terça-feira, 19 de março de 2013

O vídeo de Feliciano e a desonestidade intelectual


por Matheus Pichonelli


O pastor Marco Feliciano completará na próxima quinta-feira duas semanas à frente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Até o momento não deu qualquer sinal de que entende, ou pretende entender, o que afinal significam direitos humanos ou direitos das minorias.
O deputado Marco Feliciano, o novo líder das minorias da Câmara. Foto: Gustavo Lima / Agência Câmara
O deputado Marco Feliciano, o novo líder das minorias da Câmara. Foto: Gustavo Lima / Agência Câmara
Quando assumiu o posto, em meio à gritaria diante de tantos absurdos propagados contra quem pretende representar, pediu um voto de confiança. O barulho continuou e ele resolveu revidar. Nesta semana, publicou em seu perfil no Twitter um vídeo, produzido pela WAP TV Comunicação, em que criminaliza abertamente líderes do movimento LGBT, religiões afrodescendentes e militantes que defendem, entre outras bandeiras, a regularização da prostituição e o casamento igualitário.
O narrador, que não aparece, tem a voz distorcida – como são distorcidas as ideias contidas em som e imagem. A música ao fundo sugere terror e suspense. Numa espécie de bricolagem de argumentos sobre defesa da família, apresenta cenas isoladas de tensão durante protestos organizados por ativistas em reação a Feliciano. Por exemplo: um estranhamento entre o líder da ABGLT no Brasil, Toni Reis, durante uma discussão na Câmara, virou “agressão a idosos”. Outro alvo é o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), ferrenho opositor de Feliciano, a quem o vídeo tenta atacar mostrando à exaustão uma declaração do ativista: “Os orixás me colocaram neste mandato”. Como se tivesse dito: “sou Diabo 100% e não abro”. Para Feliciano, talvez seja a mesma coisa, a se observar a exibição de um protesto de menções afrodescendentes, classificado no vídeo como “ritual macabro”.


A aparente reação do deputado aos protestos assusta pela precariedade dos argumentos e a oposição maniqueísta assumida. O tom é sempre “nós” contra “eles” – sempre atribuindo a “eles” o monopólio da truculência e um suposto projeto para garantir privilégios, dinheiro público e perverter a sacralidade da chamada “família”, entendida sempre como uma estrutura única, indissociável, intocável.
Para reforçar os argumentos, usa títulos de reportagens sobre violência contra gays do tipo “Lésbica mata companheiro a facada” e “Travesti mata deficiente”. É a esquina frutífera da ignorância midiática com a má fé religiosa – como se, do outro lado, fosse possível ler notícias como “Hétero e madrasta jogam criança de prédio em SP” ou “Hétero se junta a namorado hétero para matar os pais, de família estruturada, a machadadas”.
Ao fim do vídeo, Feliciano avisa que renunciará: à sua privacidade, às noites de paz e sono e aos momentos de família para não renunciar à comissão e preservar a sua (nossa?) família.
O perfil no Twitter em que o pastor posta o vídeo em sua defesa
O perfil no Twitter em que o pastor posta o vídeo em sua defesa

Não faltou um único argumento para mostrar que o deputado é, provavelmente, a pessoa menos capacitada a assumir o desafio da comissão: o desafio de ajudar a garantir a livre manifestação de quem tenta viver sem traumas, sem o ônus da exclusão, sem perseguições, piadinhas ou vergonha de ser o que é sem que alguém diga como e com quem deve se relacionar para ter paz. Mas Marco Feliciano faz de sua obsessão uma cruzada sob um argumento invertido: a de que não é aceito pelo simples fato de ser cristão. Como se fosse impossível ser cristão e estar em paz com o que se é; como se em alguma passagem da Bíblia houvesse um manual de uso correto do próprio corpo, da própria expressão; como se, ao subir aos Céus, Cristo tivesse orientado a amar ao próximo como a ti mesmo com um asterisco: não vale amar homem com homem nem mulher com mulher.
Falta alguém explicar ao pastor, possivelmente com um vídeo mais didático, que um líder na Câmara, de qualquer comissão, pode ser cristão, judeu, budista, agnóstico. Só não pode ser desonesto. E desonestidade não é só empregar no gabinete funcionário fantasma. Ou ser acusado de estelionato. Ou reclamar quando algum fiel de boa fé entrega um cartão de crédito sem a senha. A desonestidade intelectual é a mais danosa das agressões praticadas por quem tenta criminalizar grupos vulneráveis com sofismas e trilha sonora de terror. Nada pode ser mais sintomático sobre as bandeiras representadas pelo deputado – longe, muito longe da paz e a unidade tão clamadas na Bíblia sobre a qual Feliciano se senta para espalhar o ódio e o apelo à exclusão.

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

PROSTITUIÇÃO - Colocando os homens na roda



A conversa era sobre o aluguel em São Paulo. O rapaz gente boa, que estava passeando por aqui, ficou chocado com o preço. Só que a conversa não seguiu pelos rumos da especulação imobiliária… “Já vem com as meninas?” [caras e bocas de perplexidade] E ele repete: “É, as acompanhantes…” A gente tinha entendido.

Ele expressou ali uma visão de muitos homens, acostumados em ter e tratar as mulheres como seres à disposição para satisfação das suas necessidades. E que tem um preço [uma mercadoria, a gente costuma dizer por aqui]. A lógica deste comentário é a mesma desse: Como é que bota na selva amazônica centenas de homens sem mulher? Era preciso ter bordéis nos canteiros de obras” (Paulinho da Força Sindical/PDT, no contexto da greve dos trabalhadores da usina de Jirau e Santo Antônio, em 2011).

Ana de Miguel propõe que a prostituição não seja definida apenas pela troca de sexo por dinheiro, mas sim como “uma prática através da qual é garantido aos homens o acesso grupal e regrado ao corpo das mulheres”. É acessível, ainda que mediado pelo dinheiro, e regulado porque não é natural nem espontâneo, mas envolto em uma série de normas conhecidas e respeitadas, desde a localização das mulheres até a negociação do preço para determinado “serviço”.

Temos ouvido muito por aí que algumas feministas são moralistas e conservadoras porque questionam a prostituição. Além de colocar a gente lado a lado com setores religiosos (justamente os que costumam dizer que o feminismo é um mal pra sociedade porque questionamos esse modelo de família e sexualidade e defendemos o prazer e a liberdade), ainda nos chamam de equivocadas…

“O outro equívoco desse feminismo socialista é que ele advoga pela autonomia da mulher sobre o seu corpo, e aí quer tutelar o corpo da mulher dizendo que ela não tem o direito de prestar um serviço sexual com o seu corpo” (Jean Wyllys)

Juro que gostaria de ver esse empenho de mais deputados na defesa do direito ao aborto, mas esse é assunto pra outra hora…

Agora, só queria dizer que a forma como setores pró-regulamentação da prostituição têm tratado setores do feminismo que questionam a prostituição é, no mínimo, desrespeitosa e não contribui em nada para o debate. Vemos uma desqualificação de um longo processo de lutas das mulheres por liberdade, igualdade e autonomia e que nada tem a ver com conservadorismo. As feministas defendem o direito das mulheres a viver livremente sua sexualidade, com autonomia do desejo, questionando a heteronormatividade e a violência. Mas nós negamos a falsa liberdade, oferecida pelo mercado, que se encerra unicamente na idéia de não ter impedimentos para alguma ação “econômica”. Esta idéia está na base da banalização da sexualidade, tornando-a mais um produto.

Pra mim, conservadora é uma visão de liberdade sexual que se baseia na satisfação dos desejos dos homens e que oculta/inibe/oprime o desejo das mulheres. Somos frequentemente bombardeadas com essa visão, seja com as dicas da Nova sobre como enlouquecer seu homem na cama, ou com o mainstream da pornografia. Enquanto isso… Na pesquisa da Fundação Perseu Abramo as mulheres brasileiras declaram que “na maior parte das vezes” quando tiveram relação sexual sentiram “muito prazer” 42% das mulheres, e outras 42% dizem que acharam “gostoso”. A soma das que na maior parte das vezes tiveram relação “por obrigação”, “não sentiram nada” ou avaliam “que foi um sofrimento” foi 9%. 9% é muita gente. E, “gostoso” é um chocolate.

A sexualidade é um componente fundamental na opressão das mulheres. Não dá pra ignorar as experiências das mulheres na sexualidade e simplesmente afirmar que exercer a prostituição é uma forma de vivenciar sua liberdade sexual. Ou dá, mas daí então tem que afirmar que se trata da liberdade sexual dos homens, e que essa liberdade tem um preço e se encontra no mercado. A naturalização da prostituição reforça um modelo em que a sexualidade feminina se constrói em função do desejo masculino.

El hecho de que los varones busquen y encuentren placer sexual en personas que obviamente no les desean en absoluto es, sin duda, una importante materia de reflexión sobre el abismo que se abre bajo la aparente igualdad y reciprocidad en las expectativas y vivencias sobre la sexualidad entre las y los jóvenes” (Ana de Miguel)

A dicotomia estabelecida entre santas e putas parece ser substituída por uma nova normatização que impõe que todas as mulheres se enquadrem no estereótipo de uma mulher livre nos termos do modelo de sexualidade tradicional masculino. Ana de Miguel afirma que, neste debate, a pergunta não deve ser se há pessoas dispostas a se prostituir, mas sim, “por que a maior parte das pessoas destinadas ao mercado da prostituição são mulheres?”, ou ainda “como é possível que os homens obtenham prazer de pessoas que se encontram em uma situação explícita de inferioridade?”.

Colocar os homens no debate é importante para sair de um discurso que faz parecer que as mulheres são o motivo pelo qual existe a prostituição no mundo. Além disso, contribui para visibilizar que as prostitutas não existem no vazio, mas sim na relação com uma outra pessoa. Neste caso, em uma relação inserida em uma sociedade marcada pela desigualdade e opressão das mulheres.

“De mais a mais, todos somos mercadoria numa sociedade capitalista, todos nós vendemos a nossa força de trabalho, utilizamos o nosso corpo para empreender e executar esse trabalho…” (Jean Wyllys)




Ao afirmar que “seguiremos em marcha até que todas sejamos livres”, a MMM se posiciona em um campo que questiona profundamente as desigualdades do sistema capitalista, patriarcal e racista. Propõe um horizonte no qual haja a real superação da divisão sexual do trabalho, o fim da violência contra as mulheres e em que prevaleça a autonomia das mulheres, em relações de liberdade que só podem se realizar, para todas as mulheres, com a igualdade. Esta perspectiva é, portanto, radicalmente distinta do individualismo liberal que defende a liberdade de cada mulher para fazer o que quiser com seu corpo, mas que não é capaz de identificar que, no atual modelo, a liberdade não caracteriza a vida da maioria das mulheres.

Desde essa perspectiva, também questionamos a visão, dita de esquerda, que reduz o debate com a naturalização da prostituição como algo que sempre existiu, invocando um fatalismo que rebaixa o debate político e não questiona as relações patriarcais, os seja, os privilégios masculinos que estão em jogo com a manutenção deste modelo opressor de sexualidade. Este raciocínio é contraditório com toda a história da esquerda que persegue a utopia de superar o capitalismo e construir um mundo de igualdade, tarefa que é tão difícil quanto a construção da igualdade e liberdade das mulheres, mas que lutamos pra realizar, ao pretender “mudar o mundo e mudar a vida das mulheres em um só movimento”.

Com a proximidade da Copa do Mundo, está colocado o desafio de posicionar este debate não apenas a partir da constatação de que, por ser um período com muitos turistas homens, haverá uma demanda maior pela prostituição. Este é um fato, mas, muitas vezes, é justamente o argumento para se regulamentar a prostituição, para que se realize em espaços seguros (para os homens?). Assim, novamente o debate é reduzido. Um dos caminhos para enfrentar o debate da Copa do Mundo é o de visibilizar os circuitos estabelecidos da prostituição, de modo a explicitar que o funcionamento do turismo no Brasil tem a prostituição como um pressuposto e uma base de movimentação de bilhões de reais. Legitimar esta prática, sem questionar o papel dos homens, do capital e do Estado, é uma armadilha cuja conseqüência é o reforço da opressão das mulheres.



