"uma andorinha só não faz verão, mas pode acordar o bando todo"
(Binho)
Crise terminal do capitalismo? - "Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo. A capacidade de o capitalismo adaptar-se a qualquer circunstância chegou ao fim." (Leonardo Boff)
“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma” (Joseph Pulitzer)

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segunda-feira, 5 de março de 2012

Cidade negligencia seus ciclistas em favor dos carros

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por Gabriel Bonis, na Carta Capital


O trânsito de São Paulo vitima, segundo dados de 2010 da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), um ciclista por semana. As estatísticas de 2012 incluem Juliana Dias, de 33 anos, morta na sexta-feira 2 ao ser atingida por um ônibus na avenida Paulista, centro da cidade, quando pedalava para o trabalho.

Três anos antes, a cerca de 30 metros do local, também morria atropelada Márcia Regina de Andrade Prado, de 40 anos.

Apesar da reincidência, os acidentes fatais envolvendo ciclistas na capital paulista vêm caindo: passaram de 61 em 2009 para 49 em 2010. Os números, no entanto, são elevados e evidenciam a ausência de uma abordagem específica da prefeitura para o uso seguro de biciletas em vias movimentadas da cidade.

Para prefeitura de São Paulo, ciclismo é lazer e bicicleta só têm preferência aos domingos e feriados se estiverem em uma das ciclofaixas da cidade. Foto: Daveybot/Flicrk

No momento acidente, testemunhas dizem que Juliana Dias, enterrada no sábado 3 em São José dos Campos (97 quilômetros de São Paulo), se desequilibrou ao tentar desviar de um ônibus e caiu. Ela usava os equipamentos de segurança recomendados: capacete e colete de sinalização. Ainda assim, foi atingida pelo motorista de onibus Reginaldo Francisco dos Santos, indiciado sob suspeita homicídio culposo.

Seria, então, o comportamento inadequado de motoristas, e também de ciclistas, o principal responsável por este tipo de acidente?

Pensando na segurança dos ciclistas, o sistema de transportes de Londres oferece treinamento gratuito a usuários de bicicletas para ensiná-los como lidar com o tráfego, a melhor posição para se colocar na pista e ser visto por motoristas desatentos e dicas para andar de noite e na chuva.

A capital inglesa também investiu na proteção destes indivíduos, com a criação da Barclays Cycle Superhighways, pistas de ciclismo a ligar diversas regiões de Londres ao centro da cidade. O projeto do prefeito Boris Johnson deve ser concluido até 2015. Envolve 12 linhas de ciclovias com piso especial, rotas objetivas e faixas azuis de 1,5 metros de largura para alertar os motoristas sobre o espaço exclusivo.

A “revolução de ciclismo”, como é chamado o plano de Johnson, quer aumentar em 400% o uso de bicicletas na cidade até 2025 com linhas que, atualmente, cobrem uma área em torno de 60 quilômetros quadrados.

Em São Paulo, no entanto, há apenas 55,3 quilômetros de ciclovias (Marginal Tietê, Faria Lima, Sumaré, Radial Leste e Adutora Rio Claro são as principais) e ciclofaixas permanentes, cerca de 10% do planejado. Mas há projetos de ampliação.

As ciclofaixas funcionam apenas aos domingos e feriados, com horário reduzido. Uma política a indicar que, na visão da prefeitura, o ciclismo é uma opção unicamente de lazer e não de transporte.

Por outro lado, a prefeitura de Curitiba vangloria-se de somar 120 quilômetros de ciclovias, mais que as as malhas de Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo juntas.

Os exemplos de capitais europeias, como Amsterdã – a cidade das bicicletas -, mostram que o investimento no setor é a melhor forma de aumentar a segurança e também uma maneira eficiente de diminuir o trânsito.

De acordo com a Embaixada Holandesa de Ciclismo (EHC), rede mundial de empresas privadas, ONGs, universidades, institutos de pesquisas e governos, a Holanda possui mais de 29 mil quilômetros de ciclovias.

O país investiu na construção de intersecções seguras para ciclistas, túneis e pontes específicas. Apenas em Amsterdã, 20 milhões de euros foram gastos por ano em projetoLinks do setor entre 2007 e 2010. E o reflexo é o baixo índice de mortes em acidentes.

Dados da EHC indicam que o número de ciclistas mortos por 100 milhões de quilômetros percorridos no país, que têm 26% de ciclistas misturados em seu tráfego, foi de 1,1 em 2010. A Dinamarca registrou 1,4 acidentes fatais, com 19% de ciclistas, Alemanha, 1,7, com 10% uso de bicicleta, e o Reino Unido, 3,6 com 2% de ciclistas.

Números que poderiam espelhar a política da prefeitura de São Paulo para o setor.


Fonte: Carta Capital

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Bicicletas: o luto de hoje e a luta de sempre

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Três mortes em grandes cidades brasileiras, num só dia. Protestos terça (6/3) em todo o país. Perseguidos pela ditadura do automóvel, ciclistas resistem e se multiplicam

Por Antonio Martins


Chamava-se Juliana (Julie) Dias a bióloga de 33 anos atropelada e morta na manhã de sexta-feira (2/3), na avenida Paulista (foto). Mudou-se há um ano para São Paulo, vinda de São José dos Campos, para trabalhar no banco público de sangue de cordão umbilical do Hospital Sírio-Libanês. Escolheu morar na Vila Mariana, de onde podia ir ao trabalho com autonomia e sem poluir o planeta: de bicicleta. ”Era uma pessoa super alegre, para frente, que fazia tudo por um mundo melhor”, contou Luiza Calandra, sua vizinha, que compartilhava com ela a opção por pedalar.

As circunstâncias precisas do acidente seguem obscuras. A causa essencial parece certa: altares de uma adoração fundamentalista ao automóvel, as metrópoles brasileiras odeiam todos os outros meios de transporte — alguns, ainda mais profundamente. Juliana pedalava pela segunda faixa, a partir da calçada. As testemunhas dizem que foi fechada por um carro ou um ônibus, talvez ambos. Exasperada, gritou: “Eu tou aqui. Cuidado comigo”. Em meio ao fluxo frenético do trânsito, desequilibrou-se, tombou sobre a faixa de ônibus e foi colhida por outro coletivo. Morreu na hora.

No mesmo dia, duas outras mortes de ciclistas fizeram do Brasil um país mais árido. Em Brasília, um homem ainda não identificado não resistiu aos ferimentos e sucumbiu, depois de atropelado por um ônibus no Riacho Fundo — próximo à residência oficial onde, em 1976, o presidente Ernesto Geisel recebeu a notícia do assassinato por tortura do operário Manuel Fiel Filho, no DOI-Codi de São Paulo. Em Marituba (PA), região metropolitana de Belém, um ciclista que se resignara ao acostamento da BR-316 foi morto quando um automóvel o atingiu, para se safar de outro veículo.

* * *

Em São Paulo, uma das poucas cidades brasileiras onde há estatísticas periódicas sobre o uso das diferentes modalidades de transporte, o risco de morrer no trânsito, em bicicleta, é onze vezes maior que num automóvel, e três vezes superior ao de ser atropelado, a pé [1]. Para cada 240 quilômetros de ruas asfaltadas (metade da distância rodoviária entre a cidade e o Rio de Janeiro), há nove metros de ciclovias (o trecho que você percorre, a pé, em sete segundos). Metade delas situa-se às margens insalubres do rio Pinheiros.

* * *

Mas nem o desprezo que a prefeitura devota aos ciclistas, nem os riscos de morte que eles enfrentam todos os dias, os faz desistir. Em São Paulo, a pesquisa origem-destino, realizada a cada dez anos pelo metrô, revela: entre 1997 e 2007, nenhum meio de transporte cresceu mais, em popularidade, que a bicicleta. O número de viagens diárias quase triplicou. Um paulistano, em cada 125 que se deslocam pela metrópole, cumpre o percurso pedalando.

A maior parte está nas periferias, e fez a opção há tempo, inclusive para poupar o preço proibitivo da passagem do ônibus. São trajetos curtos, para o trabalho ou, muito frequentemente, a escola. Mas é provável que a estatística não capte um movimento mais recente. As bicicletas passaram a cruzar a cidade. Tornou-se comum vê-las em vias hostis, de tráfego rápido. Pedalar já não constitui um marcador de grupo social. Sobre as magrelas, há pernas negras e brancas, macacões e saias, rostos enrugados e peles protegidas por protetor solar. Pedala-se também por teimosia: “um lado da cidade não nos quer; insistimos, porque desejamos outra cidade”.

* * *

Chama-se Pedal Verde o coletivo de ciclistas de que participava Juliana Dias. Surgiu há três anos, quando uma bicicletada homenageou Márcia Prado, que morreu em condições muito semelhantes às de Julie, a apenas trinta metros do desastre de hoje. Como dezenas de outros grupos em São Paulo, formou-se movido por um desejo particular. Mantém um site. Idenfica-se com um hino – paródia de Geraldo Vandré, intitulado Pedalando e Plantando. A cada mês, seus integrantes pedalam para plantar mudas de árvores brasileiras nativas. Um inventário revela embaúbas, guapuruxus, grumixamas, jaboticabeiras, cambucis, araçás e (para que não falte uma planta de nome indígena-asteca) abacateiros. Foram fincadas em pontos tão distantes, entre si, quanto a Praça Amundsen (nos sofisticados Altos de Pinheiros) e o Jardim Robru (no extremo Leste de São Paulo, próximo à Avenida dos Nordestinos e aos riachos que confluem às nascentes do Rio Tietê).

