"Os jornais são aparelhos ideológicos cuja função é transformar uma verdade de classe num senso comum, assimilado pelas demais classes como verdade coletiva - isto é, exerce o papel cultural de propagador de ideologia. Ela embute uma ética, mas a ética não é inocente. Ela é uma ética de classe." [Antonio Gramsci]

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Robert Fisk: Como os islamistas do ISIS/ISIL recebem essas armas norte-americanas?


Restos de bombas fabricadas nos EUA atiradas
pelo ISIS/ISIL contra o Exército da Síria


[*] por Robert FiskThe Independent



As forças especiais da Síria distribuem-se ao longo de uma série de colinas aqui bem ao nordeste de Lataquia, uma das linhas de combate mais perigosas do país, sob fogo diário de mísseis de forças rebeldes agora reforçadas pelo apoio do ISIS.

Os oficiais, que são todos pára-quedistas, falam de novas táticas e armas avançadas usadas contra eles desde que o ISIS tomou a cidade iraquiana de Mosul – e grande parte do tráfego de mensagens que ouvem dos inimigos vem em idiomas checheno ou georgiano.

Relatos de inteligência falam de uma unificação de várias facções rebeldes que se autodenominam “Legião da Costa” [orig. “Legion of the Coast”], claro sinal de que rebeldes inspirados pelo ISIS – incluídos os próprios apoiadores do ISIS – planejam atacar a oeste na direção do Mediterrâneo, cerca de 12km dali.

Pode-se apostar que logo começará uma batalha naquelas montanhas cobertas de pinheiros.

Os próprios soldados falam com conhecimento detalhado sobre os mísseis guiados por detectores de calor que foram disparados contra eles, e concordam que a mistura de grupos islamistas acima e a leste deles estão fazendo ataques calculados para estimar as defesas que terão pela frente.

Região de Latáquia, oeste da Síria

Intrigante, é que suas patrulhas de vigilância voltam ao nascer do dia e reportam o som de aviões durante a noite voando na direção do espaço aéreo sírio, vindos da Turquia e depois para o leste, penetrando fundo na Síria.

A coisa começou há 20 dias. Não sabem se as aeronaves – aviões ou drones – são norte-americanos e não se ouvem tiros, nem de dia nem de noite. Mas os oficiais deles falam das novas armas antiblindados TOW que apareceram em mãos de rebeldes.

Um oficial mostrou-me um vídeo filmado de um website islamista, de rebeldes disparando um foguete orientado por calor no próprio acampamento, pouco ao norte de onde estamos, em Qastel Ma’af. Mas vê-se o míssil explodindo, de fato desintegrado, contra o revestimento de concreto em torno de um tanque.

Mas quando um soldado trouxe um saco cheio de fragmentos de míssil para uma sala nessa fortaleza síria de alto de montanha, viram-se fascinantes provas do que realmente é o armamento dos rebeldes. Muitos mísseis fragmentam-se em milhares de pedaços na detonação, mas há apenas pouco mais de um mês, dia 26/9/2014, um míssil guiado explodiu enterrado fundo na areia; e os fragmentos desse míssil ainda trazem, bem nítido, o nome do fabricante norte-americano de armas, painéis de circuito e o código da arma.

Parte do míssil identifica como fabricante a empresa “Eagle-Piche IND (Indiana) INC.”, e diz, em inglês, que a arma é “carregada com hélio”, acrescentando – muito irônico – que:

ATENÇÃO – CONTÉM 6400 PSIG He (altamente explosivo). A LEI FEDERAL PROÍBE O TRANSPORTE SE RECARREGADO. MULTA DE ATÉ US$ 25,000 E CINCO ANOS DE PRISÃO (49 USC 1809).


Os sírios não sabem como essa arma – que parece ter sido fabricada em 1989 – viajou, a partir dos EUA, até as mãos de islamistas rebeldes ali, na Síria. Mas os norte-americanos com certeza têm como descobrir. O código completo de computador que ali se lê é o seguinte:

DOT-E7694 NRC6400/11109/M1033 79294 ASSY 39317 MFR 54080.