Já estamos acostumadas com “mal amadas”, “histéricas”, “feminazis”, etc… Então, nos tachar de “conservadoras” e “moralistas” é colocar mais um rótulo que nega os acúmulos das lutas feministas que garantiram conquistas para as mulheres. Mas se quiser fazer o debate inteiro sobre o que nos move enquanto feministas em movimento, como a liberdade e a igualdade, estamos aí. E, se quiser enfrentar os privilégios masculinos nesse mundo machista, então somos companheir@s.

Sugestão de leitura: La prostitución de mujeres, una escuela de desigualdad humana. Da Ana de Miguel.

*Tica Moreno é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo.


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A biblioteca roubada em todo o Brasil



por Vladimir Safatle*, na Folha de S. Paulo

“A Carta Roubada” é um dos contos mais célebres de Edgar Allan Poe. Nele, o escritor norte-americano conta a história de um ministro que resolve chantagear a rainha roubando a carta que lhe fora endereçada por um amante.

Desesperada, a rainha encarrega sua polícia secreta de encontrar a carta, que provavelmente deveria estar na casa do ministro. Uma astuta análise, com os mais modernos métodos, é feita sem sucesso. Reconhecendo sua incompetência, o chefe de polícia apela a Auguste Dupin, um detetive que tem a única ideia sensata do conto: procurar a carta no lugar mais óbvio possível, a saber, em um porta-cartas em cima da lareira.

A leitura do conto de Edgar Allan Poe deveria ser obrigatória para os responsáveis pela educação pública. Muitas vezes, eles parecem se deleitar em procurar as mais finas explicações, contratar os mais astutos consultores internacionais com seus métodos pretensamente inovadores, sendo que os problemas a combater são primários e óbvios para qualquer um que queira, de fato, enxergá-los.

Por exemplo, há semanas descobrimos, graças ao Censo Escolar de 2011, que 72,5% das escolas públicas brasileiras simplesmente não têm bibliotecas. Isto equivale a 113.269 escolas. Um descaso que não mudou com o tempo, já que, das 7.284 escolas construídas a partir de 2008, apenas 19,4% têm algo parecido com uma biblioteca.

Mesmo São Paulo, o Estado mais rico da Federação, conseguiu ter 85% de suas escolas públicas nessa situação. Ou seja, um número pior do que a média nacional.

Diante de resultados dessa magnitude, não é difícil entender a matriz dos graves problemas educacionais que atravessamos. Difícil é entender por que demoramos tanto para ter uma imagem dessa realidade.

Ninguém precisa de mais um discurso óbvio sobre a importância da leitura e do contato efetivo com livros para a boa formação educacional. Ou melhor, ninguém a não ser os administradores da educação pública, em todas as suas esferas. Pois não faz sentido algum discutir o fracasso educacional brasileiro se questões elementares são negligenciadas a tal ponto.

Em política educacional, talvez vamos acabar por descobrir que “menos é mais”. Quanto menos “revoluções na educação” e quanto mais capacidade de realmente priorizar a resolução de problemas elementares (bibliotecas, valorização da carreira dos professores etc.), melhor para todos.

A não ser para os consultores contratados a peso de ouro para vender o mais novo método educacional portador de grandes promessas.

*Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo).

Fonte: Viomundo

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Combater o crack sem imposição, falando a língua dos dependentes?


por Leonardo Sakamoto
Marcos Lopes é ex-usuário e ex-traficante. Abandonou o tráfico em 2002, segundo ele, graças ao estudo. Formou-se em Letras e escreveu o livro Zona de Guerra (publicado em 2009 pela Matrix Editora) no qual narra sua trajetória. É fundador do Projeto Sonhar e, aos 29 anos, se dedica a apresentar portas de saída da dependência química e do mundo do crime a outros jovens em bairros da Zona Sul de São Paulo.

Marcos escreveu um artigo para este blog sobre a internação compulsória, política que foi adotada recentemente em São Paulo e tem gerado polêmica. Segundo ele, é possível convencer dependentes do crack a buscarem tratamento sem usar da violência, falando a mesma língua que eles.

Por que a internação compulsória de usuários não é a melhor solução para lidar com a droga

por Marcos Lopes

Os veículos de comunicação e redes sociais tem nos bombardeado com a discussão sobre a internação compulsória de dependentes químicos. Fazem parecer algo simples e banal definir o destino de pessoas que vivem às margens de uma sociedade caótica, de uma educação falida e de uma saúde precária. Mas tirá-los à força das ruas e trancafiá-los num hospital, sob efeito de remédios, só causará ao usuário mais indignação, revolta e até uma posterior recaída.

De dentro de suas salas com ar-condicionado, médicos e representantes do governo traçam políticas públicas para consertar uma realidade da qual eles não têm a menor noção porque nunca a vivenciaram. Por alguns anos, usei cocaína e fui traficante e afirmo que ninguém entra nesse mundo simplesmente porque quer virar “noia” ou se tornar andarilho. Há todo um contexto que deve ser levado em consideração. O histórico de vida do dependente: quem é ele, de onde veio, quem são seus pais, irmãos e principalmente: qual é o sonho desse indivíduo. Muitas vezes ele quer deixar aquele mundo, trabalhar e reconstruir sua família, mas o vício é algo incontrolável que nos tira o raciocínio e a sanidade.

Por isso, mais do que simplesmente tirá-los das ruas, é preciso oferecer-lhes ferramentas para ajudá-los a reconstruir outra vida pós-crack. E o usuário precisa se convencer de que alcançará esses objetivos depois de largar o vício. Como dizia Nietzsche: “detesto quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”. O poder público quer tirar os dependentes de seu uso solitário da droga, mas o que pretende oferecer depois às pessoas que tem o centro da cidade como casa, o lixo como refeição, as ruas como escola e a sociedade como inimiga? Retirá-los à força das cracolândias do país é simplista. O difícil é mostrar-lhes um caminho alternativo depois do tratamento. E para isso o governo ainda não ofereceu respostas ou alternativas.

O tratamento compulsório é ineficiente, pois o usuário ficará afastado do vício somente por um período. Depois ele voltará às ruas, encontrará as mesmas pessoas, o mesmo ponto de tráfico e não necessariamente deixará de usar cocaína ou crack. Compulsoriamente, ele também tomará os remédios exigidos pelos médicos da instituição pela qual passará. Só mudará o tipo da droga e da dependência.

Já convencer o dependente a largar o vício é oferecer-lhe, em parceria com ele, uma nova opção de vida. Trata-se de resgatar sua autoestima e apontar como ele pode fazer efetivamente parte da sociedade. É fazê-lo deixar a clínica de cabeça erguida e mostrar que ele é digno de viver por si próprio e não sobreviver de comportamentos perversos para conseguir a droga. E disso depende o tipo de abordagem do técnico e sua maneira de falar, olhar, tocar e gesticular. O dependente deve sentir que a pessoa que o aborda sabe do que está falando, que é conhecedor do problema dele não porque simplesmente viu pela TV, mas por já ter vivido situação semelhante ou já ter ajudado pessoas assim.

Em vez de usar da força, o educador tem de ser persuasivo, afetivo e emotivo. Deve-se insistir de acordo com o espaço que o usuário lhe dá e isso acontecerá ora sim ora não. Quando não houver diálogo e uma aproximação, o melhor é voltar outro dia. E quantos outros forem necessários. Quem usa crack não confia em qualquer pessoa. Quantos não passaram na vida dele fazendo promessas e depois foram embora sem sequer dizer adeus? O vínculo afetivo é extremamente importante, senão a principal arma para se aproximar do usuário, uma vez que ele é arisco, desconfiado e dificilmente deixa pessoas de outras “tribos” e realidades chegarem perto dele.

Convencê-lo a deixar esse mundo de exclusão em troca da realização de um sonho é o que Projeto Sonhar vem fazendo no Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo. Por meio do vínculo afetivo e recuperação da autoestima, o programa tem como finalidade orientar e resgatar toda a pessoa em situação de vulnerabilidade decorrente do contato com as drogas. Somos facilitadores de ações educativas que possibilitem criação de oportunidades ao usuário. Desde 2008, 30 garotos foram retirados do tráfico e do vício e hoje estão a caminho de realizar suas aspirações, sem recaídas.

É o caso, por exemplo, de Anderson, de 22 anos, morador do Parque Santo Antônio. Ele usava drogas, principalmente crack, com sua mãe desde os nove anos de idade. Foi numa abordagem direta e verdadeira que ele aceitou nossa proposta de tratamento. No primeiro contato, ele só disse que era usuário. Na segunda abordagem, o levamos para almoçar e ele se abriu. Contou-nos que queria parar de usar drogas para poder cuidar da mãe e dos irmãos. Tinha o sonho de se sentar à mesa de refeições pela primeira vez com outras pessoas e comer como gente. Também queria aprender a ler, a escrever e tentar um emprego com carteira assinada. Anderson topou se internar após saber que este educador já havia passado pela mesma situação que ele. E havia saído dela vitorioso.

Foram estabelecidos alguns acordos, como em qualquer parceria. Anderson cumpriria seu tratamento e eu levaria utensílios, mantimentos, medicamentos, material higiênico à sua família durante os meses que ele ficasse em recuperação. Após visitá-lo na clínica, a mãe também decidiu se tratar. Diagnosticada com um câncer, porém, ela faleceu tempos depois. Mas não sem antes ter realizado o sonho do filho que era ouvir dela: “Filho, vá comprar o pão”, ao invés de “Anderson, vá buscar a pedra”.

Hoje Anderson Odorico trabalha, estuda, cuida dos irmãos mais novos e é membro do Projeto Sonhar. Assim como Anderson, Edcarlos, Guilherme e Genildo também eram viciados. Perderam empregos, se afastaram da escola e da família. Hoje cada um deles se dedica a ajudar pessoas com o mesmo problema e com o mesmo sonho que um dia eles tiveram e que viram se tornar realidade tempos depois.

Nossa metodologia funciona pelo fato de falarmos a mesma língua dos usuários e por estarmos constantemente presentes em suas vidas. Todas as pessoas de sua convivência, como familiares e vizinhos, têm o telefone do projeto e podem recorrer a nós sempre que precisam. Isso lhes transmite confiança e nos dá credibilidade para continuar o trabalho.

Para fazer esse serviço funcionar como uma política pública é preciso estabelecer parcerias com comunidades terapêuticas para onde seriam encaminhados os usuários que aceitassem o tratamento por livre e espontânea vontade. Educadores que conheçam a área de atuação e, de preferência, tenham vivenciado aquela realidade também são peças fundamentais nesse processo. Ex-usuários poderiam ser recrutados para fazer esse trabalho. Outra medida essencial é o atendimento às famílias dos dependentes. Elas precisam saber como lidar com os novos hábitos, valores e costumes do indivíduo depois que ele deixar a clínica. Também é necessário se criar uma rede de apoio para que ele não tenha recaídas e continue a viver abstinente. Além de escolas e unidades básicas de saúde (UBS) locais, seria importante contar com a retaguarda de centros de atendimento ao trabalhador (CATs), agências de emprego, e cursos profissionalizantes para recolocá-los de volta ao mercado.

Só assim eles se sentirão importantes à sociedade.