Uma galáxia de coletivos semelhantes ao Pedal Verde começou a preparar uma Bicicletada Nacional, para a próxima terça-feira, 6/3. Tem página no Facebook e atividades já programadas, até o momento, em dezessete cidades. Assim como em São Paulo (onde 2 mil pessoas protestaram sexta-feira, debaixo de forte chuva), a resistência à ditadura do automóvel cresce em diversas metrópoles. Não está, ainda, na agenda dos partidos, governos de esquerda ou movimentos sociais tradicionais. Contagia gente como a bióloga Juliana. Alguns morrerão pela causa — mas é possível que ela acabe triunfando. Aconteceu antes, no Brasil e em outros cantos. Você já ouviu falar?

Link


[1] Obtive o dado comparando, para cada meio de transporte, a média diária de mortes por acidente (CET, 2010) com o número de viagens diárias (Cia. do Metrô, 2007). O risco de morrer, em cada deslocamento por automóvel, em S.Paulo, é de 0,39 em 10 milhões. O índice sobe para 1,36, no percursos a pé e para 4,42, nas viagens de bicicleta. As viagens em moto são ainda mais expostas, segundo este critério (18,16 / 10 milhões), mas é provável que sua utilização esteja subestimada na pesquisa “Origem-Destino”, o que distorceria o índice.

Fonte: Outras Palavras


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domingo, 4 de março de 2012

O homem invisível

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Na volta do ano parlamentar, Barbalho, que já foi rei em Brasília, opta por aparições relâmpago, conversas na coxia e o conforto do andar a ele destinado.

por Cynara Menezes, na Carta Capital


Foto:Valter Campanato/ABr


Cadê jader Barbalho? Ninguém sabe, ninguém viu.

Para quem fez questão de tomar posse em pleno recesso parlamentar, depois de um imbróglio jurídico que o deixou fora do Senado durante todo o primeiro ano de mandato, parecia que o paraense ia protagonizar um retorno triunfal. Após dez anos fora da Casa, à qual renunciou para fugir à cassação, Barbalho era aguardado como uma espécie de fênix com cabelos de graúna. Mas, ao menos até agora, o peemedebista tem optado por um estilo discreto, discretíssimo. Ou melhor, quase invisível.

Liberado pelo Supremo Tribunal Federal para exercer o cargo após o julgamento que considerou a Ficha Limpa inválida para quem se elegeu em 2010, Barbalho assumiu o Senado no lugar de Marinor Brito (PSOL) em 29 de dezembro. Na época, definiu seu retorno como “confortável”, embora garantisse não ter a ambição de voltar a ocupar altos cargos no Legislativo – ele chegou a ser presidente do Congresso em 2001. A seu lado na posse, Daniel, de 9 anos, seu filho, mostrava a língua aos fotógrafos, zombeteiramente.

Depois disso, o paraense sumiu. Na primeira semana do ano legislativo pós-carnaval, foi pouquíssimo visto no plenário e nas comissões. Em seu gabinete, informavam que o peemedebista estava “em audiência” ou “em reunião”. Até a assessora de imprensa do senador desapareceu (estaria de férias), apesar de os trabalhos já terem sido retomados.

Na terça-feira 28, à tarde, o senador fez uma aparição relâmpago. Foi ao plenário para registrar presença, ficou sentado durante poucos minutos, e não mais foi visto. No dia seguinte à tarde, não deu o ar da graça, embora não tenha sido o único a faltar. Às 16 horas, enquanto o senador Paulo Davim (PV-RN) ocupava a tribuna para falar da incidência de catarata na população brasileira, havia oito senadores no plenário. Na presidência dos trabalhos, uma sonolenta Marta Suplicy, tal professorinha primária, fazia a chamada dos oradores inscritos para discursar. Silêncio.

Pouco depois, com a sirene a convocar para votação, chegaram a comparecer cerca de 30 dos 81 senadores. Barbalho não estava entre eles. No fundo do plenário, dois funcionários especulavam sobre a ausência do paraense.

“Ele não vai aparecer. Só veio ontem, não vai vir dois dias seguidos. Para quê? A esta altura, já voltou para o Pará.”

“Ele não precisa aparecer, já está mandando em tudo aqui. Ontem o presidente José Sarney desceu da mesa para cumprimentá-lo. E ele ficou sentado, enquanto Sarney conversava de pé.”

Sarney é um dos poucos senadores contemporâneos dos tempos áureos de Barbalho. Quase todos os que conviveram com ele no auge já se foram, até mesmo os desafetos. Sua rentrée na Casa faz voltar à memória sombrias figuras idas, vivas ou mortas, como Antonio Carlos Magalhães, Luiz Estevão ou José Roberto Arruda, que entre 2000 e 2001 seriam submetidos a processos de cassação. Estevão foi cassado. ACM e Arruda renunciaram.

Dá até um certo saudosismo mórbido: naquele tempo, o Senado viveu uma fase “mágica” de guerra entre coronéis da política. Não eram só bate-bocas triviais ou ocasionais apartes como agora. A troca de insultos pesados era cortesia da casa: ACM chamava Barbalho de “ladrão”, este chamava o baiano de “corrupto” e “farsante”. Barbalho dizia que ACM ia mandar matá-lo, o baiano respondia que o paraense ia acabar preso. Choviam pedidos de CPIs de um lado e de outro. Uma animação que rendia manchetes. Outra época, suspirariam alguns.

Barbalho não tem mais ACM no seu encalço, mas isso não significa que terá paz. Em 7 de fevereiro, feliz ante a possibilidade de uma tarde tranquila pela frente, o senador foi surpreendido ao chegar ao plenário com a notícia de que sofreria um ataque virulento proferido da tribuna por seu atual arqui-inimigo, o senador Mário Couto. Dono de um temperamento histriônico, Couto é conhecido por fazer discursos estapeando a mesa. Contra o peemedebista, o senador tucano, seu conterrâneo do Pará, ameaça desenrolar uma “minissérie” na tribuna cada vez que o colega aparecer em plenário.

Naquela tarde, soltou o primeiro capítulo. “Como é que senadores, políticos que seguiram a mesma carreira minha, entram aqui milionários? Diga-me, nação brasileira, como pode? Aqueles que fizeram exatamente o mesmo caminho que eu, como podem ter televisão, jornais, rádios, fazendas? Como pode, Brasil? Político que só militou na política e que vira rico de uma hora para outra é ladrão!”, desferiu Couto, que reclamava do tratamento dado a ele pelo jornal Diário do Pará, que integra um império de comunicação da família Barbalho.

“Essa minissérie começou hoje. Se querem briga, vamos para a briga, vamos para o pau. Cada um sabe como fede. Esse é o início da minissérie. Pode vir quente que eu estou fervendo”, ameaçou o senador, esbofeteando como sempre a tribuna, com ambas as mãos. Barbalho nem chegou a ouvir o capítulo de estreia: tratou de sair à francesa, pouco antes do discurso do oponente.

Pergunto a Couto por que o desafeto não tem aparecido no plenário. Ele responde com uma gargalhada. “Não imagino por que, será que foi por causa do meu discurso?”, provoca, e aproveita para reclamar das regalias do desafeto. “O gabinete dele é melhor do que o meu, que estou há sete anos aqui.”

Mesmo em seu novo estilo low profile, Barbalho conseguiu uma vaguinha no concorrido anexo I do Senado. “Vaguinha” é modo de dizer: ocupa todo o segundo andar do prédio. E não é só Couto quem anda com ciúmes. Os gabinetes localizados no edifício, um dos dois espigões que costumam aparecer nos cartões postais de Brasília, são objeto de desejo de todos os senadores por darem direito a amplos janelões niemeyerianos, com vista para o Palácio do Planalto. Se continuar afastado do plenário, o que não vai faltar a Barbalho é tempo para apreciar a paisagem.

Fonte: Carta Capital

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Estado máximo, só para os bancos

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Só setor financeiro privado e grandes transnacionais ganham com privatizações

por Maria Lucia Fattorelli

Coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, sugestão do Igor Felippe


Em meio a insistentes ataques da grande mídia à “corrupção” de autoridades dos três poderes institucionais, uma verdadeira corrupção institucional está ocorrendo no campo financeiro e patrimonial do país, destacando-se: privatização da previdência dos servidores públicos, privatização de jazidas de petróleo — inclusive do pré-sal –, privatização dos aeroportos mais movimentados do país, privatização de rodovias, privatização de hospitais universitários, privatização de florestas, privatização da saúde, educação, segurança…

E muitos outros serviços essenciais, que recebem cada vez menor quantidade de recursos haja vista a luta de 20 anos pela implantação do piso salarial dos trabalhadores da Educação, a recente greve dos policiais na Bahia, ausência de reajuste salarial para os servidores em geral, entre vários outras necessidades não atendidas, evidenciada recentemente na tragédia dos moradores do Pinheirinho em São Paulo, enquanto o volume destinado ao pagamento de Juros e Amortizações da Dívida Pública continua crescendo cada vez mais.

Qual a justificativa para a entrega de áreas estratégicas ao setor privado? Por que criar um mega fundo de pensão para os servidores públicos do país quando os fundos de pensão estão quebrando no mundo todo, levando milhões de pessoas ao desespero? Por que leiloar jazidas de petróleo se a Petrobrás possui tecnologia de ponta? Por que abrir mão da segurança nacional ao entregar os aeroportos mais movimentados para empresas privadas e até estrangeiras? Por que privatizar os hospitais universitários se esses são a garantia de formação acadêmica de qualidade? Por que privatizar florestas em um mundo que clama por respeito ambiental? Por que deixar que serviços básicos, sejam automaticamente privatizados, a partir do momento em que se corta recursos destas áreas? O que há de comum em todas essas privatizações e em todas essas questões?

O ponto central está no fato de que o beneficiário de todas essas medidas é um ente estranho aos interesses do povo brasileiro e da Nação. Os únicos beneficiários têm sido o setor financeiro privado e as grandes transnacionais.

