diriyya, que sofreu nas mãos de Ibrahim Pacha a mesma sorte que Jesrusalém nas mãos de Nabucodonossor e dos romanos”.
O analista saudita Yamal Kashogui fala em linguagem codificada do número de intelectuais que atacam a visão da resistência: “Desgraçadamente, o número destes intelectuais aqui na Arábia Saudita é mais elevado que a média. Se esta tendência continuar, ela vai destruir o objetivo louvável do reino de defender e apoiar a causa palestina desde a época de seu fundador, o rei Abdul Aziz al Saúd”.
A paz será, em efeito, bem-vinda por todo o mundo e, sobretudo, em Gaza neste momento. No entanto, os meios pelos quais os aliados de Israel, Arábia Saudita e Egito, querem chegar até ela é incentivando Israel a destruir o Hamas e isto leva a duvidar o que se busca realmente.
Esta aliança entre Israel e Arábia Saudita está banhada no sangue palestino, o sangue que correu no domingo passado em Shuyaiya a partir de um ataque que causou uma centena de vítimas.

::

SOBRE ANTIDEMOCRATAS

por Luiz Carlos Azenha, no Facebook

"No Brasil, 99% das decisões sobre gasto de dinheiro público são tomadas no bastidor; não temos o instituto do recall, aquele que permite revogar o mandato no meio, como existe na Venezuela; não temos consultas como as que acompanham eleições na Europa e Estados Unidos; os plebiscitos são raríssimos; pontos fundamentais da Constituição de 1988 ainda não foram regulamentados, mais de 20 anos depois; partidos são criados para vender tempo de tv nas eleições; torturadores nunca foram punidos; a PM mata primeiro e pergunta depois; a polícia civil não resolve 95% dos crimes; operações da PF, como a Satiagraha e a Castelo de Areia, foram arquivadas com uma canetada; setores inteiros da economia são controlados por monopólios ou oligopólios; uma única emissora de TV recebe quase 50% de toda a publicidade oficial; o patrimônio público é dilapidado a tal ponto que, assim como o manganês se esgotou no Amapá, o minério de ferro vai se esgotar em Carajás sem que haja rede de esgotos em cidades vizinhas; os latifúndios controlam quase 50% das terras; o pagamento de juros consome 40% do orçamento federal; o grande programa social consome apenas 2% do PIB e causa escândalo; estamos entre os recordistas em número de homicídios e concentração de renda.
Aí, a pecha de "antidemocratas" fica exclusivamente reservada para algumas centenas de mascarados. Mas, a revolta despolitizada que expressam não seria consequência de tudo o que descrevi no parágrafo anterior? Ou é o prazer de se ver reconhecido como protagonista num país em que não apitam nada? Sei lá, estou apenas perguntando."

::

A semana inaugural da nova Guerra Fria

Barack Obama anuncia sanções à Rússia (29/7/2014)

[*] MK BhadrakumarIndian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Se historiadores futuros quiserem ver quando aconteceu de a era do pós-guerra fria converter-se em neo-Guerra Fria, bem farão se examinarem de perto a semana em curso. O governo Barack Obama está em astral triunfalista na sequência de alguns sucessos: afinal, conseguiu pôr ordem entre os principais aliados dos EUA na Europa – Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália – todos numa mesma estratégia concertada pra isolar a Rússia da Europa e impor sanções fortes contra a Rússia.

Obama poderia talvez ter feito discurso incendiário à moda da Cortina de Ferro essa semana – não pôde, por causa da Líbia, do Iraque, da Síria, do Afeganistãoet allii, e por causa do horrendo massacre em Gaza que já conspurcou também a reputação dele; além do mais, não esqueçam, Obama é “Prêmio Nobe” e não pode ser visto por aí dando gritos de guerra.

Mesmo assim, a videoteleconferência de Obama com seus contrapartes europeus na 2ª-feira para mostrar o acordo “sobre medidas coordenadas de sanções contra a Rússia” sugere, além de qualquer dúvida, que está terminando o período pós-guerra-fria.

Nas próximas “12-48 horas” Bruxelas anunciará novas sanções contra Moscou baseadas no roteiro dos EUA envolvendo amplo pacote de medidas que visam a pôr de joelhos a economia russa. Washington, na sequência, anunciará suas próprias sanções contra a Rússia.

Essas chamadas Terceira Rodada de sanções estão previstas para atingir instituições financeiras russas, negócios de armas e de tecnologia de exploração de energia. Os bancos russos serão impedidos de operar com novos títulos russos ou substituí-los por outros equivalentes (ing. listing new bond or equity issues)em Bolsas Europeias, e serão banidos nas transferências de tecnologias sensíveis que possam ser usadas em perfuração em mar profundo, exploração no Ártico e extração de xisto betuminoso. O embargo deve incluir também a proibição de futuros negócios de armas com a Rússia.

Putin no Conselho de Segurança da Rússia (28/7/2014)

Moscou adivinhou o que viria e começou a organizar a defesa. 3ª-feira o presidente Vladimir Putin teve reunião do Conselho de Segurança da Rússia no Kremlin, o mais alto corpo para proposição de políticas externas e de segurança. Putin fez ali um importante discurso, para um grupo cuja agenda era, sem dúvida, discutir as opções estratégicas da Rússia no novo clima de Guerra Fria em todas as áreas de políticas nacionais – políticas domésticas, política exterior, política militar e, até, “guerra de informação”. 