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Sob o domínio do medo - Editorial do Le Monde Diplomatique Brasil



Ilustração: Claudius


por Silvio Caccia Bava*

A televisão destaca a todo momento os crimes na cidade. Como se não houvesse nada mais importante para veicular sobre a nossa vida em sociedade. Há programas especiais que noticiam e mesmo acompanham perseguições policiais a suspeitos ou criminosos. Uma especial atenção para os casos de crimes, perseguições e prisões. É a produção de um imaginário de guerra, que coloca como inimigos não só os criminosos, mas todos os atos e movimentos de protesto contra a ordem instituída. Na figura do preso se criminalizam os negros e os pobres. Mas o mais importante é que os crimes ocupam também os noticiários. Ocupam um lugar central nas informações recebidas pelos cidadãos.

Com essas informações criam-se o medo, a desconfiança, a contração do espaço público, o reforço ao individualismo, a necessidade de proteção. A população, assustada, aceita a militarização da gestão da segurança pública, que é a substituição do controle democrático por regras de ocupação militar, chegando mesmo, em alguns casos, em algumas regiões, ao toque de recolher.

As classes mais abastadas se fecham em condomínios e shoppings, contratam seguranças privadas, e para as áreas mais críticas da cidade são tomadas medidas radicais pelo poder público, como a ocupação militar de favelas nos morros do Rio de Janeiro. Em nome da segurança, do combate ao crime, a aceitação da arbitrariedade.

À sombra do Estado, ou mesmo dentro do aparato policial, formam-se milícias e grupos de extermínio. O cenário construído, que justifica as arbitrariedades, é de guerra, de controle do território.

É um retrocesso enorme em termos democráticos, de qualidade de vida, das liberdades, dos direitos civis e políticos. Substituímos a negociação democrática dos conflitos de interesses pelo uso arbitrário da força.

É preciso desmontar essa narrativa. Não queremos regimes autoritários, não estamos em guerra, nossos maiores problemas não são os crimes, é a desigualdade que se expressa em nossas cidades de maneira gritante. Sem uma melhor redistribuição das riquezas, sem assegurar o direito à cidade para todos os seus moradores, vivendo a exclusão e a pobreza, os amplos setores empobrecidos ficam condenados a partilhar as migalhas. E isso gera conflitos. A pressão é pela democratização da política, para que as maiorias possam disputar os governos e os recursos.

A capacidade de pressão da sociedade para se opor à militarização da gestão da segurança pública é baixa. Até porque parte da opinião pública é a favor. E o que vemos é uma crescente tolerância com o avanço das arbitrariedades que comprometem a democracia e o estado de direito.

Foi muito débil a reação da sociedade civil às chacinas ocorridas no ano passado em São Paulo. Morreram 1.368 pessoas a tiros, em muitos casos mortas por policiais. A cidade está assustada. A narrativa que as explica limita o foco ao imediato, ao cotidiano, não pensa esses acontecimentos num quadro maior, em que eles façam parte e ganhem sentido.

“A compreensão coletiva dos conflitos sociais ficou cada vez mais reduzida à esfera cotidiana imediata, e os alvos das atividades de manutenção da ordem pública tornaram-se cada vez mais territorializados”, diz em seu artigo Luiz Antonio Machado (pág. 6).

Ao tornar a violência criminal uma ameaça à continuidade das rotinas cotidianas, a mídia conservadora e os governos estaduais propõem a ocupação militar e a “pacificação” como soluções.

Há um sentimento generalizado de insegurança, que é crescente. E esse sentimento respalda atores políticos que promovem um retrocesso nas políticas de segurança pública de décadas, voltam políticas repressivas e de controle, a violação de direitos, os grupos de extermínio, a execução sumária de suspeitos pela polícia. A isso se soma o envolvimento de agentes da polícia com o narcotráfico, em muitos casos passando a defender interesses comuns.

A resposta do governo é mais repressão, ocupação militar de territórios, arbitrária imposição de regras de convivência nos territórios ocupados. Não interessa se os interesses da especulação imobiliária se aproveitam dessas intervenções ou se apoiam nelas. Não interessa a questão da defesa dos direitos. A “pacificação” serve para preparar a região para o advento da Copa e das Olimpíadas, e serve aos interesses do capital imobiliário.

Num clima como esse, de militarização da gestão pública, começam a surgir aberrações, como desdobramentos dessa cultura do controle. Por exemplo, a autorização legal, em São Paulo, para internar viciados em crack contra a vontade. Uma internação em instalações que sedam com drogas seus internados, internação que não tem data para terminar...

É uma discussão ampla e complexa que contrapõe liberdade e democracia a militarização e segurança. Não é só sobre o comportamento da polícia ou as políticas de Estado. É também sobre quanto nossas sociedades estão dispostas a se sujeitar a governos militarizados em nome da segurança. Mas essa discussão nós não vamos encontrar na TV.


*Silvio Caccia Bava - 
Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil


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A disputa pela classe média em 2014


A infantaria mais agressiva de Carlos Lacerda




Lacerda, hoje, se daria bem melhor
Os novos desafios da luta política

por Miguel do Rosário, no Cafezinho

Vivesse em nosso tempo, Carlos Lacerda teria hoje muito melhores condições de ser candidato à presidência da república do que em sua época, pois hoje os meios de comunicação chegam em todos os brasileiros, não apenas em setores elitizados da classe média urbana, como nos anos 50 ou 60. Entretanto, mesmo chegando a todos, a classe média urbana continua sendo a infantaria mais agressiva de seu exército. E quando falo exército, não uso metáforas. As ameaças do neolacerdismo a seus adversários são físicas, quase militares, como estas de Noblat em sua coluna de hoje, na qual dá “conselhos” ao novo presidente do Congresso Nacional:

Nada de voar em avião de carreira — a não ser para o exterior. E sob a condição de ser o último passageiro a embarcar na primeira classe, discretamente. Assim evitará o risco de ser ofendido pelos demais passageiros da econômica. Pelo mesmo motivo, nada de frequentar shoppings. Em Maceió, talvez seja possível. CUIDADO REDOBRADO quando estiver em Brasília. Aqui todo mundo conhece todo mundo. Nem mesmo disfarçado dá para bater perna à beira do Lago Paranoá. Matricular-se em academias? Nem pensar.

Ao escrever isso, Noblat não apenas ameaça Renan, ele também incita seus leitores a agredirem o senador.

Mencionei Lacerda porque a volta triunfal de Renan Calheiros ao centro do palco, como presidente do Congresso Nacional, num gesto de inesperado desafio do PMDB à mídia, meio que forçará a oposição, ou as oposições, a adotarem o discurso moral como bandeira número um.

O “corvo” seguramente saberia usar Renan Calheiros para fazer um excelente estrago na base eleitoral governista. De qualquer forma, mesmo sem Lacerda, haverá danos. O discurso da oposição em 2014 já está escrito. Mensalão, José Dirceu, Maluf, Sarney e Renan Calheiros. Eis a cara do governo Dilma. Vote diferente. Vote Marina, Aécio, Campos.

Os votos cativos da Dilma, ainda herdados de Lula, porém, estão mais ou menos garantidos. O que estará em jogo, mais uma vez, é tentativa de jogar a eleição para o segundo turno através da divisão do eleitorado. Marina Silva pode conseguir uma boa perfomance em 2014. Eduardo Campos, que eu antes achava não fosse candidato, por causa de suas reiteradas afirmações de apoio à reeleição de Dilma, hoje é uma incógnita. E uma incógnita em vários sentidos. Para ele, talvez seja útil ser candidato, por dar oportunidade a si mesmo de alcançar projeção nacional, e melhorar o desempenho de seus candidatos proporcionais. Para Dilma, o governador de Pernambuco poderá ser um interessante interlocutor na campanha, alguém com quem fazer dobradinha nos debates para bater no PSDB, além de possivelmente roubar votos mais da oposição (Aécio e Marina) do que do PT.

O maior desafio do petismo, nesse momento, é desenvolver um discurso coerente para justificar as alianças que tem feito, ao longo dos últimos anos. A foto com Maluf lhe valeu, por exemplo, um acordo político com o PP, cujo tempo de TV com certeza ajudou na vitória de Haddad em São Paulo. Mas trouxe um prejuízo de longo prazo à imagem do PT junto à setores mais sensíveis da classe média.

Repito o gráfico que publiquei há algumas semanas, extraído do Estadão, trazendo os números mais recentes do Ibope :



NEOIMPERIALISMO NA ÁFRICA


A invasão real da África não está nos noticiários

Uma licença para mentir como prenda de Hollywood

por John Pilger


Uma invasão da África de grandes proporções está em andamento. Os Estados Unidos estão a instalar tropas em 35 países africanos, a começar pela Líbia, Sudão, Argélia e Níger. Isto foi informado pela Associated Press no Dia de Natal, mas ficou omisso na maior parte dos media anglo-americanos.

A invasão pouco tem a ver com "islamismo" e, quase tudo a ver com a aquisição de recursos, nomeadamente minérios, e com um acelerar da rivalidade com a China. Ao contrário da China, os EUA e seus aliados estão preparados para utilizar um grau de violência já demonstrado no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iémen e Palestina. Tal como na guerra-fria, uma divisão de trabalho exige que o jornalismo ocidental e a cultura popular providenciem a cobertura de uma guerra sagrada contra um "arco ameaçador" de extremismo islâmico, não diferente da falsa "ameaça vermelha" de uma conspiração comunista mundial.

A recordar a Luta pela África no fim do século XIX, o US African Command ( Africom ) construiu uma rede de pedintes entre regimes colaboracionistas africanos ansiosos por subornos e armamentos americanos. No ano passado, o Africom ensaiou a Operação Esforço Africano (Operation African Endeavor),com as forças armadas de 34 países africanos a nela tomarem parte, comandadas por militares estado-unidenses. A doutrina "soldado para soldado" do Africom insere oficiais dos EUA a todo nível de comando, desde o general até o primeiro-sargento.

É como se a orgulhosa história de libertação da África, desde Patrice Lumumba até Nelson Mandela, estivesse destinada ao esquecimento por uma nova elite colonial negra ao serviço do mestre cuja "missão histórica", advertiu Frantz Fanon há meio século, é a promoção de "um capitalismo desenfreado embora camuflado".

Um exemplo gritante é o Congo Oriental, um tesouro de minerais estratégicos, controlado por um grupo rebelde atroz conhecido como M23, o qual por sua vez é dirigido pelo Uganda e o Ruanda, os procuradores de Washington.

Planeada há muito como uma "missão" para a NATO, para não mencionar os franceses sempre zelosos, cujas causas coloniais perdidas continuam em prontidão permanente, a guerra à África tornou-se urgente em 2011 quando o mundo árabe parecia estar a libertar-se dos Mubaraks e outros clientes de Washington e da Europa. A histeria que isto provocou em capitais imperiais não pode ser exagerado. Bombardeiros da NATO foram despachados não para Tunis ou Cairo mas sim para Líbia, onde Muammar Kadafi dominava as maiores reservas petrolíferas da África. Com a cidade líbia de Sirte reduzida a escombros, as SAS britânicas dirigiram as milícias "rebeldes" para o que se revelou como um banho de sangue racista.

O povo nativo do Saara, os tuaregues, cujos combatentes berberes Kadafi havia protegido, fugiu através da Argélia para o Mali, onde os tuaregues desde a década de 1960 reivindicam um estado separado. Como destaca o sempre vigilante Patrick Cockburn, é esta disputa local, não a Al-Qaida, que o Ocidente mais teme no Noroeste da África... "por pobres que possam ser, muitas vezes os tuaregues vivem em cima de grandes reservas de petróleo, gás, urânio e outros minérios valiosos".

Quase certamente a consequência do ataque francês/estado-unidense ao Mali em 13 de Janeiro, o cerco a um complexo de gás na Argélia que acabou de forma sangrenta, inspirou em David Cameron um momento 11/Set. O antigo relações públicas da Carlton TV enfureceu-se acerca de uma "ameaça global" que exigiria "décadas" de violência ocidental. Ele queria dizer a implementação dos planos de negócios do Ocidente para a África, juntamente com a violação da Síria multi étnica e a conquista do Irão independente.