Então, por que o governo tem se empenhado tanto em aprovar todas essas medidas contrárias aos interesses nacionais? E o que diz a grande mídia a respeito dessas medidas indesejáveis? Não divulga a posição dos afetados e prejudicados por todas essas medidas, mas promove uma completa “desinformação” ao apresentar argumentos falaciosos e convincentes propagandas de que o Brasil vai muito bem e que a economia está sob controle.

Ora, se estamos tão bem assim, qual a razão para rifar o patrimônio público? Por que esse violento round de privatizações partindo justamente de quem venceu as eleições acusando a privataria? Na realidade, o país está sucateado. Vejam as estradas rodoviárias assassinas e a ausência de ferrovias; a desindustrialização; o esgotamento de nossas riquezas; as pessoas sem atendimento hospitalar, com cirurgias adiadas até a morte; os profissionais de ensino desrespeitados e obrigados a assumir vários postos de trabalho para sustentar suas famílias; o crescimento da violência e do uso de drogas.

É inegável o fato de que o PIB brasileiro cresceu e já somos a 6ª potencia mundial, mas o último relatório da ONU mostra que ocupamos a vergonhosa 84ª posição em relação ao atendimento aos direitos humanos, de acordo com o IDH [1], o que é inadmissível considerando as nossas imensas riquezas.

Algo está muito errado. Não há congruência entre nossas riquezas e nossa realidade social. Não há coerência entre o discurso ostentoso e a liquidação do patrimônio nacional. Dizem que temos reservas internacionais bilionárias, mas não divulgam o custo dessas reservas para o país, o dano às contas públicas e ao crescimento acelerado da dívida pública brasileira que paga os juros mais elevados do mundo.

Dizem que temos batido recordes com exportações, mas não divulgam que lá de fora, valorizam os preços das chamadas “commodities” e o que fazemos: aceleramos a exploração dos nossos recursos naturais e os exportamos às toneladas. Mas quem ganha já não é o país, pois as minas, as siderúrgicas e o agrobusiness já foram privatizados há muito tempo.

Outra grande falácia é de que o Brasil está tão bem que a crise financeira que abalou as economias dos países mais ricos do Norte – Estados Unidos e Europa – pouco afetou o país. A grande mídia não divulga, mas a raiz da atual crise “da Dívida” que abala as economias do Norte está na crise do setor financeiro.

A crise estourou em 2008 quando as principais instituições financeiras do planeta entraram em risco de quebra. Tal crise dos bancos decorreu do excesso de emissão de diversos produtos financeiros sem lastro – principalmente os derivativos — possibilitada pela desregulamentação e autonomia do setor financeiro bancário. Embora tivessem agido com tremenda irresponsabilidade na emissão e especulação de incalculáveis volumes de papéis sem lastro, tais bancos foram “salvos” pelos países do Norte à custa do aumento da dívida pública, que agora está sendo paga por severos planos de ajuste fiscal contra os trabalhadores e crescente sacrifício de direitos sociais.

Apesar da monumental ajuda das Nações aos bancos, o sistema financeiro internacional ainda se encontra abarrotado de derivativos e outros papéis sem lastro – tratados pela grande mídia como “ativos tóxicos”. Grande parte desses papéis foi transferida para “bad Banks” [2] em várias partes do mundo, à espera de serem trocados por “ativos reais”, principalmente em processos de privatizações.

Assim funcionam as privatizações: são uma forma de reciclar o acúmulo de papéis e transferir as riquezas públicas para o setor financeiro privado. Relativamente à privatização da Previdência dos Servidores Públicos, o Projeto de Lei PL-1992 cria o FUNPRESP que, se aprovado, deverá ser um dos maiores fundos de pensão do mundo.

Na prática, esse projeto se insere em tendência mundial ditada pelo Banco Mundial, de reduzir a participação estatal a um benefício mínimo, como alerta Osvaldo Coggiola, em seu artigo “A Falência Mundial dos Fundos de Pensão”: “Com este esquema, o que se quer é reduzir a aposentadoria estatal de modo a diminuir o gasto em aposentadorias e aumentar os pagamentos da dívida do Estado.”

A dívida brasileira já supera os R$ 3 trilhões. A grande mídia não divulga esse número, mas o mesmo está respaldado em dados oficiais [3]. Os fundos de pensão absorvem grandes quantidades de papéis, pois funcionam trocando o dinheiro dos trabalhadores por papéis que circulam no mercado financeiro. Os tais “ativos tóxicos” estão provocando sérios danos aos fundos de pensão, como adverte Osvaldo Coggiola: “… duas Agentinas e meia faliram nos Estados Unidos como produto da crise do capital, levando consigo os fundos de pensões lastreados em suas ações. Na Europa, a situação não é melhor. A OCDE advertiu sobre o grave risco da queda nas Bolsas sobre os fundos privados de pensão, cuja viabilidade está ligada à evolução dos mercados de renda variável: “Existe o risco de que as pessoas que investiram nesses fundos recebam pouco ou nada depois de se aposentar”.

O art. 11 do PL-1992 não permite ilusões quanto ao risco para os servidores federais brasileiros, pois assinala que a responsabilidade do Estado será restrita ao pagamento e à transferência de contribuições ao FUNPRESP. Em outras palavras, se algo funcionar errado com o FUNPRESP; se este adquirir papéis podres ou enfrentar qualquer revés, não haverá responsabilidade para a União, suas autarquias ou fundações. Previdência é sinônimo de segurança. Como colocar a previdência em aplicações de risco? Qual o sentido dessa medida anti-social?

O gráfico a seguir revela porque a Previdência Social tem sido alvo de ferrenhos ataques por parte do setor financeiro nacional e internacional: o objetivo evidente, como também alertou Osvaldo Coggiola, é apropriar-se dos recursos que ainda são destinados à Seguridade Social para destiná-los aos encargos da dívida pública.

As diversas auditorias cidadãs em andamento no Brasil e no exterior, bem como a auditoria oficial equatoriana (2007/2008) e a CPI da Dívida no Brasil (2009-2010) têm demonstrado que o único beneficiário do processo de endividamento público tem sido o setor financeiro.

No Brasil, o gráfico a seguir denuncia o privilégio da dívida, pois a dívida absorve quase a metade dos recursos do orçamento federal, o que explica o fabuloso lucro auferido pelos bancos aqui instalados, enquanto faltam recursos para as necessidades sociais básicas, tornando nosso país um dos mais injustos do mundo.

É urgente unir as lutas contra a privatização do que ainda resta de patrimônio público no Brasil, pois é para pagar a dívida pública e preservar este modelo de “Estado Mínimo” para o Social – e “Estado Máximo” para o Capital – que as riquezas nacionais continuam sendo privatizadas.

[1] IDH = Indice de Desenvolvimento Humano
[2]
Bad banks = instituições paralelas, criadas para absorver grandes quantidades de “ativos tóxicos” que alcançaram volumes tão elevados que passaram a comprometer o funcionamento do sistema financeiro mundial. Até mesmo o G-20 (grupo dos 20 países mais ricos do mundo) chegou a pautar, na última reunião ocorrida en Cannes, a preocupante questão do Sistema Bancário Paralelo.
[3]
Elaboração: Auditoria Cidadã da Dívida.

Link

Nota: O valor de R$ 708 bilhões inclui o chamado “refinanciamento” ou “rolagem”, pois a CPI da Dívida Pública comprovou que parte relevante dos juros são contabilizados como tal.


Fonte: Viomundo


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sábado, 3 de março de 2012

Origens e atenuantes da violência

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*O autor poderia usar a expressão "ser humano" em vez de "homem" o tempo todo, mas o texto é muito bom!






Origens e atenuantes da violência

Por Sótero Araújo Medrado

Estamos experienciando atônitos tempos de barbárie, de flagrante negação da alteridade. O homem civilizado – homo sapiens - e cibernetizado – homo cyber - estereotipou-se, paradoxalmente, num outro eu estranho de si mesmo. Povoam as consciências profundas incertezas quanto à capacidade humana de encontrar a razoabilidade da vida, buscar a atitude sensata, sondar o recôndito valor de sua existencialidade. O que nos deixa em letargia e desolação é a incerteza inexorável de uma eventual restauração da estrutura ontológica do indivíduo. Creio que a perda da dimensão do outro, tenha afastado o homem de sim mesmo. Uma existência, digo, humana, só se reconhece na presença de outra existência, fora disso o homem não saberia de si, de sua facticidade, historicidade.

Atrocidades

"Nada mais se fala senão em horrendas atrocidades do humano contra o humano. A vida tornou-se impossível. Há insuficientes ecos de defesa em favor da vida. Mas há muito mais eficiência na acusação contra ela"

A escalada da violência perpetrada pelo homem em todo mundo tem pautado diuturnamente os noticiários nacional e internacional. Nada mais se fala senão em horrendas atrocidades do humano contra o humano. A vida tornou-se impossível. Há insuficientes ecos de defesa em favor da vida. Mas há muito mais eficiência na acusação contra ela. A vida vem se despotencializando, nadificando-se. A existência do outro, assim como a do algoz, que a natureza levou bilhões de anos para engendrar, é abruptamente ceifada por atos tresloucados de bestialidade, que espalha dor e cega qualquer tentativa de compreensão desses desmandos. Assistimos, assim, o desequilíbrio de uma ordem (Razão) implícita a toda natureza, que governa o universo segundo o signo de uma justa medida. A falta de discernimento por parte do homem em face da existência de uma consciência cósmica, que os gregos chamavam de LOGOS e os latinos de ratio, vem nos empurrando ao caos inicial, onde não havia ordem (bom senso), mas a desorientação de corpos cegos a vagar no espaço.