Um tubo de bateria de outro míssil disparado dia 4/10/2014, mostra uma inscrição gravada no metal:

132964 Battery thermal
MFG DATE 12/90 LOT n. (algarismo ilegível, depois) 912 S/N 005959.

Com esses códigos, os EUA poderão facilmente descobrir o comprador – ou receptador – da arma, se quiserem descobrir alguma coisa.

Como os islamistas receberam essas armas norte-americanas? Compraram, no mercado internacional de armas? Ou receberam dos rebeldes ‘'moderados'’, que ganharam as armas dos norte-americanos e depois revenderam pela melhor oferta.

A prova de o quanto são perigosas essas bases do alto das montanhas – e estão distribuídas pelo interior do país, que parece mais com colinas e vales da Bósnia, do que com a paisagem desértica e rural conhecida do interior da Síria – apareceu quando um general recebeu aviso por rádio de que um suicida-bomba se encaminhava na direção de suas posições.

O general imediatamente ordenou que todos os postos sírios de segurança abrissem fogo contra qualquer suspeito que forçasse a aproximação na direção de suas posições. Teve bons motivos, porque há apenas sete meses, vários de seus companheiros mais próximos foram aniquilados num atentado de rebelde suicida-bomba na “Posição 45”, de uma colina próxima, ao norte de Qastal Ma’af.

Por acaso, eu visitara aquela mesma posição há exatamente um ano, e fui apresentado àqueles soldados pelo comandante, general Mohamed Marrouf. 


O blindado que se aproximou, saído da neblina, porém, não era o que o general chamara. Dirigido por um suicida-bomba, o veículo avançou até o centro da edificação, carregado com 15 toneladas de explosivos, e detonou-o, produzindo uma explosão cujo estrondo foi ouvido até o Mediterrâneo, e matou quase todos os soldados, inclusive o general Maarouf e abriu uma cratera de 10m de largura e 5m de profundidade.

Horas depois, um vídeo dos islamistas mostrava al-Chichani rindo com outros colegas rebeldes, vangloriando-se de sua vitória. Um oficial me disse: “Quase todos os soldados que você conheceu em novembro passado foram martirizados”.

Vários oficiais sírios creem que os chechenos são mandados para o combate porque aquela região é muito parecida com a terra natal deles. Todas as comunicações vêm sempre cheias de vozes turcomenas, muitos deles são turcomenos sírios, outros falam com sotaque turco, quase sempre pedindo reforços ou requisitando mais mísseis ou munição.

Os sírios sabem que os inimigos também ouvem o rádio sírio, embora os sírios tenham equipamento de comunicação mais sofisticado. Agora, desconfiam que os islamistas já conseguem ouvir conversas feitas por linha terrestre.

Suicida-bomba do ISIS/ISIL explode no centro de Kobane
Ano passado (2013), mais combatentes da Frente al-Nusra e de Jund el-Islam apareceram em linhas de ataque contra linhas de frente sírias – embora “linha de frente” talvez não explique bem do que se trata. Em áreas cobertas de florestas e árvores, a área “controlada” por soldados sírios ou pelos rebeldes é apenas nocional. Como disse um oficial sírio há alguns meses, de um outro campo de batalha, “o soldado sírio controla o chão onde põe os pés” – expressão bem conhecida, que provavelmente se aplica a muitas das guerras do mundo.

De fato, os postos dos rebeldes estão a talvez uns 2,5 km de Ash-Shaqraa, mas os dois lados, às vezes, descobrem-se a apenas 200 m de distância um do outro. Os turcomenos são usados nas batalhas, por causa do conhecimento que têm da região, mas os soldados aqui observaram que os “rótulos e marcas” dos vários grupos islamistas mudam sempre. Se oISIS está ali, como estrutura organizada, dizem eles, é grupo ainda muito pequeno. Mas já perceberam que os rebeldes agora usam mísseis que penetram em blindados, pela primeira vez; e que pela primeira vez têm mísseis com alcance de 5 km. Dentre os sotaques árabes que se ouvem pelo rádio, há vozes do Egito, Líbia, da região do Golfo Pérsico, Tunísia e Marrocos.