Cameron agora ordenou o envio de tropas britânicas para o Mali e enviou para lá um drone da RAF, enquanto o seu prolixo chefe militar, general sir David Richards, dirigiu "uma mensagem muito clara a jihadistas de todo o mundo: não nos provoquem e não nos embaracem. Trataremos disto de forma robusta" – exactamente o que jihadistas querem ouvir. O rastro de sangue de vítimas do terror do exército britânico, todos muçulmanos, seus "sistémicos" casos de torturas actualmente a caminho do tribunal, acrescenta ironia às palavras do general. Certa vez experimentei os meios "robustos" de sir David quando lhe perguntei se lera a descrição da corajosa feminista afegã Malalai Joya do comportamento bárbaro de ocidentais e seus clientes no seu país. "O senhor é um apologista do Taliban" foi a sua resposta (posteriormente desculpou-se).

Estes comediantes lúgubres são extraídos directamente [do escritor] Evelyn Waugh e permitem-nos sentir a estimulante aragem da história e da hipocrisia. O "terrorismo islâmico", que é a sua desculpa para o roubo continuado das riquezas da África, foi praticamente inventado por eles. Já não há qualquer desculpa para engolir a linha da BBC/CNN e não conhecer a verdade. Leiam Secret Affairs: Britain's Collusion with Radical Islam de Mark Curtis (Serpent's Tail) ou Unholy Wars: Afghanistan, America and International Terrorism, de John Cooley (Pluto Press) ou The Grand Chessboard de Zbigniew Brzezinski (HarperCollins) que foi o parteiro do nascimento do moderno terror fundamentalista. Com efeito, os mujahedin da Al-Qaida e os Talibans foram criados pela CIA, o seu equivalente paquistanês, o Inter-Services Intelligence, e o MI6 britânico.

Brzezinski, conselheiro de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, descreve uma directiva presidencial secreta em 1979 que principiou aquilo que se tornou a actual "guerra ao terror". Durante 17 anos, os EUA deliberadamente cultivaram, financiaram, armaram e fizeram lavagem cerebral a extremistas da jihad que "saturaram de violência uma geração". Com o nome de código Operation Cyclone, este foi o "grande jogo" para deitar abaixo a União Soviética mas que deitou abaixo as Torres Gémeas.

Desde então, as notícias que pessoas inteligentes e educadas tanto distribuem como ingerem tornou-se uma espécie de jornalismo Disney, fortalecido, como sempre, pela licença de Hollywood para mentir e mentir. Está para ser lançado o filme Dreamworks sobre a WikiLeaks, uma trama inspirada por um livro de tagarelices pérfidas de dois jornalistas do Guardian que se enriqueceram, e há também o Hora negra (Zero Dark Thirty), filme que estimula a tortura e o assassínio, dirigido pela ganhadora do Oscar Kathryn Bigelow, a Leni Riefenstahl do nosso tempo, que promove a voz do seu mestre tal como fez a realizadora de estimação do Fuhrer. Este é o espelho de sentido único através do qual nós mal vislumbramos aquilo que o poder faz em nosso nome.

31/Janeiro/2013 - O original encontra-se em http://johnpilger.com/...


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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O bem comum como maior valor social




Para Nilton Bonder, ir além da satisfação individual é grande desafio da humanidade, mas não será resolvido de forma indolor

Entrevista a Inês Castilho | Imagem: Jac Depczyk


“Estamos precisando da multiplicação dos pães”, sustenta esse rabino que vive no Rio de Janeiro, autor de vários livros e uma peça teatral, A Alma Imoral, de grande sucesso. Não como a reprodução infindável de carros, tevês e microondas – mas sim como o desejo de criar e a capacidade de usufruir de bens coletivos.

Imersos em um capitalismo globalizado que transformou o dinheiro no maior valor individual, e o crescimento econômico no principal objetivo político, é de nossos corações e mentes que se irradia o desequilíbrio manifestado na natureza – lembra o autor de “Ter ou não ter, eis a questão – A sabedoria do consumo”. No centro, a questão do individualismo: o sistema que sacralizou o consumo e alimenta a desigualdade não tem como oferecer aos 7 bilhões de habitantes do planeta os objetos de desejo que criou, e oferece insistentemente aos nossos olhos.

“Se todas as benesses que podemos imaginar conseguir na vida estão no campo individual, vamos continuar querendo consumir cada vez mais. Se não tivermos prazeres que não sejam obter, ter, possuir, em pouco tempo vamos nos descobrir muito pobres”, alerta.

Nilton Bonder – que participa, em março, da primeira Missão de Líderes Muçulmanos e Judeus das Américas, em Washington, nos EUA, em busca do “diálogo e cooperação como alternativa ao fanatismo e radicalismo” – recorda que as religiões já previam que esse modelo de poder individual é um modelo apocalíptico que, mais cedo ou mais tarde, levaria a humanidade à destruição.

“No paradigma de hoje, estamos incluindo os cidadãos como indivíduos. Mas teremos de pensar em uma inclusão de cidadania que vise o bem coletivo”, observa. Ressignificar o sentido da vida e do prazer, transformando a relação do ser humano consigo mesmo.

Como, porém, fazer essa mudança sem perder os direitos que conquistamos? “Essa é uma questão civilizatória complexa: como desmontar a liberdade que foi conquistada pelo indivíduo sem que ela seja sufocada por um Estado que venha a intervir em nome de cataclismas ou da economia. Não conhecemos essa resposta, mas minha intuição diz que o ser humano talvez venha a viver um processo não muito suave.”

A grande esperança, para ele, reside nos jovens. “Em uma cultura, como a nossa, sem lastro histórico de indignação, só a juventude tem a capacidade de se insurgir pelo direito de exercer a cidadania – até porque é quem tem mais a perder, a longo prazo, com tudo de errado que esteja sendo cometido neste país.” A seguir, a entrevista. (I.C.)




Como o senhor vê a participação política do brasileiro?
Penso que estamos muito aquém de ter uma massa politicamente consciente e ainda há muito por conquistar, embora tenhamos feito progressos nessa área. Alguns mecanismos já estão disponíveis a boa parte do povo, como o acesso à informação – um fenômeno planetário. Da classe C em diante tem a televisão a cabo, que acabou com a hegemonia de uma televisão sem nenhum tipo de reflexão.

E os próprios eventos da política nacional – eventos traumáticos, escândalos como o impeachment de um presidente – capitalizam uma reflexão. O Ficha Limpa também significou um amadurecimento, esses movimentos têm um valor agregado informativo que vai além dos grupos mais prósperos.

Mas ao mesmo tempo existem aspectos culturais que não favorecem a participação política. Não temos um histórico de indignação, as pessoas têm uma postura muito dócil – o que, em certos momentos, é percebido como um valor, a qualidade da tolerância, mas muitas vezes é uma falta, talvez histórica, de o povo saber que sua indignação pode ter um grande poder.

Quais os meios que o jovem tem para atuar politicamente?
O jovem é a grande esperança, sempre. Porque a indignação não se manifesta necessariamente com a promoção de atos ou distúrbios, a indignação é uma visão política, dos direitos do cidadão, e é a juventude que tem capacidade de melhorar esses índices de indignação. As pessoas de mais idade têm uma tendência à acomodação, elas carregam a cultura do país, o fardo do período da ditadura.

No Congresso Nacional ainda vislumbramos autoridades que evocam esse poder do período ditatorial, quando a autoridade era inquestionável – um tom que perdura nas elites políticas do país. A juventude tem essa capacidade de indignação e, mais importante, é quem tem mais a perder, a longo prazo, com tudo de má qualidade que esteja sendo feito no país. Então, tem um potencial muito importante, principalmente em exigir programas responsáveis, não baseados no imediatismo, mas de longo prazo.

O senhor mencionou o Ficha Limpa. Algum outro movimento chamou sua atenção, no Brasil ou fora dele, recentemente?

A Primavera Árabe, apesar de estarmos tão longe, acaba sendo uma inspiração. E agora temos mobilizações nos EUA. Há uma certa abertura para a indignação, nesse momento. Nas últimas semanas tivemos movimentos contra a corrupção, que não têm uma agenda muito desenvolvida, são mais para expressar a percepção de indignação.

Mas a corrupção não é isolada, ela está costurada às leis da política brasileira. Temos necessidade de reformas nas leis que gerem a política. A capacidade do povo brasileiro de enxergar as questões estruturais que impactam nosso país, e se indignar com elas – se a gente conseguir isso, teremos elevado nosso nível de questionamento político. E temos o desejo de que haja reformas estruturais.

Quais são essas reformas?
Penso que elas começam desmontando bolsões de poder político. Nas leis eleitorais, nas leis de distribuição de recursos, temos práticas herdadas de construções políticas do passado que pedem reformas. Hoje as pessoas têm noção de que a sua economia não só é onerada por índices como a inflação, por exemplo, mas também por impostos ou pela falta de infraestrutura.

Estamos caminhando para a identificação desses inimigos públicos, que antes ficavam muito localizados no escândalo. Hoje o que é escandaloso é o uso de recursos públicos para atender agendas que são pessoais, de indivíduos ou grupos políticos: três bilhões de reais distribuídos em emendas no Congresso, num país com carência em todas as áreas de infraestrutura. É um processo político que todo mundo diz que entende, mas que provoca certa indignação. Formas de corrupção construídas na própria legitimidade das leis. É essa consciência e essa indignação que seria muito importante de serem trazidas a um conhecimento maior. Mas já avançamos na massa crítica que identifica essas questões.

Quais os temas que mobilizam a sociedade brasileira, a seu ver?
Estamos imersos nesse neoliberalismo, um capitalismo globalizado que nos achatou culturalmente, embora todos tenhamos peculiaridades. Hoje, mais do que qualquer outra coisa, a economia é o valor. E isso vai além da questão política – mesmo áreas em que antes se tinha uma filiação, uma relação com as raízes culturais, são totalmente sobrepassadas por essa questão econômica.

Na questão religiosa, por exemplo, muitas pessoas deixaram sua religião de raiz, dos pais, avós etc., para aderir a religiões que oferecem, além do discurso religioso, algum tipo de agremiação e ajuda mútua, de promoção na área econômica. Isso é presente até mesmo no Brasil, que tem raízes religiosas profundas. Esse é o fundamento, também, da política: os que são eleitos estão fundamentados na melhoria da área econômica, e isso suplantou até mesmo o discurso da qualidade de vida pela educação, pela saúde. É uma tendência global. Todos os países que fazem parte da modernidade e que aderiam a certas formas de comercialização, de economia mundial, estão vivendo sob o impacto da soberania econômica.

Isso me leva a pensar na questão do consumo.
É o consumo que alavanca toda essa perspectiva. Consumir é identificado imediatamente com qualidade. É interessante que a gente pegue, nesse universo, modelos de países desenvolvidos – os verdadeiros, não os de marketing. São os países do norte europeu, que não são extremamente consumistas e valorizam saúde, educação, segurança, cidadania básica acima do consumo. Mas os emergentes, e mesmo a própria Europa, hoje, fora os países nórdicos, aderiram a essa crença de que é o consumo, o crescimento que vai produzir bem-estar.

A liberdade ainda é uma bandeira?
A liberdade é uma conquista que, penso, as pessoas não tolerariam que fosse de qualquer maneira cerceada. É um dos alicerces dessa civilização que estamos construindo. A mesma coisa com a consciência ecológica, que vai ganhando força. Temos avançado tanto nesse território – liberdade para as mulheres, para os homossexuais, para as minorias religiosas. A liberdade está muito presente, e não há percepção de ameaça a essa questão, hoje. Bandeiras que há 20 anos ou 10 anos eram impactantes se consolidaram como conquistas.

O senhor considera que as redes sociais têm um papel na mobilização política?

Elas ainda são um meio utilizado pelas classes mais abastadas, não desenvolveram o potencial que podem ter. Mas estão se tornando uma mídia que abrange cada vez mais a sociedade. São um veículo extremante interessante, que derrubou certos modelos de comunicação, como a antiga rádio, que era um grande instrumento dos políticos no interior. Começa a existir um outro parâmetro nas comunicações – e aí o impacto é grande.