Natureza x razão

Invocar o estatuto natural do homem, a sua animalidade, a sua função instintiva de alimentação, reprodução e conservação, como fundante de suas ações de topor e estupenda agressão contra o seu igual, não me parece razoável. Que a violência assenta algumas de suas raízes na base natural, não há dúvida. Mas a animalidade por si só não é determinante da desordem do homem. A necessidade do ser-da-razão e a resposta dada a esta vai determinar o seu aspecto de negatividade ou positividade, evidenciando o seu componente de violência. A busca desmedida para satisfazer desejos produz uma potencialidade negativa, que está na ordem da sua aquisição ou não. A satisfação e a insatisfação são a dualidade, no interior da qual se efetiva o problema da violência.

Mais do que a natureza, o dado da razão dotou o homem de autoconhecimento e valores, como virtude, moral e sabedoria, o que pode ser confirmado em Sócrates e Platão. Assim, conferiu ao homem a capacidade volitiva e a liberdade de escolha. O homem é o único animal que sabe que sabe. Sabe o que quer e mais que isso, o que não quer. Sabendo o que não quer, ele escolhe, decide e se projeta para o que poderá querer, seguro de que pode sempre mais. A crença no possível é tarefa que o homem não deve postergar. É precisamente nesse movimento, que o homem faz a passagem da necessidade à escolha, donde se operacionam os sentimentos de contentamento e descontentamento, "cheio ou vazio”, "falta ou completude", que a depender do saciar-se ou não, produz a violência.

Cartesianismo

Na época, século XVI, a res-cogitans, pensada por Descartes, foi apresentada como solução para o conhecimento e os problemas humanos, a extensão era só a verificabilidade do pensado (res-extensa= a matéria extendida no espaço, inclusive o meu corpo). O cartesianismo reduziu o homem a um dualismo psicofísico, protagonizado por um racionalismo que se estabeleceu enquanto critério de verdade. O Cogito, Ego Sum cartesiano aprisionou o homem no pensamento, assim como Sigmund Freud o encarcerou no inconsciente. No primeiro, temos um homem cuja ações são dirigidas por um racionalismo exacerbado e uma mentalidade mecânica da vida. Aqui o mundo já está dado, não cabendo mais lugar para imprevisibilidade, o novo. No segundo, as ações do homem são explicadas pela força residual do passado, enquanto conteúdo do inconsciente, que determina as suas atitudes. Já para Karl Marx, a causa do sofrimento do homem estava nas relações de trabalho. Mudando a lógica trabalho x capital, o homem estaria salvo. Onde está de fato o problema do homem? Será que a razão sozinha pode nos apontar uma saída? E o inconsciente, o que tem a contribuir? Ou mudando o modelo de produção econômica com ênfase no capital, para um outro com acento no social, redimiria o homem?

"A violência reside na tensão entre a necessidade e a busca da satisfação. Ela não está somente na carência, mas também na abundância"

Mutatis mutandi, problema da violência não deve passar ao largo do âmbito da razão. Não se postula aqui forjar o homem ideal, mas garantir a sua possível razoabilidade. Por outro lado, abandoná-lo nos braços de Gaia, como desejou Nietzsche, seria imergi-lo na combustão da imanência sem transcendência.

Necessidade x desejo

Desta forma, a violência reside na tensão entre a necessidade e a busca da satisfação. Ela não está somente na carência, mas também na abundância. Aprendemos com o estudo do desenvolvimento dos povos que as nações quando atingem altos índices de desenvolvimento e bem-estar, ressentem da sensação de inércia diante da falta de expectativa e prospectiva de vida, quando não se sabe mais o que buscar. O que está cheio já não recebe mais, carecendo da falta do receber. Este sintoma da vazão ao tédio, o egoísmo e a solidão. Aqui, o homem cercado de tudo, vivência o seu mais completo niilismo, o nada, a impotência de não ter mais nada a necessitar, senão a necessidade de esvaziar o corpo cheio, para sentir-se novamente desejoso de enchê-lo.

Não somos imparciais quando dizemos que a violência só vem dos morros, das ruas, das drogas, ou seja, de onde mais sentimos a ausência do Estado?! Mas o que dizer daquela violência oriunda de pessoas mais instruídas e abastadas? Jovens de classe alta, embriagados, drogados ou não, socialmente saciados dos seus apetites mais refinados, não tendo mais o que possuir, apóiam-se em seus carrões para dar evasão a seus desejos fúteis e desmedidos, fazendo da velocidade a morte dos seus semelhantes. Ainda, o que dizer de jovens ricos que ateiam fogo em mendicantes, índios e trabalhadores? O que dizer da escalada dos homicídios que assolam o Brasil? Pais que vitimam filhos indefesos e filhos que tiram as vidas dos seus genitores, etc.

Insanidades

É sabido que a violência se camufla em múltiplas formas e graus. A violência física é o ápice da insanidade do homem em se afirmar pela força e o poder de dominar e/ou eliminar o outro. As outras manifestações de violência às vezes podem ser potencialmente mais devastadoras do que a física, como por exemplo, a humilhação pelo destrato, a discriminação de qualquer natureza, a indiferença, o abandono, as desigualdades, os assédios, a exploração sexual e do trabalho infantil, a violência doméstica, enfim as nossas intolerâncias políticas e religiosas.

"O papel da Educação é uma das vias fundamentais na potencialização do homem em discernir sensatamente o objeto de suas necessidades e aí poder fazer as suas escolhas com bom juízo"

Em síntese, banir a violência não é uma tarefa possível, mas só ponderável - remediável pelo restabelecimento da sensatez. Aqui o papel da Educação é uma das vias fundamentais na potencialização do homem em discernir sensatamente o objeto de suas necessidades e aí poder fazer as suas escolhas com bom juízo. Saber julgar ou julgar com parcimônia é a condição para vida em harmonia e respeito aos semelhantes, o que quer dizer fazer-se outro enquanto outro - se colocar no lugar do outro. Quem se põe no lugar do outro se faz o MESMO, antevendo a sensação que poderia causá-lo.

Leitura

Na esteira da discussão sobre a violência, quero sublinhar aqui, o inadiável incentivo à leitura nas escolas de ensino fundamental e médio. A leitura é um vetor de desenvolvimento cognitivo e de universalização do homem. Pela leitura, o homem descortina os meandros do conhecimento, de um mundo fantástico de infinitas possibilidades. Por esta, o homem se redimensiona e liberta-se da condição limite e limitante de sua capacidade intelectual e social.

Uma nova têmpera de homem, forjado pelo ‘fogo’ da leitura e a alegria de viver e fazer viver, é tudo que perseguimos, no escopo da humanização do homem, que deve ultrapassar-se a si mesmo, em razão da ressignificação de sua existência


Sótero Araújo Medrado é professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e coordenador do Café Phylo

Fonte: Caros Amigos

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A ciclista morreu na contramão, atrapalhando o tráfego

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Colocar a democracia em prática em um país como o Brasil é perigoso. Além de poder morrer atropelado, ser xingado e considerado um inútil, você ainda pode ser desalojado e tratado como um marginal.




por Leonardo Sakamoto

Mais uma ciclista morreu atropelada em São Paulo. Novamente por um ônibus, novamente na via que é o símbolo do progresso, novamente gerando um protesto de pessoas que defendem que a cidade pertença a todos. E, novamente, criando indignação pelo congestionamento que tudo isso trouxe.

Ao ler as manifestações nas redes sociais, senti aquela vergonha básica de ser paulistano que me acomete semanalmente. Muitos já compraram seu ingresso para o show do Chico Buarque, mas não entendem o que ele diz. Talvez se compreendessem o que significa “Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego”, passariam ao largo do músico.

Quem protesta de verdade, tentando mudar as coisas, é taxado de vagabundo, louco, imbecil, retrógrado, egoísta. Por quê? Porque seres civilizados nunca parariam o trânsito. Manifestação bonita é aquela asséptica que nasce e morre na internet e não ganha as ruas. Para estes manifestantes de butique, reclamar tem limites. A partir daí, vira arruaça. Ou pior, subversão.

Coletei exemplos disso ao longo do tempo. Alguns já postei aqui. Como a conversa de duas senhoras em um avião:

- Você viu que morreu uma daquelas sem-terra na rodovia dia desses. Atropelada.
- Também, estava andando no meio da estrada, fazendo protesto. Atrapalhando o trânsito.

Em outro protesto que juntou sindicatos, movimentos populares e estudantis, organizações da sociedade civil. Mais de quatro mil pessoas, de acordo com a polícia, na mesma Paulista:

- Cambada de vagabundos! Vagabundos!

Perguntei o motivo do taxista gritar contra a multidão.

- Porque eles estão atrapalhando o tráfego. Por que não vão arranjar um emprego?

Colocar a democracia em prática em um país como o Brasil é perigoso. Além de poder morrer atropelado, ser xingado e considerado um inútil, você ainda pode ser desalojado e tratado como um marginal.

Tempos atrás, moradores de uma favela próxima ao Real Parque, zona Sul de São Paulo, fecharam as pistas da Marginal Pinheiros para protestar contra a derrubada de suas casas. Seus barracos estavam em um terreno público e a prefeitura resolveu removê-los antes de finalizar negociações. Houve bombas de gás, surras de cacetetes, enfim, aquela corja tinha que entender o seu lugar. Na TV, a repórter bonita fazia cara de reprovação por conta do trânsito que surgiu na Marginal.

“Ah, mas o congestionamento afetou a vida de mais gente, por isso é a notícia mais importante.” O conceito de relevância jornalística se perde em justificativas como essa, desumanizando a situação. Os dois fatos são notícia. Milhões de pessoas conseguiriam se reconhecer nessas histórias se elas fossem retratadas corretamente. E reconhecendo-se, encontrariam no outro, distante, um companheiro para mobilização.

O tráfego, sempre ele, que reina soberano em uma cidade que quer funcionar como um relógio suíço, sem se atrasar. Protestos agendados, marcados, pequenos, ordenados com começo, meio e fim, protestos que não mudam nada, só expiam culpa, são o desejo de muitos paulistanos, cada vez mais embutidos no sistema. Não conseguem perceber que manifestações que fogem disso, que rompem a lógica, é que são reais e têm poder de mudança.