Putin disse:

Nossas Forças Armadas continuam a ser a mais importante garantia de nossa soberania e da integridade territorial da Rússia. Reagiremos apropriadamente e proporcionalmente à abordagem pela infraestrutura militar da OTAN contra nossas fronteiras, e não deixaremos de perceber qualquer expansão dos sistemas de mísseis globais de defesa e aumentos nas reservas de armamento estratégico não nuclear de precisão (...). Estamos vendo claramente o que está acontecendo hoje: grupos de tropas da OTAN estão claramente sendo reforçados em estados da Europa Oriental, inclusive no Mar Negro e no Mar Báltico. E a escala e a intensidade do treinamento operacional e de combate estão aumentado. É imperativo implementar todas as medidas planejadas para reforçar a capacidade de defesa de nosso país, plenamente e conforme o cronograma. (Kremlin website [em tradução]).

Os eventos dessa semana simplesmente liquefizeram qualquer resíduo que ainda houvesse de possibilidade de acomodação entre Washington e Moscou. Assim também, o papel mediador da Europa – de França e Alemanha em particular – também se está esvaindo. A avaliação dos EUA é que eles estão numa situação de “ganha-ganha”, porque, como Dmiti Trenin, professor da Carnegie, observou essa semana,

Dmitri Trenin
Ainda que nenhum líder pró-ocidente venha a substituir Putin no Kremlin (...) a Rússia sucumbirá ante outro período de tumultos, tornando-se o maior problema para ela mesma e sem meios para criar problemas para Washington.

Trenin pintou um cenário em traços simplificados:

Já não se trata de lutar pela Ucrânia, mas de batalha pela Rússia. Se Vladimir Putin conseguir manter o povo russo ao seu lado, vencerá. Se não, vem por aí mais uma catástrofe geopolítica.

Claro que Trenin exagera. Para começar, a popularidade de Putin é mais que o dobro da de Obama. Os russos admiram Putin como patriota e líder firme; e os norte-americanos, cada dia mais, veem Obama como vacilante e incompetente, não importa a pose que faça.

Mas o verdadeiro perigo não está aí: está na evidência de que a comunidade internacional pode ter tido de pagar preço caro demais pelas tenebrosas transações em que Obama os está metendo, em cenário de uma nova Guerra Fria. Se o Irã, como já se viu, não foi destruído por sanções, o que leva Obama e seus colegas europeus a crer que país muitíssimo mais poderoso, como a Rússia, poderia ser destruído?

Será que a força somada de EUA e seus aliados europeus basta para “resetar” a ordem mundial e isolar a Rússia, a qual, por falar dela, também é voraz globalizadora (diferente, nisso, da União Soviética)?

Se a Europa não vai comprar petróleo russo e diversificará... o que acontecerá ao mercado de petróleo que serve também o resto do mundo? O que acontece à própria recuperação econômica da Europa, se o preço do petróleo subir à estratosfera?

É absolutamente óbvio que, se a Rússia vê a OTAN e seus sistemas de mísseis antibalísticos como desafio existencial, como admitirá, algum dia, a implantação de bases militares de EUA-OTAN no Afeganistão? E, mais uma vez: se a Rússia é país adversário, por que continuaria a cooperar com os EUA (e com o ocidente) no Irã, Síria ou Iraque?

BRICS - Os Presidentes (16/7/2014)

E onde tudo isso deixa os outros maiores países dos quintais não ocidentais do mundo – Índia, Brasil ou China? Será que o ocidente conta com que esses países pactuarão com o regime de Terceira Rodada de sanções contra a Rússia? E se não pactuarem?

Não, Sr. Trenin, o senhor errou. Não se trata absolutamente do regime russo. Trata-se, isso sim, da ordem mundial. O que está em jogo é o sistema de Bretton Woods e o desafio contra ele que Putin comanda – como se viu bem claramente na reunião dos BRICS em Fortaleza, Brasil.


O que estamos vendo é o contra-ataque de Obama numa guerra de guerrilhas – assustado, ele, ante o desafio que não para de crescer contra a supremacia do dólar norte-americano. O caso é que, sem liberdade total-total para imprimir notas de dólar, a economia dos EUA será fulminada.

O resto do mundo compreende perfeitamente do que trata essa neo-Guerra-Fria. Nem os europeus são perfeitos idiotas; eles também compreendem o que se passa – a forte resistência que manifestaram contra o desejo dos EUA de isolar a Rússia, e que tirou o sono de Obama durante várias semanas e meses, é prova disso.






























Com certeza absoluta, não há ideologia, dessa vez. Não é guerra contra o socialismo ou contra o terrorismo, nem é guerra intrinsecamente pela Ucrânia ou pela Rússia. Em termos simples, a nova Guerra Fria é sobre a perpetuação da dominação pelos EUA em mundo global.

Sem o sistema de Bretton Woods, sem a OTAN, sem superioridade nuclear sobre a Rússia, os EUA já anteveem a possibilidade real de, com o tempo, se irem tornando potência muito reduzida. Sem a liderança trans-Atlântica, os EUA ficam reduzidos ao que foram antes da Iª Guerra Mundial, há cem anos: uma potência regional, com influência só no Hemisfério Ocidental.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.




::