Pensando em tudo isso, como o senhor imagina novas formas de ação política?

O Brasil não precisa mais de heróis. As pessoas amadureceram para buscar lideranças, individuais ou partidárias, que sejam realmente comprometidas com uma agenda de trabalho. Essa é a grande “ficha limpa” que vamos realizar. A gente precisa de pessoas que tenham um histórico de envolvimento com o trabalho em suas vidas. A Marina Silva foi exemplo disso, ela alavancou uma votação que não se imaginava. Havia ali um discurso que não dizia “vou baixar 10 reais o preço de não sei o quê, tirar 50 centavos do transporte público”. Não havia promessa, mas uma pessoa que esboçava inclusive suas limitações. Esse é o personagem cada vez mais buscado pelas pessoas.

No Nordeste também tivemos políticos bem votados, que mostraram certa seriedade e se afastaram desse lugar do populismo. Essas novas lideranças só não emergem com mais força porque temos a corrupção agindo. A corrupção é a quantidade de tempo que certos partidos ou grupos conseguem na televisão – e que não é construído com legitimidade real, de trabalho, mas em cima, de novo, de corrupção dentro da legalidade. As luzes estão se voltando para esses absurdos – e penso que eles serão extintos.

Que valores sustentam essa consciência nascente?
Valores importantes. Temos tido uma presença maior do trabalho formal, deixando para trás um país que queria levar vantagem, um país do jeitinho brasileiro, da informalidade. As pessoas estão pagando impostos, participando de toda essa estrutura cívica que é o contrato social. O trabalho hoje é um valor no Brasil, um valor importante, que leva as pessoas a buscar economizar, a vislumbrar uma estratégia em suas vidas. Diria que o valor do trabalho é uma espécie de autovalor, a inclusão das pessoas na cidadania.

A formalização do trabalho também tira as pessoas de certa clandestinidade, e faz com que elas passem a valorizar a honestidade. Mais brasileiros podem ser honestos, hoje, e os honestos demandam mais honestidade. Penso que essa é uma das grandes mudanças que têm acontecido: mais pessoas vivendo o valor da honestidade e fazendo essa demanda por honestidade.

Pensando no futuro, como o senhor vê as novas gerações convivendo em um planeta tão pequeno?

Vamos precisar de muita, muita maturidade. Porque o desequilíbrio que a gente aponta na natureza, no clima, esse desequilíbrio é estrutural nosso. No centro está a questão do consumo, da riqueza. Não sabemos lidar com a riqueza, estamos deslumbrados. É também um mundo muito individualista. Fomos para um caminho que economicamente se mostrou mais viável, mais eficiente, mas há um paradoxo nessa eficiência.

Estou falando de um capitalismo que não conseguirá, a médio prazo, produzir qualidade de vida para todo o planeta – se todos formos ter um carrinho e todos os objetos que são hoje apresentados como sonho de consumo. Talvez até pudéssemos ter esses objetos, mas veríamos o surgimento de problemas muito graves, climáticos e de qualidade do ar, da água. Falamos disso como se fosse virtual, mas pouco a pouco essas coisas vão se mostrar reais.

Vamos ter de conhecer algum tipo de processo mais coletivo, de interesse coletivo. Nesse paradigma que vivemos hoje, estamos incluindo os cidadãos como indivíduos – agora mais gente pode comprar, pode exercer a cidadania. Mas a cidadania do indivíduo é um pouco como aquela historinha: o sujeito sentado em um barquinho e começa a fazer um buraco debaixo da sua cadeira. Quando as pessoas começam a reclamar, “você está fazendo um buraco no barco”, ele diz “não se mete, estou fazendo debaixo do meu banco”.

É um pouco como funcionamos – estamos construindo o direito de todos fazermos um buraco debaixo do nosso banco. Só que em algum momento vamos perceber que isso não é um direito, e então teremos de pensar uma inclusão de cidadania que vise o bem coletivo. Isso vai ser muito complexo para todos nós, vai exigir maturidade para fazer acertos que não sejam violentos. É uma questão civilizatória muito complexa: como é que vamos desmontar o direito que foi dado ao indivíduo, essa liberdade, sem que ela seja sufocada por um Estado que venha a intervir em nome de cataclismas ou da economia? Quando um país começa a falir, a tendência é surgir um estado autoritário, porque alguém tem que fazer o que tem de ser feito. Então, é muito complicado.

Falando no longo prazo, eu usaria até mesmo uma imagem bíblica: estamos precisando da multiplicação dos pães. O mundo não vai poder ter um automóvel para cada um dos seus 7 bilhões de habitantes, nem um microondas, nem uma televisão. Do ponto de vista da economia, isso talvez seja um sonho maravilhoso, mas esse sonho é inviável. Em algum momento vamos conhecer a inviabilização desse projeto. A multiplicação dos pães não é a multiplicação dos carros e dos microondas, mas o conhecimento de qual riqueza nós dispomos e a capacidade de usufruir, não do fato de ter eu um carro, mas sim de ganhar alguma qualidade coletiva. Se todas as benesses que podemos imaginar conseguir na vida estão no campo individual, vamos continuar querendo consumir cada vez mais. Se não tivermos prazeres que não sejam obter, ter, possuir; se não tivermos prazeres que são coletivos, em pouco tempo vamos nos descobrir muito pobres. A multiplicação dos pães não é no sentido exponencial, como se pode imaginar. É a criação de outros valores, valores que façam as pessoas terem como objeto de consumo coisas coletivas. O que é coletivo modifica qualitativamente a relação de consumo.

A espiritualidade teria um papel nessa mudança?
As religiões, de forma muito profética, mas obviamente sem ter os instrumentos para saber quando isso aconteceria, anteciparam esses eventos. O projeto de poder do homem, por mais que seja controlado pela democracia, o levaria mais cedo ou mais tarde à destruição.

As religiões antecipavam que esse modelo de poder individual é um modelo apocalíptico. É um modelo que vai levar as pessoas a um conflito muito grande, e elas então vão precisar de uma nova consciência. Os profetas falavam em uma circuncisão no coração. As pessoas teriam uma nova perspectiva do que é a vida, do que é o prazer, de qual é o sentido da vida, e essa seria uma mudança qualitativa na relação que o ser humano tem consigo mesmo. Penso que essa é a grande mudança que viveremos, lá na frente. Seremos uma população consciente, que vai olhar para nós, que vivemos hoje, como seres primitivos – e a ênfase no individualismo está no centro desse primitivismo.

Como fazer essa mudança sem perder os padrões de liberdade que a gente tem hoje? Sem promover nenhuma forma de repressão aos prazeres, às conquistas que o ser humano alcançou? Essa é a resposta que não conhecemos. Mas minha intuição diz que o ser humano talvez venha a viver um processo não muito suave.



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A crise do capitalismo e o efeito-borboleta






Wallerstein aposta: agonia do sistema durará poucas décadas. Duas alternativas opostas emergirão. Desfecho será definido numa infinidade de nano-atos

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Antonio Martins


Fazer previsões de curto prazo (o próximo ano ou o seguinte) é um jogo de tolos. Há muitas mudanças imprevisíveis e sobressaltos no mundo real político, econômico e cultural. Mas podemos tentar fazer afirmações para o médio prazo (uma década ou mais), baseadas numa estrutura teórica adequada, combinada com uma sólida análise empírica das tendências e obstáculos.

Que sabemos sobre o sistema-mundo em que vivemos? Primeiro, que é uma economia-mundo capitalista, cujo princípio básico é a acumulação incessante de capital. Além disso, sabemos que é um sistema histórico, que, como todos, (do Universo como um todo aos mais minúsculos nano-sistemas) tem uma vida. Nasce, vive sua existência “normal” de acordo com regras e estruturas que cria, e então, em um certo ponto, move-se muito além do equilíbrio e entra em uma crise estrutural. Em terceiro lugar, sabemos que nosso sistema-mundo atual é polarizante, produzindo um abismo crescente entre os Estados e o interior dos mesmos.

Estamos nesta crise estrutural exatamente agora, e há cerca de quarenta anos. Vamos continuar nela por mais vinte a quarenta anos. É a duração média das crises estruturais dos sistemas históricos. O que acontece nestes momentos é que o sistema bifurca-se. Significa, essencialmente, que emergem duas formas alternativas de encerrar a crise estrutural – por meio da “escolha” coletiva de uma das saídas.

A principal característica de uma crise estrutural é uma série de flutuações caóticas e selvagens de tudo – os mercados, as alianças geopolíticas, a estabilidade das fronteiras estatais, do emprego, dívidas, impostos. A incerteza, mesmo no curto prazo, torna-se crônica. E as incertezas tendem a congelar a tomada de decisões econômicas – o que, é claro, torna as coisas piores…

Eis algumas das coisas que podemos esperar no médio prazo. A maior parte dos Estados enfrenta, e continuará a enfrentar, uma pressão provocada por arrecadação em queda e gastos em alta. A maioria deles tem tentado reduzir os gastos de duas maneiras. Primeiro, cortar (ou mesmo eliminar) boa parte das redes de segurança que foram construídas no passado, para ajudar as pessoas comuns a enfrentar as contingências com que se deparam. Mas há uma segunda maneira. A maior parte dos Estados está cortando as transferências de recursos para entidades estatais subordinadas – unidades federadas (se o país é uma federação) e governos locais. Isso apenas transfere, para estas unidades federadas, a necessidade de elevar impostos. Se não são capazes, podem quebrar, o que elimina outras partes das redes de segurança (em especial, aposentadorias).

Isso provoca um impacto imediato sobre os Estados. De um lado, enfraquece-os, já que cada vez mais unidades federadas procuram separar-se, quando veem este passo como economicamente vantajoso. Mas por outro lado, os Estados são mais importantes que nunca, já que as populações buscam refúgio em políticas estatais protecionistas (“garanta meu emprego, não os deles”). As fronteiras estatais sempre mudaram. Mas é provável que mudem ainda mais frequentemente agora. Ao mesmo tempo, novas estruturas regionais, ligando Estados existentes (ou suas sub-unidades) – como a União Europeia (UE) e a União de Nações da América do Sul (Unasul) –, continuarão a florescer e jogar um papel geopolítico crescente.

Os malabarismos entre os múltiplos espaços [loci] de poder geopolítico irão tornar-se ainda mais instáveis, numa situação em que nenhum destes espaços estará em posição de ditar as regras inter-estatais. Os Estados Unidos são um poder geopolítico de outrora, com pés de barro, mas ainda suficientemente poderosos para se vingar de danos sofridos. A China parece ter o economia emergente mais poderosa, porém é menos forte que ela própria (e outros) pensam. O grau em que a Europa Ocidental e a Rússia irão se aproximar é ainda uma questão aberta, muito presente na agenda de ambas partes. Como a Índia usará suas cartas é algo sobre o que ela está muito indecisa. O que isso significa, no momento, para guerras civis como a da Síria, é que as intervenções externas anulam-se umas às outras e os conflitos internos tornam-se ainda mais organizados em torno de grupos identitários fratricidas.

Reitero uma posição que mantenho há muito. Ao final de uma década, veremos grandes realinhamentos. Um é a criação de uma estrutura confederada, ligando o Japão, a China reunificada e a Coreia reunificada. O segundo é uma aliança geopolítica entre esta estrutura confederada e os Estados Unidos. Um terceiro é uma aliança de facto entre a União Europeia e a Rússia. Um quarto é a proliferação nuclear em escala significativa. Um quinto é o protecionismo generalizado. O sexto é uma deflação mundial, que pode assumir duas formas – ou uma redução nominal dos preços, ou inflações descontroladas -, que teriam a mesma consequência.