Nós precisamos nos sentir donos da cidade em que vivemos e inverter as prioridades. Às vezes, entender que chegar um pouco mais tarde no compromisso pode significar muito para aqueles que estão batalhando por seus direitos. E que, muitas vezes, você também será o beneficiário da luta deles. Infelizmente, acreditamos que somos ocupantes provisórios. Caso tivéssemos essa necessária sensação de pertencimento, participaríamos realmente da vida da metrópole e das decisões dos seus rumos. Iríamos todos para a rua.

Investir de verdade em transporte público em detrimento ao individual? Com essa quantidade de carros sendo desovada das fábricas em nome do desenvolvimento? Para quê? Para quem?

Mas, afinal, tudo o que estou falando é um grande besteira. A cidade não pertence às pessoas. São Paulo é dos carros. E, em nome deles, matamos e morremos, homenageando através de corpos estendidos no chão nossa insanidade coletiva.

Fonte: Blog do Leonardo Sakamoto

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SERRA ESTREIA SEU HORÁRIO ELEITORAL

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A estreia do horário eleitoral de Serra no telejornal do apresentador que se notabilizou por ofender garis foi um bate bola entre amigos. Pelota erguida, Serra disparou algo como: 'o problema principal do governo Dilma é que as obras não deslancham...'.

Naturalmente, seu interlocutor não cometeria a indelicadeza de recolocar a bola no campo municipal e quem sabe arguir o convidado sobre a grande obra de impermeabilização das margens do Tietê, por exemplo. Colosso do ambientalismo tucano cometido durante a sua passagem pelo governo do Estado, a obra deslanchou criticada por nove entre dez especialistas em drenagem e urbanismo. Perto disso, a infração de quem se considera um craque em Brasil mas troca o nome do país, é ato falho menor.

O amistoso feito de passes curtos e salamaleques franqueados às espinhas lubrificadas de anti-petismo, antecipa a disposição midiática de ocultar o que quer que seja da ruinosa herança de oito anos da dupla Kassab/Serra na capital, nem que chova canivete. Ou pedaços de viadutos, o que tem acontecido literalmente, com a regularidade alarmante dos eventos que anunciam uma dinâmica, não uma exceção. Quase simultaneamente à tertúlia desta semana na TV, despencava mais um pedaço de concreto de uma das 270 pontes e passarelas de uma capital literalmente caindo aos pedaços, por conta de obras e manutenção que 'não deslancham'. Mas a mídia não chia, nem associa o desgoverno à imagem 'operosa' com a qual seu candidato se vende com anuência obsequiosa dos 'meios'. Três exemplos:

I. SP: concreto de viaduto cai em cima de táxi e deixa 3 feridos(Folha/ 02-03-2012) : "A queda de um pedaço de concreto da estrutura do Viaduto Brigadeiro Luís Antônio, na região central de São Paulo, deixou três ocupantes de um táxi feridos levemente, por volta da 1h desta sexta-feira. Segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), o táxi trafegava pela avenida 23 de Maio, no sentido aeroporto, quando foi atingido por um pedaço de concreto de aproximadamente dois metros..."

II. SP: parte de viaduto cai sobre pedestre (UOL/ 30-03-2011): "Um pedaço de concreto da estrutura do Viaduto Olavo Fontoura, na zona norte, despencou sobre um pedestre na tarde desta quarta-feira, 30, em São Paulo.De acordo com o Corpo de Bombeiros a vítima sofreu ferimentos leves, e foi encaminhada a um hospital próximo.

III, "SP: Cai pedaço da Ponte dos Remédios (Jornal da Tarde 23-11-2011):'Na madrugada de ontem, 30 metros de passeio e do gradil da Ponte dos Remédios despencaram sobre o Rio Tietê'(...)" *A passarela é uma das principais vias que ligam a capital à Osasco, na região metropolitana.

Fonte: Blog das Frases do Saul Leblon - Carta Maior

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sexta-feira, 2 de março de 2012

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O PAÍS QUE O BRASIL PODERIA SER

O BNDES aprovou na 4ª feira um empréstimo de R$ 1,5 bilhão ao Senai. Somados a outros R$ 400 milhões da própria instituição, os recursos vão financiar um programa destinado a praticamente dobrar o número de vagas em cursos profissionais, chegando a 4 milhões por ano, em 2014. Além de duplicar vagas, o dinheiro é suficiente também para ampliar o total de escolas da rede, com a construção de 53 novos Centros de Formação Profissional, seis institutos de Tecnologia, sete institutos de Inovação e 79 unidades móveis. Apertem os cintos: tudo isso está sendo feito com o equivalente a menos de 10% do superávit fiscal recorde obtido em janeiro ; foram R$ 20,8 bilhões integralmente destinados ao pagamento de juros aos rentistas da dívida pública brasileira. A economia feita pelo governo com essa finalidade cresceu mais de 46%, comparado a janeiro de 2011. Numa aproximação grosseira, pode-se inferir que se 50% desse valor fosse canalizado em benefício da educação profissionalizante seria possível abrir quase 10 milhões de vagas em bons centros de ensino (e não há motivo para que não contemplassem também uma formação humanista), beneficiando maciçamente a juventude pobre do país. Hoje, de cada três crianças que ingressam na escola pública, apenas uma chega ao final do ensino médio.Outras duas ficam pelo caminho, incorporando-se ao mercado de trabalho sem qualquer amparo ou formação. Insista-se, são cálculos rudimentares. Mas eles ilustram o país que o Brasil poderia ser e, sobretudo, um pedaço dos obstáculos que o condenam à inércia incremental, insuficiente para construir a sociedade justa que seu povo exige e merece.

Fonte: Carta Maior

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As razões da subordinação de Kassab a Serra

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As razões da subordinação de Kassab a Serra

Lideranças do PSD estão imersas em elucubrações sobre os motivos que levaram o prefeito paulistano Gilberto Kassab a apoiar José Serra. Politicamente é um desastre para o PSD e, dentro do partido, para Kassab.

Chegou-se a aventar a possibilidade de Kassab estar nas mãos de Serra devido a algum segredo recôndito. A explicação é muito mais simples do que parece e pode ser buscada nas origens políticas de Serra, ainda no governo Montoro.

A carreira de Serra foi montada em cima de dois Serra, o 1 e o 2

Seu lado mais eficiente foi o Serra 2, da gestão financeira informal do partido. No governo Montoro indicou os financeiros das principais estatais paulistas; controlou a liberação dos precatórios; monitorou ferreamente a importação de equipamentos médicos. Mais tarde, comnandou a ala tucana do Banespa, através de seu sócio Vladimir Riolli; foi o tucano mais influente no Banco do Brasil, através de Ricardo Sérgio; no Planejamento, controlou as privatizações e foi o mais ferreo defensor (para dentro), embora se poupasse (para fora). Na Saúde, meteu-se na encrenca das ambulâncias. Eleito prefeito, trouxe para a prefeitura um conjunto enorme de prestadores de serviços que atuavam principalmente no Distrito Federal. No Estado, teve o Rodoanel e Paulo Preto.

Serra 2 foi blindado pelo seu alter ego público, o Serra 1, suposto intelectual, economista desenvolvimentista etc. Foi uma blindagem esperta, porque contou, durante anos, com o aval de intelectuais de peso - como Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa e Luiz Gonzaga Beluzzo - iludiu políticos ladinos - como FHC e Lula -, sem contar os jornalistas que caimos nesse conto.

Depois que colocou o pescoço para fora, como governador e como candidato a presidente, constatou-se que o Serra 1, se algum dia existiu, morreu nos anos 80. Já o Serra 2 tornou-se cada vez mais explícito e dominante. A campanha abjeta que desenvolveu desnudou-o de vez, matando resquícios do Serra 1.

Hoje creio estarmos quase todos - jornalistas que o conheceram e o apoiaram no início, economistas desenvolvimentistas, intelectuais tucanos, os próprios FHC e Lula - convencidos de que o estilo Serra, que extravasou nos últimos anos, não se deve a burrice política, desequilíbrio ou quetais. Para consumo externo, Serra era Gianotti; no âmago, sempre foi Itagiba, Gesner, Paulo Preto. O verdadeiro Serra era o Serra 2.

Fez a mais cara campanha de deputado federal em 1989. Para impor sua candidatura presidencial ao partido, o grande trunfo foi seu caixa de campanha, suficientemente robusto para financiar aliados em outros estados. O grande trunfo de Kassab para montar o PSD, sem nunca ter tido atuação nacional, foi o caixa proporcionado pelo terceiro maior orçamento do país - a prefeitura de São Paulo.

O livro "A Privataria Tucana" mostra que Serra montou todo seu universo em torno da família, os únicos a merecerem sua confiança irrestrita. É crível supor que, impondo Kassab ao partido, nas eleições para prefeito, deixasse em suas mãos o controle da caixinha partidária? É evidente que não.Link

Eleito governador, a primeira coisa que Geraldo Alckmin fez foi nomear seu homem para a área de transportes - Saulo de Castro Abreu. A primeira declaração de Saulo foi ameaçar mudar os cálculos dos pedágios paulistas. Chegou até a estimar as perdas das empreiteiras. Dado o aviso sobre quem era o novo rei, quedou em silêncio obsequioso de quem já reconquistou o terreno.

É evidente que, surgindo através das mãos de Serra, Kassab não teve a mesma oportunidade de romper o cordão umbilical. É possível que Serra consiga o recorde de sepultar dois partidos de uma vez.

fonte: Blog do Luis Nassif




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Os Dez Mandamentos (versão revisada e ampliada)

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Os Dez Mandamentos (versão revisada e ampliada)

Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável. O artigo é de Ladislau Dowbor.

O presente artigo faz parte da plataforma de discussão Crises e Oportunidades.1 Participam dele Ignacy Sachs, Carlos Lopes, Ladislau Dowbor e dezenas de outros pesquisadores.