Obviamente, não são perspectivas felizes para a maior parte das pessoas. O desemprego global vai crescer, em vez de cair. E as pessoas comuns sentirão muito severamente o aperto. Elas já demonstraram que estão prontas para lutar de diferentes maneiras – e esta resistência popular crescerá. Vamos caminhar para o meio de um vasta batalha política para determinar o futuro do planeta.

Os que detêm riqueza e privilégio não ficarão de braços cruzados. No entanto, ficará cada vez mais claro para eles que não podem garantir seu futuro por meio do sistema capitalista existente. Tentarão implementar um sistema baseado não mais no papel central do mercado – mas numa combinação de força bruta e dissuasão. Seu objetivo central será assegurar que o futuro sistema garanta a preservação de três aspectos centrais do atual – hierarquia, exploração e polarização.

Do outro lado, haverá forças populares que buscarão, em todo o mundo, criar uma nova forma de sistema histórico – que nunca existiu ainda. Uma forma baseada em relativa democracia e relativa igualdade. É quase impossível prever o que isso significa em termos das instituições que poderão ser criadas. Compreenderemos durante a construção deste sistema, nas próximas décadas.

Quem vencerá esta batalha? Ninguém pode prever. O resultado será determinado por uma infinidade de nano-ações, adotadas por uma infinidade de nano-atores, em uma infinidade de nano-momentos. Em algum ponto, a tensão entre as duas soluções alternativas vai pender definitivamente em favor de uma ou outra. É o que nos dá esperança. O que cada um de nós fizer a cada momento, sobre cada assunto imediato, importa. Algumas pessoas chamam a isso “efeito borboleta”. O bater de asas de uma borboleta afeta o clima do outro lado do mundo. Neste sentido, somos todos borboletas, hoje.



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EUA: super WiFi, público e para todos?




Proposta lançada pela Comissão Federal de Comunicações gera intensa repercussão. Empresas de telecomunicações querem impedi-la; gigantes tecnológicos, como Google, apoiam.

Por Ladislau Dowbor


O governo federal americano quer criar uma super rede WiFi de livre acesso, abrangendo todo seu território. A proposta, revolucionária, acaba de ser formulada pela FCC, a comissão frederal de comunicações, por meio de relatório assinado por seu chairman, Julius Genachowski. A noticia completa, de autoria da repórter Cecila Kang, pode ser lida (em inglês), no Washington Post. O texto relata algo previsível: embora extremamente benéfica para a população, a medida já enfrenta resistência das operadores de telecomunicações…

O conceito de rede de livre acesso já é utilizado em muitas cidades pelo mundo, mas estáavançando para escalas nacionais. O raciocínio é simples. Não pagamos para andar nas ruas, ainda que elas custem mais caro do que as infovias, onde se navega em ondas eletromagnéticas. A circulação livre da informação aumenta a produtividade de todos. O fato de podermos transitar livremente pelas ruas é que assegura que sejam economicamente viáveis a farmácia, o posto de gasolina e assim por diante. São as aplicações do conhecimento que devem render, não os pedágios sobre a sua movimentação.

A proposta gerou naturalmente indignação das grandes empresas de telefonia, que estão entre as mais lucrativas do planeta, justamente porque cobram pedágio. Pela internet, podemos nos comunicar gratuitamente. Nas cidades de livre trânsito da informação, em vez das pessoas se deslocarem, ou de massacrarmos motoboys, são os bits que viajam: é mais rápido, não polui. Dizem que os brasileiros jogam bem porque em vez de eles correrem, é a bola que corre. Tem lógica. Bem, talvez seja mais o caso do Barcelona.

Como o artigo está em inglês, traduzo um segmento para os anasaxônicos: “O governo federal quer criar redes de super WiFi através da nação, tão poderosas e amplas na cobertura que os consumidores poderão utilizá-las para fazer chamadas telefônicas ou surfar na internet sem pagar a conta do celular a cada mês.”

“A proposta da Comissão Federal de Comunicações balançou a indústria do sem-fio, que rende US$178 bilhões de dólares, e que lançou um violento esforço de lobby para levar os responsáveis pelas políticas a reconsiderar a ideia, dizem os analistas. Isto foi confrontado por uma campanha igualmente intensa de Google, Microsoft e outros gigantes da tecnologia, que dizem que a liberação geral dos serviços WiFi permitiria uma explosão de inovações de produtos que beneficiariam a maioria dos americanos, em particular os pobres”.


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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Imprensa e toga: a tentação do golpe


Não deve ser motivo de surpresa que os membros dos dois campos (midiático e jurídico) se vejam empenhados em mudar as regras formais do jogo político, inaugurando uma série de eventos dramáticos com o objetivo último de deslegitimar o governo eleito pelo povo.

por Gilson Caroni Filho*


Como realizar uma tarefa desmedida, a retomada da agenda neoliberal, se na direita nada há que não seja um imenso vazio? A sua ideologia, incapaz de se reciclar, continua se apoiando em um pensamento econômico que, além do fracasso retumbante, exige para sua implantação, a derrocada das mínimas condições democráticas vigentes.

Para operar a demolição do país é necessário modificar profundamente a estrutura de poder no Brasil. E não nos iludamos. O protagonismo do judiciário, traduzido em confronto permanente com o Legislativo e outras instâncias da organização republicana, nomeadamente, o Poder Executivo, é peça central de uma onda golpista que tende a se acirrar em 2013.

É bom lembrar, como destaca a tradição marxista, a capacidade das classes dominantes de deslocar o centro do poder real de um aparelho para outro tão logo a relação de forças no seio de um deles pareça oscilar para o lado das massas populares. A estratégia é restabelecer, sob nova forma, a relação de forças em favor do capital rentista. É à luz da perda de importância dos partidos conservadores, em especial do PSDB, que se estabelece a proeminência das corporações midiáticas e de um STF por elas pautado.

Não deve ser motivo de surpresa que os membros dos dois campos (midiático e jurídico) se vejam empenhados em mudar as regras formais do jogo político, inaugurando uma série de eventos dramáticos com o objetivo último de deslegitimar o governo eleito pelo povo.

E por que tal empreitada ainda se afigura no horizonte das viúvas do consórcio demotucano? Porque nossas elites estão pouco acostumadas com a vida democrática, sendo incapaz de enriquecer o debate político. A democracia, como todos sabemos, não prospera sem o compromisso de todos com sua manutenção.

Seria preciso que a imprensa, o sistema educacional, as lideranças empresariais e intelectuais apoiassem a ideia democrática como única forma que legaliza e legitima o conflito. Nada mais incompatível com a prática e o discurso que caracterizam a falange neoliberal brasileira, forjada a ferro e fogo em uma formação autoritária secular que considera a negociação de interesses opostos como fator impeditivo para a adoção das medidas necessárias solicitadas pelo mercado. Estamos diante de atores que, como sabemos há muito tempo, não recuam de medidas mais radicais para a execução das tarefas a que se propõem: o desmonte do Estado e o aniquilamento da cidadania.

A maior presença, dia a dia, do Poder Judiciário reconstitucionalizando o direito ordinário à luz dos editoriais (estatutos) da mídia corporativa, não é um episódio isolado, uma carta encomendada apenas para o julgamento da Ação Penal 470. A nova direita brasileira, cega e surda, arrogante e displicente, irá às últimas consequências para o cumprimento de suas metas. Nem que para isso tenha que levar à desmoralização o seu próprio braço parlamentar.
Não há limites para o golpismo. Se dessa vez o estamento militar opera nos marcos da legalidade, não há problemas. Que se troquem as fardas por togas dóceis. A margem de manobra é mínima, mas a tentação é grande.

A tarefa mais urgente, pois, é continuar mobilizando a vontade nacional, atuando em todos os movimentos sociais organizados. É preciso deflagrar uma campanha orgânica de desmistificação do noticiário envolvendo questões legais. Ao país interessa um Poder Judiciário que , como guardião da Constituição Federal, dinamize os instrumentos processuais constitucionais previstos para garantir o funcionamento da democracia. E isso significa evitar que o Estado volte a ser atropelado pela insanidade dos golpistas, ficando sem condições para cumprir e fazer cumprir as leis.



*Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

Fonte: Carta Maior

Por uma São Paulo inteligente


Neste artigo, o professor de economia e administração da PUC-SP Ladislau Dowbor discute alguns instrumentos de gestão que poderiam melhorar a vida da população de SP: compartilhamento da informação, planejamento participativo, conectividade embasada nas novas tecnologias, organização comunitária e conselhos de desenvolvimento. A base para tudo isso são o software e a inteligência organizacional, que nem de longe têm os mesmos custos absurdos dos minhocões e piscinões.


por Ladislau Dowbor*



Para que São Paulo funcione melhor, é preciso melhorar a gestão da cidade. A escala é grande, e os problemas são muitos, mas ao fim e ao cabo se trata de administrar o melhor possível recursos que são limitados, e isto aprendemos a fazer inclusive na nossa própria casa. Há casas, prédios, empresas ou cidades que são bem administrados, outros não. Na realidade, não é a escassez de recursos que é o problema principal, e sim o processo decisório que preside à sua utilização.

Poderíamos aqui fazer um elenco das teorias que existem sobre a administração pública local, os grupos de pressão, a economia regional e urbana. Mas nos pareceu mais simples partir de exemplos concretos, dos problemas práticos do cotidiano da cidade, e tecer em volta deles as mudanças necessárias de governança. Estes problemas ja foram apresentados de maneira mais extensa em outros estudos, mas aqui serão rapidamente tocados com o foco nas medidas de gestão e de governança que implicam.

Informação compartilhada

Imagine que você queira vender a sua casa. Normalmente, você vai ter de enfrentar uma dúzia de corretores, e a não ser por algum golpe de sorte, vai levar um ano, além de transformar a sua casa numa árvore de natal de placas de imobiliárias. A solução é simples: em muitas cidades, os corretores de imóveis que recebem a sua proposta de venda têm 24 horas para colocar a casa na internet, como foto e detalhes como preço (que o eventual comprador hoje trava uma batalha para obter), sob a pena de perderem a licença de corretagem. No caso do comprador interessado numa casa em determinada região e faixa de preço, é o mesmo sistema, o corretor que recebeu o pedido coloca na internet. O resultado é que todas as propostas de compra e venda de toda a cidade estão permanentemente em contato, em vez de um corretor guardar preciosamente a sua meia dúzia de fichas de compra, e outro a sua meia dúzia de fichas de venda, um evitando cuidadosamente que outro saiba o que tem em mãos. A média de prazo de venda de um imóvel na cidade de Toronto, para dar um exemplo, é da ordem de 10 dias. A comissão é dividida entre quem encontrou um proprietário e quem encontrou um potencial comprador.

É uma medida simples, mas de impactos significativos. O sistema fragmentado atual significa capital imobilizado, tempo perdido para todos, pessoas estressadas, e falta de flexibilidade de adaptação do local de moradia e do local de trabalho ou estudo. Enrijece o fluxo de transações imobiliárias, além de gerar um poder oligopolizado, nas mãos de alguns “donos” do processo, fator de especulação imobiliária que prejudica a todos. As maiores inclusive bancam campanhas de vereadores e prefeitos, e transformam o seu controle de diversos bairros em poder e deformação do processo decisório público. Já houve tentativas pontuais no sentido de se criar um sistema integrado online em São Paulo, mas enquanto não houver uma regulamentação que envolva a todos os atores, continuaremos no sistema irracional atual. A regulamentação exige aqui simplesmente uma decisão do prefeito, ou da Câmara.

O interessante, é que com a maior fluidez de transações, onde foi adotado, o sistema permitiu elevar a renda dos próprios corretores, pois o volume de transações aumenta fortemente. Mas a resistência das imobiliárias é grande, pois não querem dividir a corretagem, e têm receio de outros aproveitarem as suas fichas sem contrapartida. É o tradicional problema do “senta” gritado pelos espectadores de um jogo de futebol, em que ninguém senta, pois quem sentar sozinho fica sem ver o jogo.

Trata-se aqui de um exemplo simples de perda de produtividade sistêmica na cidade, por falta de organização, por atraso dos processos de gestão relativamente às novas tecnologias, e por privilegiar ganhos fragmentados individuais relativamente aos ganhos mais amplos para todos. Sem falar, naturalmente, que na São Paulo realmente existente, os interesses de algumas imobiliárias articuladas com políticos tradicionais podem pesar mais do que o interesse público. No caso, já existem as tecnologias, conhece-se inúmeros exemplos de experiências bem sucedidas, e não se trata de gastar rios de dinheiro: é racionalização gerencial. A simples disponibilização na internet das informações leva a que as imobiliárias, em vez de brincarem de esconde-esconde entre si e cobrarem pedágios elevados, sejam facilitadores e não atravessadores. A disponibilização das informações, gerando transparência dos processos, pode ser um poderoso racionalizador da gestão. E o impacto, numa cidade dinâmica e de grandes distâncias como São Paulo, será evidentemente grande, inclusive porque a rigidez do sistema atual leva a que inúmeros proprietários de imóveis os deixem vazios, quando muita gente carece de moradia adequada ou bem localizada segundo o seu local de emprego.

O exemplo nos leva diretamente ao problema da governança da cidade, do processo decisório sobre a alocação dos nossos recursos. Enquanto as decisões forem centralizadas, pouco transparentes, tomadas entre grupos acostumados ao compadrio e não à gestão dos interesses públicos, dificilmente serão tomadas medidas que favorecem a cidade, mesmo quando são óbvias e baratas. Para que os interesses da cidade apareçam nos processos decisórios, é indispensável resgatar a cidadania. Ou seja, sistemas descentralizados e participativos, e a transparência que assegure a informação cidadã.

Planejamento participativo

Outro exemplo interessante é o da canalização de córregos. Na ausência de uma política integrada de gestão da água na cidade, optou-se tradicionalmente pelo varejo: um bairro que sofre regulares enchentes procura o vereador, que negocia os interesses envolvidos, pressiona o prefeito, identifica os interesses de uma empreiteira, e o resultado é um córrego canalizado. Os residentes do bairro ficam satisfeitos, o vereador ganha votos, a empreiteira ganha dinheiro, o prefeito inaugura obras. O problema, naturalmente, é que a água tem a mania de correr para baixo. Por isso, possivelmente, falamos de “córregos”. Como no córrego canalizado a água corre mais rápido, o bairro a jusante passa a sofrer enchentesmaiores. Os residentes do bairro seguinte vão então procurar o mesmo ou outro vereador, e o sistema continua, até que a água termine chegando tão rápido às partes baixas da cidade, que as enchentes se tornam catastróficas. Neste caso começam a ser construídos piscinões, para reter a água, o que gera bons contratos e novos núcleos de contaminação. E como os piscinões não são suficientes para conter o volume de água, contrata-se as mesmas empreiteiras para aprofundar a calha do rio. Mais contratos.

Trata-se aqui de políticas clientelistas, de venda a prestações de soluções que resolvem o problema de uns às custos de outros. E quando o sistema quebra de vez, e a inundação é generalizada, fecham-se as comportas de forma a que sejam atingidos os pobres, que não têm voz, e não os que formam a chamada “sociedade”.

Não se trata, aqui, de falta de conhecimento do que fazer. Em vez de canalizar os córregos, usam-se sistemas de “caixões” que retêm a água, num tipo de escadaria que trava o fluxo. Melhor ainda, em vez de cobrir e asfaltar os vales, mantem-se a distância de urbanização junto aos córregos, para assegurar a penetração da água nos lençóis freáticos, e utilizar a característica de esponja que têm as várzeas. Isto permite que os bairros, em vez de enchentes, tenham riachos com encostas arborizadas, fonte de lazer e de beleza. Inúmeras cidades do mundo estão mudando radicalmente a sua relação com as águas de superfície. Em vez de mais concreto, passaram a utilizar mais planejamento. Entenderam que a água é uma força da natureza, que ao ser bem aproveitada e respeitada torna-se um impressionante fator de qualidade de vida na cidade.

Transformar os riachos em esgotos canalizados, os vales em asfalto para carros, e a relação com a água numa luta contra a natureza, pode gerar bons contratos, além de belas inaugurações, mas não resolve nada. E evidentemente, com mais avenidas nos vales, em vez de mais metrô e transporte coletivo, o resultado é catastrófico tanto em termos de enchentes de água como de carros e mobilidade urbana.

Aqui também, evidentemente, temos um problema de governança, onde a visão sistêmica e de planejamento integrado deve ser resgatada. As pequenas vantagens de empreiteiras e prefeito de plantão, respondendo de maneira oportunista a interesses pontuais, não permitem soluções adequadas. Na soma dos interesses particulares de bairros afetados pelas enchentes, e dos interesses individuais de transporte, o resultado é um sistema onde não anda nem a água nem o carro. Nas reuniões que tivemos com técnicos da área de gestão da água, é impressionante como as soluções são conhecidas. Priorização radical do saneamento básico e tratamento de esgotos, arborização de encostas, resgate das várzeas, reabertura de pontos de estrangulamento dos fluxos de água, recuperação das margens invadidas por habitações de risco, avançando inclusive para a evidente possibilidade de um anel hidroviário em torno da cidade – aproveitando o Tietê, o Pinheiros e as represas – são medidas não só conhecidas como já sistematizadas em estudos e projetos concretos. E todos os dados estatísticos, tanto em termos de pluviometria como de desastres ocorridos e prováveis, estão disponíveis. Não é falta de conhecimentos, e sim de como são aproveitados.

Voltamos assim ao processo decisório, à democratização das opções sobre como se utilizam os recursos da cidade. A água não dá muita importância às delimitações de distritos e de subprefeituras, funciona por bacias hidrográficas. E se trata de um bem multifuncional, fator de produção econômica na agricultura, na indústria e no turismo, fator de bem-estar urbano através da beleza e dos espaços de lazer, vetor de transporte fluvial importante a ser resgatado, vetor de doenças e inundações quando tratado de maneira irracional. Este tipo de multifuncionalidade exige visão sistêmica, o que por sua vez exige a recuperação da capacidade de planejamento de longo prazo, no nível das diversas bacias hidrográficas, e envolvendo os diversos níveis de complexidade, desde o córrego do bairro até o planejamento da relação da cidade e da região metropolitana com todo o sistema de aproveitamento, uso, tratamento, reciclagem e incorporação da água nas dinâmicas urbanas.

Isto envolve a elaboração de um plano geral de águas, na mesma modalidade em que os fluxos de pessoas e mercadorias exigem um plano geral de mobilidade urbana e metropolitana. Mas envolve também a participação de cada bairro, de cada distrito e subprefeitura, no sentido de resgatar a segurança frente às enchentes, a transformação dos esgotos a céu aberto em riachos limpos e arborizados. Ou seja, cada subprefeitura, e cada distrito, devem dotar-se de espaços participativos que assegurem que o uso dos recursos públicos seja destinado a melhorar a qualidade de vida local – dentro de uma visão geral do plano de águas. Isto exige a dinamização de instâncias locais de decisão, mas também uma cidadania informada sobre os potenciais locais, e sobre os projetos em curso. Hoje, o cidadão descobre que há um projeto no seu bairro pela placa que é colocada no local, informando sobre algo que já foi decidido.

Em termos de processo decisório, isto implica na necessidade de se desenvolver a capacidade de planejamento participativo. O conceito de planejamento participativo vai além da alternativa simplificada e ideologicamente contaminada entre planejamento estatal autoritário e o vale-tudo do mercado: envolve a articulação dos processos públicos e dos interesses empresariais com as vontades expressas pelas comunidades, o conjunto baseado em estudos técnicos competentes que assegurem a visão de conjunto e os resultados positivos no longo prazo.

Acesso banda larga: conectividade

Uma terceira ilustração da necessária modernização da governança urbana nos é trazido pela questão da banda larga. Há uma corrida mundial de municípios que estão se dotando de WiFi, Wi-max e outras tecnologias que aproveitam um gigantesco capital desperdiçado nos centros urbanos, que são as ondas eletromagnéticas. A era digital no planeta está provocando uma profunda transformação civilizatória, revolucionando sistemas de gestão, transformando empregos, mudando radicalmente o conceito de espaço geográfico, alterando a própria sociabilidade e conexões entre as pessoas, grupos e empresas.

Em termos técnicos e financeiros, já não há muitos mistérios. A densidade populacional urbana torna muito rentável generalizar o acesso à internet em banda larga sem fio, permitindo a que qualquer pessoa possa se conectar com a totalidade das informações disponíveis online no planeta a partir de qualquer lugar, em qualquer momento, virtualmente sem custos. Hoje o acesso em São Paulo é monopolizado pelas empresas de telefonia, e como são poucas e articuladas, o resultado são custos muito elevados de acesso. Mas o acesso pode ser público, com softwares abertos, a custos reduzidíssimos. Qualquer pessoa conversa hoje pelo skype com Paris ou com Nova Iorque quase sem custos, porque está usando a internet, quando paga muito caro uma ligação entre, por exemplo, São Paulo e Campinas. Trata-se aqui de uma péssima gestão de um recurso público, as ondas eletromagnéticas, apropriadas por empresas privadas.

A solução óbvia é de se assegurar acesso aberto sem custos, ou a custo simbólico. A conta é simples: para a mobilidade das pessoas e das mercadorias, utilizamos ruas e avenidas, cujo custo de produção e manutenção é elevado. No entanto, ninguém cobra pedágio (ainda!) para andarmos na rua. Podemos circular livremente, e gratuitamente. Isto não impede que a rua seja produtiva em termos econômicos: permite a instalação de comércios, de residências e diversas atividades econômicas, que irão render dinheiro e gerar empregos. Da mesma forma, o ganho comercial com a circulação de conhecimento – onde as ruas e avenidas se chamam “banda larga” – não deve ser feito sobre a própria circulação, e sim sobre as atividades econômicas que permite. O que estamos fazendo agora é o equivalente a cobrar pedágio a cada esquina, impedindo o livre trânsito, o que trava aplicações mais produtivas para a cidade.

Na cidade de Piraí, no Estado do Rio, com o programa Piraí Digital que generalizou o acesso à banda larga (apesar das várias restrições legais geradas pela apropriação privada das ondas no Brasil, no regime das chamadas concessões) o que torna as escolas muito mais produtivas: toda a rede pública dotou as crianças de laptops que trabalham sem fio. Com isso a educação passou a trabalhar por projetos e com pesquisa dos conhecimentos disponíveis no planeta, em vez de se limitar às fatias de cinquenta minutos e conhecimentos fatiados nas chamadas disciplinas e nos manuais escolares. E a criança pode continuar o trabalho em casa, pois a relação é com o conhecimento, e não com a instalação física que chamamos de “sala de aula”. É uma revolução educacional em marcha.

Com a abertura do acesso, multiplicam-se as oportunidades. As pessoas que têm um problema a resolver, trocam os “bits” de informações por internet. Em vez das pessoas tirarem o carro da garagem ou pegarem o ônibus, e perderem um meio dia de trabalho, quem viaja são os “bits”, com óbvias economias. O trânsito agradece, menos motoboys irão morrer nas ruas. O comércio passa a fazer uma gestão de estoques mais racional.

O impacto emprego aparece com força tanto em Piraí, onde pequenos produtores de tilápia vendem diretamente subprodutos da pesca para o Japão – a internet não tem porque se limitar a fronteiras, as ondas viajam na velocidade da luz – como na favela de Antares, no Rio de Janeiro, onde o acesso à banda larga está generalizando atividades de prestação de serviços informáticos online, de design, de circulação de mensagens, de produção cultural disseminada na rede de pontos de cultura e semelhantes: “Com informação, ouvimos de uma dos gestores do projeto, nós somos iguais”. O emprego não significa necessariamente, nesta era, um local geográfico e instalações físicas, onde somos “empregados”. Há inúmeras atividades autônomas ou em rede que se expandem.