Como sociedade, desejamos não somente sobreviver, mas viver com qualidade de vida, e porque não, com felicidade. E isto implica elencarmos de forma ordenada os resultados mínimos a serem atingidos, com os processos decisórios correspondentes. Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável. Não temos a ilusão relativamente à distância entre a realidade política de hoje e as medidas sistematizadas abaixo. Mas pareceu-nos essencial, de toda forma, elencar de forma organizada as medidas necessárias, pois ter um norte mais claro ajuda na construção de uma outra governança planetária. Não estão ordenadas por ordem de importância, pois a maioria tem implicações simultâneas e dimensões interativas. Mas todos os mandamentos deverão ser obedecidos, pois a ira dos elementos nos atingirá a todos, sem precisar esperar a outra vida.

Considerando que a obediência à versão original dos Dez Mandamentos foi apenas aleatória, desta vez o Autor teve a prudência de acrescentar a cada Mandamento uma nota de explicação, destinada em particular aos impenitentes.

I – Não comprarás os Representantes do Povo

Resgatar a dimensão pública do Estado: Como podemos ter mecanismos reguladores que funcionem se é o dinheiro das corporações a regular que elege os reguladores? Se as agências que avaliam risco são pagas por quem cria o risco? Se é aceitável que os responsáveis de um banco central venham das empresas que precisam ser reguladas, e voltem para nelas encontrar emprego?

Uma das propostas mais evidentes da última crise financeira, e que encontramos mencionada em quase todo o espectro político, é a necessidade de se reduzir a capacidade das corporações privadas ditarem as regras do jogo. A quantidade de leis aprovadas no sentido de reduzir impostos sobre transações financeiras, de reduzir a regulação de banco central, de autorizar os bancos a fazerem toda e qualquer operação, somado com o poder dos lobbies financeiros tornam evidente a necessidade de se resgatar o poder regulador do estado, e para isto os políticos devem ser eleitos por pessoas de verdade, e não por pessoas jurídicas, que constituem ficções em termos de direitos humanos. Enquanto não tivermos financiamento público das campanhas, políticas que representem os interesses dos cidadãos, prevalecerão os interesses econômicos de curto prazo, os desastres ambientais e a corrupção.

II – Não Farás Contas erradas

As contas têm de refletir os objetivos que visamos. O PIB indica a intensidade do uso do aparelho produtivo, mas não nos indica a utilidade do que se produz, para quem, e com que custos para o estoque de bens naturais de que o planeta dispõe. Conta como aumento do PIB um desastre ambiental, o aumento de doenças, o cerceamento de acesso a bens livres. O IDH já foi um imenso avanço, mas temos de evoluir para uma contabilidade integrada dos resultados efetivos dos nossos esforços, e particularmente da alocação de recursos financeiros, em função de um desenvolvimento que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justo e ambientalmente sustentável. As metodologias existem, aplicadas parcialmente em diversos países, setores ou pesquisas.

A ampliação dos indicadores internacionais como o IDH, a generalização de indicadores nacionais como os Calvert-Henderson Quality of Life Indicators nos Estados Unidos, as propostas da Comissão Stiglitz/Sen/Fitoussi, o movimento FIB – Felicidade Interna Bruta – todos apontam para uma reformulação das contas. A adoção em todas as cidades de indicadores locais de qualidade de vida – veja-se os Jacksonville Quality of Life Progress Indicators – tornou-se hoje indispensável para que seja medido o que efetivamente interessa: o desenvolvimento sustentável, o resultado em termos de qualidade de vida da população. Muito mais do que o produto (output), trata-se de medir o resultado (outcome).

III – Não Reduzirás o Próximo à Miséria

Algumas coisas não podem faltar a ninguém. A pobreza crítica é o drama maior, tanto pelo sofrimento que causa em si, como pela articulação com os dramas ambientais, o não acesso ao conhecimento, a deformação do perfil de produção que se desinteressa das necessidades dos que não têm capacidade aquisitiva. A ONU calcula que custaria 300 bilhões de dólares (no valor do ano 2000) tirar da miséria um bilhão de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. São custos ridículos quando se considera os trilhões transferidos para grupos econômicos financeiros no quadro da última crise financeira. O benefício ético é imenso, pois é inaceitável morrerem de causas ridículas 10 milhões de crianças por ano. O benefício de curto e médio prazo é grande, na medida em que os recursos direcionados à base da pirâmide dinamizam imediatamente a micro e pequena produção, agindo como processo anticíclico, como se tem constatado nas políticas sociais de muitos países. No mais longo prazo, será uma geração de crianças que terão sido alimentadas decentemente, o que se transforma em melhor aproveitamento escolar e maior produtividade na vida adulta. Em termos de estabilidade política e de segurança geral, os impactos são óbvios. Trata-se do dinheiro mais bem investido que se possa imaginar, e as experiências brasileira, mexicana e de outros países já nos forneceram todo o know-how correspondente. A teoria tão popular de que o pobre se acomoda se receber ajuda, é simplesmente desmentida pelos fatos: sair da miséria estimula, e o dinheiro é simplesmente mais útil onde é mais necessário.

IV – Não Privarás Ninguém do Direito de Ganhar o seu Pão

Universalizar a garantia do emprego é viável. Toda pessoa que queira ganhar o pão da sua família deve poder ter acesso ao trabalho. Num planeta onde há um mundo de coisas a fazer, inclusive para resgatar o meio ambiente, é absurdo o número de pessoas sem acesso a formas organizadas de produzir e gerar renda. Temos os recursos e os conhecimentos técnicos e organizacionais para assegurar, em cada vila ou cidade, acesso a um trabalho decente e socialmente útil. As experiências de Maharashtra na Índia demonstraram a sua viabilidade, como o mostram as numerosas experiências brasileiras, sem falar no New Deal da crise dos anos 1930. São opções onde todos ganham: o município melhora o saneamento básico, a moradia, a manutenção urbana, a policultura alimentar. As famílias passam a poder viver decentemente, e a sociedade passa a ser melhor estruturada e menos tensionada. Os gastos com seguro-desemprego se reduzem. No caso indiano, cada vila ou cidade é obrigada a ter um cadastro de iniciativas intensivas em mão de obra.

Dinheiro emprestado ou criado desta forma representa investimento, melhoria de qualidade de vida, e dá excelente retorno. E argumento fundamental: assegura que todos tenham o seu lugar para participar na construção de um desenvolvimento sustentável. Na organização econômica, além do resultado produtivo, é essencial pensar no processo estruturador ou desestruturador gerado. A pesca oceânica industrial pode ser mais produtiva em volume de peixe, mas o processo é desastroso, tanto para a vida no mar como para centenas de milhões de pessoas que viviam da pesca tradicional. A dimensão de geração de emprego de todas as iniciativas econômicas tem de se tornar central. Assegurar a contribuição produtiva de todos, ao mesmo tempo que se augmenta gradualmente o salário mínimo e se reduz a jornada, leva simplesmente a uma prosperidade mais democrática.

V – Não Trabalharás Mais de Quarenta Horas

Podemos trabalhar menos, e trabalharemos todos, com tempo para fazermos mais coisas interessantes na vida. A sub-utilização da força de trabalho é um problema planetário, ainda que desigual na sua gravidade. No Brasil, conforme vimos, com 100 milhões de pessoas na PEA, temos 31 milhões formalmente empregadas no setor privado, e 9 milhões de empregados públicos. A conta não fecha. O setor informal situa-se na ordem de 50% da PEA. Uma imensa parte da nação “se vira” para sobreviver. No lado dos empregos de ponta, as pessoas não vivem por excesso de carga de trabalho. Não se trata aqui de uma exigência de luxo: são incontáveis os suicídios nas empresas onde a corrida pela eficiência se tornou simplesmente desumana. O stress profissional está se tornando uma doença planetária, e a questão da qualidade de vida no trabalho passa a ocupar um espaço central. A redistribuição social da carga de trabalho torna-se hoje uma necessidade. As resistências são compreensíveis, mas a realidade é que com os avanços da tecnologia os processos produtivos tornam-se cada vez menos intensivos em mão de obra, e reduzir a jornada é uma questão de tempo. Não podemos continuar a basear o nosso desenvolvimento em ilhas tecnológicas ultramodernas enquanto se gera uma massa de excluídos, inclusive porque se trata de equilibrar a remuneração e, consequentemente, a demanda. A redução da jornada não reduzirá o bem estar ou a riqueza da população, e sim a deslocará para novos setores mais centrados no uso do tempo livre, com mais atividades de cultura e lazer. Não precisamos necessariamente de mais carros e de mais bonecas Barbie, precisamos sim de mais qualidade de vida.

VI – Não Viverás para o Dinheiro

A mudança de comportamento, de estilo de vida, não constitui um sacrifício, e sim um resgate do bom senso. Neste planeta de 7 bilhões de habitantes, com um aumento anual da ordem de 75 milhões, toda política envolve também uma mudança de comportamento individual e da cultura do consumo. O respeito às normas ambientais, a moderação do consumo, o cuidado no endividamento, o uso inteligente dos meios de transporte, a generalização da reciclagem, a redução do desperdício – há um conjunto de formas de organização do nosso cotidiano que passa por uma mudança de valores e de atitudes frente aos desafios econômicos, sociais e ambientais.

No apagão energético do final dos anos 90 no Brasil, constatou-se como uma boa campanha informativa, o papel colaborativo da mídia, e a punição sistemática dos excessos permitiu uma racionalização generalizada do uso doméstico da energia. Esta dimensão da solução dos problemas é essencial, e envolve tanto uma legislação adequada, como sobretudo uma participação ativa da mídia.

Hoje 95% dos domicílios no Brasil têm televisão, e o uso informativo inteligente deste e de outros meios de comunicação tornou-se fundamental. Frente aos esforços necessários para reequilibrar o planeta, não basta reduzir o martelamento publicitário que apela para o consumismo desenfreado, é preciso generalizar as dimensões informativas dos meios de comunicação. A mídia científica praticamente desapareceu, os noticiários navegam no atrativo da criminalidade, quando precisamos vitalmente de uma população informada sobre os desafios reais que enfrentamos. A pergunta a se fazer a cada ato de conusmo, não é só se “é bom para mim”, mas se é bem para o planeta e o bem comum, e buscar um equilíbrio razoável. A opção individual é essencial, mas não suficiente.

Grande parte da mudança do comportamento individual depende de ações públicas: as pessoas não deixarão o carro em casa (ou deixarão de tê-lo) se não houver transporte público, não farão reciclagem se não houver sistemas adequados de coleta. Precisamos de uma política pública de mudança do comportamento individual.

VII – Não Ganharás Dinheiro com o Dinheiro dos Outros

Racionalizar os sistemas de intermediação financeira é viável. A alocação final dos recursos financeiros deixou de ser organizada em função dos usos finais de estímulo e orientação de atividades econômicas e sociais, para obedecer às finalidades dos próprios intermediários financeiros. A atividade de crédito é sempre uma atividade pública, seja no quadro das instituições públicas, seja no quadro dos bancos privados que trabalham com dinheiro do público, e que para tanto precisam de uma carta-patente que os autorize a ganhar dinheiro com dinheiro dos outros. A recente crise financeira de 2008 demonstrou com clareza o caos que gera a ausência de mecanismos confiáveis de regulação no setor. Nas últimas duas décadas, temos saltado de bolha em bolha, de crise em crise, sem que a relação de forças permita a reformulação do sistema de regulação em função da produtividade sistêmica dos recursos. Enquanto não se gera uma relação de forças mais favorável, precisamos batalhar os sistemas nacionais de regulação financeira. O dinheiro não é mais produtivo onde rende mais para o intermediário: devemos buscar a produtividade sistêmica de um recurso que é público.

A Coréia do Sul abriu recentemente um financiamento de 36 bilhões de dólares para financiar transporte coletivo e alternativas energéticas, gerando com isto 960 mil empregos. O impacto positivo é ambiental pela redução de emissões, é anti-cíclico pela dinamização da demanda, é social pela redução do desemprego e pela renda gerada, é tecnológico pelas inovações que gera nos processos produtivos mais limpos. Tem inclusive um impacto raramente considerado, que é a redução do tempo vida que as pessoas desperdiçam no transporte. Trata-se aqui, evidentemente, de financiamento público, pois os bancos comerciais não teriam esta preocupação, nem esta visão sistêmica. (UNEP,Global Green New Deal, 2009). Em última instância, os recursos devem ser tornados mais acessíveis segundo que os objetivos do seu uso sejam mais produtivos em termos sistêmicos, visando um desenvolvimento mais inclusivo e mais sustentável. A intermediação financeira é um meio, não é um fim.

Particular atenção precisa ser dada aos intermediários que ganham apenas nos fluxos entre outros intermediários – com papéis que representam direitos sobre outros papéis – e que têm tudo a ganhar com a maximização dos fluxos, pois são remunerados por comissões sobre o volume e ganhos, e geram portanto volatilidade e pro-ciclicidade, com os monumentais volumes que nos levaram por exemplo a valores em derivativos da ordem de 863 trilhões de dólares em junho de 2008, 15 vezes o PIB mundial. A intermediação especulativa – diferentemente das intermediação de compras e vendas entre produtores e utilizadores finais – apenas gera uma pirâmide especulativa e insegurança, além de desorganizar os mercados e as políticas econômicas (1).

VIII – Não Tributarás Boas Iniciativas

A filosofia do imposto, de quem se cobra, e a quem se aloca, precisa ser revista. Uma política tributária equilibrada na cobrança, e reorientada na aplicação dos recursos, constitui um dos instrumentos fundamentais de que dispomos, sobretudo porque pode ser promovida por mecanismos democráticos. O eixo central não está na redução dos impostos, e sim na cobrança socialmente mais justa e na alocação mais produtiva em termos sociais e ambientais. A taxação das transações especulativas (nacionais ou internacionais) deverá gerar fundos para financiar uma série de políticas essenciais para o reequilíbrio social e ambiental. O imposto sobre grandes fortunas é hoje essencial para reduzir o poder político das dinastias econômicas (10% das famílias do planeta é dono de 90% do patrimônio familiar acumulado no planeta). O imposto sobre a herança é fundamental para dar chances a partilhas mais equilibradas para as sucessivas gerações. O imposto sobre a renda deve adquirir mais peso relativamente aos impostos indiretos, com alíquotas que permitam efetivamente redistribuir a renda. É importante lembrar que as grandes fortunas do planeta em geral estão vinculadas não a um acréscimo de capacidades produtivas do planeta, e sim à aquisição maior de empresas por um só grupo, gerando uma pirâmide cada vez mais instável e menos governável de propriedades cruzadas, impérios onde a grande luta é pelo controle do poder financeiro, político e midiático, e a apropriação de recursos naturais.

O sistema tributário tem de ser reformulado no sentido anti-cíclico, privilegiando atividades produtivas e penalizando as especulativas; no sentido do maior equilíbrio social ao ser fortemente progressivo; e no sentido de proteção ambiental ao taxar emissões tóxicas ou geradoras de mudança climática, bem como o uso de recursos naturais não renováveis (2).

O poder redistributivo do Estado é grande, tanto pelas políticas que executa – por exemplo as políticas de saúde, lazer, saneamento e outras infra-estruturas sociais que melhoram o nível de consumo coletivo – como pelas que pode fomentar, como opções energéticas, inclusão digital e assim por diante. Fundamental também é a política redistributiva que envolve política salarial, de previdência, de crédito, de preços, de emprego.

A forte presença das corporações junto ao poder político constitui um dos entraves principais ao equilíbrio na alocação de recursos. O essencial é assegurar que todas as propostas de alocação de recursos sejam analisadas pelo triplo enfoque econômico, social e ambiental. No caso brasileiro, constatou-se com as recentes políticas sociais (“Bolsa-Família”, políticas de previdência etc.) que volumes relativamente limitados de recursos, quando chegam à “base da pirâmide”, são incomparavelmente mais produtivos, tanto em termos de redução de situações críticas e consequente aumento de qualidade de vida, como pela dinamização de atividades econômicas induzidas pela demanda local. A democratização aqui é fundamental. A apropriação dos mecanismos decisórios sobre a alocação de recursos públicos está no centro dos processos de corrupção, envolvendo as grandes bancadas corporativas, por sua vez ancoradas no financiamento privado das campanhas.

IX – Não Privarás o Próximo do Direito ao Conhecimento

Travar o acesso ao conhecimento e às tecnologias sustentáveis não faz o mínimo sentido. A participação efetiva das populações nos processos de desenvolvimento sustentável envolve um denso sistema de acesso público e gratuito à informação necessária. A conectividade planetária que as novas tecnologias permitem constitui uma ampla via de acesso direto. O custo-benefício da inclusão digital generalizada é simplesmente imbatível, pois é um programa que desonera as instâncias administrativas superiores, na medida em que as comunidades com acesso à informação se tornam sujeitos do seu próprio desenvolvimento. A rapidez da apropriação deste tipo de tecnologia até nas regiões mais pobres se constata na propagação do celular, das lan houses mais modestas. O impacto produtivo é imenso para os pequenos produtores que passam a ter acesso direto a diversos mercados tanto de insumos como de venda, escapando aos diversos sistemas de atravessadores comerciais e financeiros. A inclusão digital generalizada é um destravador potente do conjunto do processo de mudança que hoje se torna indispensável.

O mundo frequentemente esquece que 2 bilhões de pessoas ainda cozinham com lenha, área em que há inovações significativas no aproveitamento calórico por meio de fogões melhorados. Tecnologias como o sistema de cisternas do Nordeste, de aproveitamento da biomassa, de sistemas menos agressivos de proteção dos cultivos etc., constituem um vetor de mudança da cultura dos processos produtivos. A criação de redes de núcleos de fomento tecnológico online, com ampla capilaridade, pode se inspirar da experiência da Índia, onde foram criados núcleos em praticamente todas as vilas do país. O World Economic and Social Survey 2009 é particularmente eloquente ao defender a flexibilização de patentes no sentido de assegurar ao conjunto da população mundial o acesso às informações indispensáveis para as mudanças tecnológicas exigidas por um desenvolvimento sustentável.

X – Não Controlarás a Palavra do Próximo

Democratizar a comunicação tornou-se essencial. A comunicação é uma das áreas que mais explodiu em termos de peso relativo nas transformações da sociedade. Estamos em permanência cercados de mensagens. As nossas crianças passam horas submetidas à publicidade ostensiva ou disfarçada. A indústria da comunicação, com sua fantástica concentração internacional e nacional - e a sua crescente interação entre os dois níveis - gerou uma máquina de fabricar estilos de vida, um consumismo obsessivo que reforça o elitismo, as desigualdades, o desperdício de recursos como símbolo de sucesso. O sistema circular permite que os custos sejam embutidos nos preços dos produtos que nos incitam a comprar, e ficamos envoltos em um cacarejo permanente de mensagens idiotas pagas do nosso bolso. Mais recentemente, a corporação utiliza este caminho para falar bem de si, para se apresentar como sustentável e, de forma mais ampla, como boa pessoa. O espectro eletromagnético em que estas mensagens navegam é público, e o acesso a uma informação inteligente e gratuita para todo o planeta, é simplesmente viável. Expandindo gradualmente as inúmeras formas alternativas de mídia que surgem por toda parte, há como introduzir uma cultura nova, outras visões de mundo, cultura diversificada e não pasteurizada, pluralismo em vez de fundamentalismos religiosos ou comerciais.