Para mencionar outro impacto importante, a conectividade generalizada na cidade permite que o conjunto de serviços públicos seja radicalmente descentralizado. Muito além da boa ideia que são os “poupa-tempo”, pode-se assegurar um poupa tempo generalizado, pois os mais diversos serviços municipais podem ser prestados diretamente através do computador das pessoas, sem sair de casa (como os bancos já fazem com as nossas contas), e outros podem ser instalados em todos os distritos da cidade sem se virar caos, pois estão em rede, o que permite descentralização do serviço associado à articulação, coordenação e controle sistêmicos.

Para uma cidade como São Paulo, com a sua dimensão e distâncias, se trata de transformações de grande importância, inclusive porque constituem um fator de igualdade de oportunidades, reduzindo os dramas das periferias da metrópole. O conhecimento tem esta particularidade de ser um bem “não-rival”, o seu consumo não reduz o estoque. Usar conhecimento não gasta. Pelo contrário, na era da economia do conhecimento, quanto mais este circula, mais riqueza se gera.

O aporte racionalizador da gestão urbana resulta aqui do fato da banda larga e da conectividade sem pedágios permitirem uma descentralização muito significativa do conjunto da administração pública. Em grande parte, as pessoas passam a elas mesmas administrarem os seus problemas. As rádios comunitárias e redes locais permitem que as comunidades se articulem, que sejam convocadas reuniões sem precisar de carro de som nem de correspondência, que se façam consultas online, que se denunciem de maneira democrática problemas ocorridos. É de certa forma um fator de “reapropriação” da cidade pelos seus usuários.

Em termos propriamente de governança, é essencial se assegurar o acesso público à banda larga, tal como o fazemos com água, eletricidade e outros bens básicos. Atualmente apropriado por grupos privados, o sistema de acesso ao conhecimento e à conectividade deve ser assegurado no mesmo sistema publico e universal, o que não impede que grupos privados assegurem serviços especializados. Não se trata de passar do oligopólio privado ao monopólio público, mas de assegurar a função racionalizadora global que a conectividade permite. Por natureza, os sistemas privados se concentram na demanda sofisticada com altos preços, com tendência para aprofundar a desigualdade de oportunidades na cidade. Um sistema básico público, com abertura para serviços diferenciados e especializados, ou demandas mais pontuais, pelo setor privado, portanto misto, constitui uma possível visão de governança deste setor tão importante.

A comunidade organizada: democracia participativa

Os pontos de modernização da governança urbana que vimos até agora, compartilhamento de informação, planejamento participativo, conectividade urbana, constituem instrumentos “soft”, no sentido de que não se trata de rios de dinheiro para construir mais um viaduto com muito ferro e concreto, e muita pompa para as inaugurações, além de muito dinheiro para a campanha política seguinte. Trata-se de medidas essencialmente organizacionais, de formas de funcionamento, de modernidade na gestão. E os impactos se manifestarão na área mais delicada e frágil, que é a área da governança, que chamamos de forma geral de “política”. Organizar esta “política” no sentido de assegurar a prioridade dos critérios ligados à qualidade de vida da população, passa por pensarmos menos em ideologias que nos dividem, e mais nas formas mais funcionais de responder aos problemas mais importantes. Não é dinheiro, asfalto nem concreto que nos fazem falta, e sim o bom senso na sua utilização, e a priorização dos resultados.

É importante lembrar que a governança e regulação dos vários setores de atividade precisa levar em conta os interesses presentes, as chamadas partes interessadas (stakeholders). Envolve por tanto a geração de sistemas de pactuação, nos diversos níveis onde se situam os problemas: no bairro ou distrito, na subprefeitura, na cidade, na metrópole, articulando-se ainda com níveis estadual e federal. O que mais faz falta, na cultura política herdada na cidade, é o nível básico, o bairro, o distrito e a subprefeitura, que é onde as pessoas podem mais diretamente participar. Se houver forte organização cidadã na base, é o conjunto da pirâmide de decisões que passará a fazer sentido, pois as instâncias superiores terão de levar em consideração os interesses das comunidades, a prosaica qualidade de vida.

Os processos precisam ser democráticos. Diferentemente numa empresa privada, no caso da cidade, os usuários é que são os donos. Ou seja, a própria participação nas escolhas e nas opções do que será feito no bairro de cada um, faz parte da vivência democrática.

O bairro constitui uma boa ilustração. A organização do nosso entorno imediato faz parte essencial da nossa qualidade de vida. Legalmente, o bairro ainda não é uma figura jurídica, assim que temos de trabalhar com a unidade de distrito. Os 96 distritos da cidade, com uma média de 100 mil habitantes, constituem cada um uma cidade de bom porte em qualquer parte do mundo. E temos um prefeito apenas, para todos os 96 distritos e 31 subprefeituras. É muito pouca democracia. Em termos práticos, a governança precisa ser aproximada do cidadão, para que haja processos participativos.

Não há nada aqui de misterioso. Em Grenoble constroem-se conjuntos habitacionais desenhados com participação dos futuros moradores, que asseguram que no conjunto haja uma farmácia, espaço para consultórios médicos, a inevitável padaria, a tinturaria, os espaços culturais. Ou seja, o desenho do espaço é pensado do ponto de vista do cotidiano do cidadão, que tem de dispor de uma série de amenidades nas distâncias “de a pé”, e não apenas do ponto de vista da empreiteira que quer maximizar o lucro por metro quadrado. Em Montreal, está codificado que uma alteração da praça exige consulta direta, em cada domicílio, aos residentes da praça, organização de reuniões de consulta para os que vivem nas ruas contíguas, e notificação e informação prévia aos residentes na região. Pode demorar um pouco, mas assegura que a praça não vire supermercado nem estacionamento, que se preservem os espaços comuns. Em Toronto todas as infraestruturas esportivas escolares estão abertas à comunidade, sem precisar de carteirinha nem ser “sócio”: o aproveitamento das piscinas, campinhos de jogos e outros se torna não só mais útil, como economicamente mais viável.

O nosso cotidiano residencial não é apenas a nossa casa. É importante para as crianças poderem conviver com outras crianças da rua e do bairro, que a escola possa ser acessada a pé, que o lazer da rua ou do parque sejam recuperados, que haja espaço de convívio e socialização para os jovens, espaços de recreação para os idosos que constituem uma riqueza potencial de aportes. O domicílio visto como fortaleza cercada de grades, e tão mais isolado quanto mais se eleva a renda, é uma dimensão patológica em termos de prazer cotidiano de vida, do conforto de poder ir de chinelo até a padaria da esquina. Um bairro não é um aglomerado de residências, cruzado por ruas e fios elétricos. É uma cultura. E não haverá esta cultura se os residentes do bairro não puderem influir sobre as decisões que os concernem. As organizações da sociedade civil estão se multiplicando não só para preencher os vazios onde o Estado falha, mas porque participar da construção das nossas condições de vida faz parte da vida. Agregar democracia participativa aos mecanismos representativos tradicionais não é visão “ideológica”, é respeito às pessoas, articulando os processos decisórios sobre um espaço que é de todos. Um movimento como a Rede Nossa São Paulo constitui um embrião destas articulações. Cidades Sustentáveis é um movimento crescente. O bom senso está chegando.

Os conselhos de desenvolvimento

Qual será o futuro econômico da cidade? Sabemos que as atividades industriais, além de empregar cada vez menos à medida que os processos são automatizados, migraram para cidades do interior. As atividades de intermediação financeira são cada vez mais geridas online pelos próprios usuários, reduzindo-se a quantidade de empregos no setor nos últimos anos. Com a conectividade generalizada que as novas tecnologias permitem, e a expansão das redes de transportes, o desenvolvimento está se interiorizando. A função de centro de uma ampla bacia econômica regional que a metrópole desempenhava até há pouco tempo, já não tem o mesmo peso. Inclusive, o atravancamento geral em termos de mobilidade urbana, resultado de décadas de opções absurdas em termos de composição intermodal de transportes na cidade, leva à gradual erosão do seu papel intermediador de atividades econômicas regionais. Resta sem dúvida a função de cidade-mundo, de âncora de um conjunto de atividades internacionais que se desenvolvem nos espaços globalizados, representações comerciais, feiras, eventos.

De forma geral, a forte expansão de atividades previstas está relacionada às atividades tipicamente densas em mão de obra e em relacionamento pessoal direto, como são as políticas sociais. Educação, saúde, cultura, esporte, segurança, habitação, lazer, turismo – estas são as atividades que claramente despontam como dominantes no horizonte da mudanças intersetoriais das atividades urbanas. A presença econômica de São Paulo dependerá cada vez mais da sua capacidade de ocupar um lugar de destaque na economia do conhecimento que se expande. Isto envolve investimentos maciços em educação, em pesquisa, em infraestruturas e sistemas de comunicação, na geração do ambiente criativo indispensável para que a cidade não fique parada no passado.

Há opções estratégicas a serem desenhadas, visões de futuro a serem construídas. Isto também exige soluções de governança. Uma experiência que está se desenvolvendo rapidamente em diversas partes do mundo consiste na criação do equivalente do que no Brasil se chamou de Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, formado inicialmente no nível federal, e hoje em funcionamento em diversos Estados e municípios. É um espaço de governança que exige participação empresarial, das autoridades públicas, de organizações da sociedade civil, de representações sindicais, de centros de pesquisa de diversas áreas. Alguém tem de pensar o futuro de maneira sistemática e organizada. Não é nos embates políticos da câmara de vereadores que surgirá este espaço. São os próprios atores mais representativos das mais diversas áreas de atividade que têm de contribuir para a construção das visões, e a negociação dos pactos correspondentes. E os vereadores, como órgão legislativo, saberão elaborar, debater e aprovar as leis correspondentes.

Shanghai criou em 1990 um núcleo de reflexão sobre o futuro da cidade, desenhando em particular o seu papel de articulador entre a imensa bacia econômica do interior e as conexões internacionais. Viu-se ela também como membro da rede de cidades-mundo que se desenhava. A Suécia, com uma população inferior à de São Paulo, tinha fixado bem antes disto a sua vocação de priorização da química fina e da mecânica de precisão. A África do Sul, responsável por 40% da produção econômica da África Sub-Sahariana, criou o National Economic Development and Labour Council (NEDLAC), para construir as suas visões. O Rio de Janeiro, que perdeu a sua função de capital que migrou para Brasilia, os seus empregos industriais que migraram para o vale do Paraíba e para a região de Campos, e boa parte dos seus empregos portuários como resultado do esvaziamento econômico, não negociou a tempo o seu imenso potencial de turismo de negócios, de eventos e de cultura, não pensou a sua transição para o futuro. Hoje tem uma massa demográfica de 8 milhões de pessoas sem as bases econômicas correspondentes, e um imenso tempo perdido, além da deterioração social a recuperar. Isto também faz parte da governança. O futuro tem de ser pensado agora.

Vimos aqui, alguns instrumentos de gestão: compartilhamento da informação, planejamento participativo, conectividade embasada nas novas tecnologias, organização comunitária, conselhos de desenvolvimento. Uma vez mais, trata-se aqui de software, de inteligência organizacional, de uso racional de recursos. Não representam os mesmos custos que os absurdos minhocões, piscinões e semelhantes, onde a inteligência foi soterrada pelo concreto. Exigem bom senso e, sobretudo, articulação política visando o objetivo maior: a qualidade de vida da população.


* Ladislau Dowbor é professor de economia e administração na pós-graduação da PUC-SP, e consultor de várias agências das Nações Unidas. Os seus textos estão disponíveis na íntegra (creative commons) no blog http://dowbor.org , em particular O que é poder local, A Reprodução Social, e Democracia Econômica.

Fonte: Carta Maior

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