O fato que mais inspira esperança é a multiplicação impressionante de iniciativas nos planos da tecnologia, dos sistemas de gestão local, do uso da internet para democratizar o conhecimento, da descoberta de novas formas de produção menos agressivas, de formas mais equilibradas de acesso aos recursos. O Brasil neste plano tem mostrado que começar a construir uma vida mais digna para o “andar de baixo”, para os dois terços de excluídos, não gera tragédias para os ricos. Inclusive, numa sociedade mais equilibrada, todos passarão a viver melhor. Tolerar um mundo onde um bilhão de pessoas passam fome, onde 10 milhões de crianças morrem anualmente de causas ridículas, e onde se dilapidam os recursos naturais das próximas gerações, em proveito de fortunas irresponsáveis, já não é possível.

Nesta época interativa, o Altíssimo declarou-se disposto a considerar outros Mandamentos. Sendo o Secretariado do Altíssimo hoje bem equipado, os que por acaso tenham sugestões ou necessitem consultar documentos mais completos, poderão se instruir com outros Assessores, em linha direta sob www.criseoportunidade.wordpress.com. Críticas, naturalmente, deverão ser endereçadas a Instâncias Superiores. Apreciações positivas e sugestões de outros Mandamentos poderão ser enviadas ao blog acima citado, ou no e-mail ladislau@dowbor.org

NOTAS

(1) BIS Quarterly Review, December 2008, Naohiko Baba et al., www.bis.org/publ/qtrpdf/r_qt0812b.pdf p. 26: “In November, the BIS released the latest statistics based on positions as at end-june 2008 in the global over-the-counter (OTC) derivatives markets. The notional amounts outstanding of OTC derivatives continued to expand in the first half of 2008. Notional amounts of all types of OTC contracts stood at $863 trillion at the end of June, 21% higher than six months before”. São 863 trilhões de dólares de derivativos emitidos, frente a um PÌB mundial de cerca de 60 trilhões.

(2) Susan George traz uma ilustração convincente: um bilionário que aplica o seu dinheiro com uma conservadora remuneração de 5% ao ano, aumenta a sua fortuna em 137 mil dólares por dia. Taxar este tipo de ganhos não é “aumentar os impostos”, é corrigir absurdos.

*Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia, e professor titular da PUC-SP. É autor de A reprodução social e Democracia economômica - um passeio pelas teorias (contato http://dowbor.org).

Fonte: Carta Maior

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Ocupar cidades é uma forma de luta muito poderosa, diz o geógrafo David Harvey

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Britânico convida esquerda a usar centros urbanos para confrontar o capitalismo

por Beatriz Bulla

As cidades são uma força econômica muito poderosa. Fechar as cidades, também. Para o geógrafo marxista David Harvey, a esquerda deve aprender a usar isso como forma de luta. O pensamento é também um apelo do britânico, e acompanha sua linha de análise sobre o papel da urbanização como intervenção no sistema econômico.

“Tudo parou de se mexer por três dias em Nova York depois do 11 de setembro. E de repente os poderes perceberam que se não houvesse movimento, não haveria acumulação de capital. O prefeito foi então à televisão fazer um apelo para que as pessoas fossem às ruas consumir, viver normalmente.” O ativista anti-capitalismo cita ainda as mobilizações que aconteceram na Praça Tahrir, no Egito, e o movimento Occupy, espalhado pelo mundo, como exemplos de engajamento urbano. Em visita ao Brasil, insistiu, para um público de mais de mil pessoas, que os centros urbanos são o lugar em que alguma forma de luta contra o capitalismo pode realmente funcionar.

Ana Yumi Kajiki/Boitempo Editorial

Para geógrafo, organização das cidades pode ser também forma de controle social

Na madrugada do mesmo dia, 28 de fevereiro, a polícia removeu as barracas do braço londrino do Occupy. “Agora é um ótimo momento para o Occupy começar a repensar e a se reagrupar”, disse Harvey ao Opera Mundi, menos de 24 horas depois de oficiais de justiça ajudarem policiais a mandar embora os cerca de 100 manifestantes que estavam acampando em frente à Catedral de São Paulo, na capital britânica.

Para o pensador, é consistente o entendimento de que as reações governamentais contra os acampamentos dos occupies ao redor do mundo são sinal de que a sociedade não está pronta para modificar o sistema atual. Ainda assim, comemora o fato de a ofensiva policial em Londres não ter sido violenta como as dos Estados Unidos. Os manifestantes devem voltar às ruas? Sim, responde.

“Mas eles devem pensar qual será a estratégia para enfrentar a resistência e também pensar como mobilizar a população em massa. Talvez assumindo compromissos com movimentos sociais populares, movimentos de bairro”, afirmou.

Professor de antropologia da Universidade da Cidade de Nova York, Harvey esteve no Brasil para o lançamento de seu livro mais recente, O enigma do capital: e as crises do capitalismo, lançado pela Boitempo Editorial. Na publicação, ele analisa os ciclos do capitalismo, crises econômicas passadas e processos de urbanização, partindo da crise do subprime norte-americano. Segundo o geógrafo, as crises do capitalismo não se resolvem, mas se movem – mudando o tipo de problema e também o lugar afetado.

Ana Yumi Kajiki/Boitempo Editorial

Harvey participou de eventos para lançar o livro O enigma do capital: e as crises do capitalismo no país.

“Nos últimos anos vemos um deslocamento dos problemas, de um campo da economia para outro.” A crise foi do setor da habitação, para o financeiro, passando depois para as dívidas soberanas de Estados-nação, diz. “E há uma maneira de transferir essa crise de volta para o setor bancário, se as dívidas não puderem ser resolvidas. As políticas de austeridade, então, empurram essas dívidas para o povo de volta.”

Mas a crise também se move num sentido geográfico. A quebra do mercado da habitação foi localizada em parte dos Estados Unidos – mais especificamente no sul da Califórnia, Nevada e Flórida – e, ao se modificar, chegou a lugares como a Europa e a Ásia.

Caminho até 2008

Harvey trouxe, na conferência, um panorama histórico da economia norte-americana, para explicar os ciclos de crise do capitalismo. E como eles se repetem, sem que os governos se dêem conta. “Nos anos 20, houve excesso de capital num boom de construção localizado em poucas áreas - Flórida, Nova York, Chicago. Havia uma estratégia clara de financiamento e o boom nos preços de propriedade terminou um ano antes da grande crise. O que os economistas estão reconhecendo é que houve uma relação entre a crise do mercado de propriedade de 1928 e o colapso da bolsa de 29”, diz.

“A Segunda Guerra Mundial resolveu o problema dos anos 30, mas, em 1945, surgiram outras questões: onde colocar todo o excesso de capital que existia nos EUA? Todos os soldados que foram lutar e voltaram iriam encontrar emprego onde?” Como solução para um novo problema econômico, explica, os americanos passaram a construir casas e enchê-las com coisas. Novamente um boom na construção. A saída estimulava o consumo e aumentava os empregos.

“Uma das grandes maneiras por meio da qual os EUA saíram da crise dos anos 30 foi ‘suburbanizando’ as cidades nos anos 50 e 60. E, mesmo se você morasse no subúrbio, você tinha um cortador de grama, porque todos tinham. Era um estilo de vida.” De acordo com Harvey, antes da 2ª Guerra Mundial, não chegava a 500 mil o número de unidades habitacionais construídas anualmente. Depois de 45, o índice dobrou.

Mas a segunda onda de problemas estava para chegar. Muitos norte-americanos começaram a usar a habitação como um banco privado. “Você comprava uma casa por 200 mil dólares, hipotecava por esse preço, depois de dois anos o imóvel valia 300 mil, e você ganhava 100 mil hipotecando de novo”. O sistema financeiro, diz Harvey, controla a oferta e demanda de casas, pois empresta dinheiro para os construtores e também para os compradores.

“O tempo todo, as instituições financeiras devem estar preparadas para colocar dinheiro nos dois lados. Todo mundo já sabia, em 2003, que o mercado da habitação era instável, mas por uma razão política foi decidido continuar com a bolha e com os juros muito baixos.”

Segundo o geógrafo, caso as pessoas não ganhem dinheiro através do salário, podem ganhar por meio da propriedade. Se isso não funciona mais, o consumo despenca. Foi o que se viu em 2008: o consumo entrou em colapso.

O capitalismo e as cidades

A relação da crise macroeconômica com as cidades nasce nos projetos de urbanização como saída para os colapsos financeiros, mas não acaba aí. A definição capitalista de urbanização, segundo o autor, não tem a ver com a criação de vida social, mas com a construção de coisas materiais para manter o processo de acumulação.

O exemplo da cidade de Nova York pós 11 de setembro não é o único citado por David Harvey. Em protesto contra a aprovação de um projeto que criminalizava nos EUA, em 2006, os imigrantes ilegais, este grupo decidiu não trabalhar por um dia, conta Harvey. “O que aconteceu? Los Angeles, Chicago e São Francisco pararam. Há relação direta entre acumulação de capital e questões relativas à urbanização”, diz.

Para o geógrafo, é preciso pensar a urbanização como um campo de luta de classes. “Quase todo mundo nos subúrbios vota nos republicanos. Eles não estão interessados nas questões sociais. Nos anos 30, havia um relatório que dizia que os proprietários de casa não entravam em greve, porque tinham que pagar a hipoteca de suas casas”, afirma Harvey, explicando o motivo da organização das cidades ser também medida de controle social significativa.

“A urbanização é muito importante para o sistema capitalista, em termos de acúmulo de riqueza, e deve ser importante para a esquerda como forma de luta anticapitalista na cidade”, conclui.

Ana Yumi Kajiki/Boitempo Editorial

Com o auditório da lotado, boa parte dopúblico assistiu a conferência por um telão improvisado, na Universidade de São Paulo.

Fonte: Opera Mundi



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