Pequenas facções islamistas parecem engolir as menores, “como baleias” – disse-me um soldado, nessa expressão inesquecível. – E acrescentou: “é questão de tempo, e uma grande facção terá engolido todas as menores”. Não usou a palavra árabe “Daesh” – para ISIS – mas deve ser, sim, o que acontecerá. Algumas unidades pertencem à “Liwa al-Adiyat” [aprox. “brigada dos grandes castigos” (orig. “Brigade of Great Ordeals”)], mas onde essas unidades entram em combate, logo chegam outras facções para dar-lhes apoio.

Soldados turcos na fronteira com a Síria
Os soldados sírios também observaram grande número de soldados e blindados turcos reunindo-se junto à fronteira ao norte, e a construção de novas fortalezas de concreto, para tropas turcas, no cume da montanha Al Aqra. Dizer que a situação aqui é “tensa” seria ceder a um velho clichê.  Basta dizer que, depois de me oferecer binóculos para olhar as florestas, um oficial disse-me que voltasse para trás de uma pilha de sacos de areia, para não atrair na nossa direção o fogo de atiradores isolados.

Um dos mais próximos companheiros do general Marrouf esteve em Ash-Shaqraa no domingo, e recordou a última conversa que tive com seu ex-comandante. “Ele disse ao senhor, Mr. Robert, que viveria até a vitória ou seria martirizado. Bem... Cumpriu a promessa!”.
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.


FONTE: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/11/robert-fisk-como-os-islamistas-do.html

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Um novo marco no terrorismo americano: um artigo de Noam Chomsky

Publicado no site truth. Chomsky, natural dos Estados Unidos, é um dos maiores ensaįstas contemporâneos.
Obama
Obama

por Noam Chomsky
“É oficial: os Estados Unidos são o maior Estado terrorista do mundo e se orgulham disso.”
Essa deveria ser o título da história principal do “The New York Times” de 15 de outubro, que foi intitulada mais polidamente de “Estudo da CIA sobre Ajuda Secreta Alimenta Ceticismo a Respeito de Ajuda aos Rebeldes Sírios”.
O artigo tratava de uma análise da CIA das recentes operações secretas dos Estados Unidos para determinar sua eficácia. A Casa Branca concluiu que, infelizmente, os sucessos eram tão raros que um repensar da política era necessário.
O presidente Barack Obama foi citado no artigo como tendo dito que pediu à CIA que realizasse a análise, para descobrir casos de “financiamento e fornecimento de armas a uma insurreição em um país que tenham funcionado. E ela não conseguiu encontrar nenhum”. Assim, Obama exibiu relutância em prosseguir com esses esforços.
O primeiro parágrafo do artigo do “Times” cita três exemplos de “ajuda secreta”: Angola, Nicarágua e Cuba. Na verdade, cada caso foi uma grande operação terrorista conduzida pelos Estados Unidos.
Angola foi invadida pela África do Sul, que, segundo Washington, estava se defendendo de um dos “grupos terroristas mais notórios” do mundo –o Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela. Isso foi em 1988.
Na época, o governo Reagan estava virtualmente sozinho em seu apoio ao regime do apartheid, até mesmo violando as sanções do Congresso ao aumentar o comércio com seu aliado sul-africano.
Enquanto isso, Washington se juntava à África do Sul no fornecimento de apoio crucial ao exército terrorista Unita, de Jonas Savimbi, em Angola. Washington continuou fazendo isso mesmo depois de Savimbi ter sido esmagadoramente derrotado em uma eleição livre cuidadosamente monitorada e da África do Sul ter retirado seu apoio. Savimbi era um “monstro cuja sede por poder levou uma miséria terrível ao seu povo”, nas palavras de Marrack Goulding, o embaixador britânico em Angola.
As consequências foram horrendas. Uma investigação da ONU em 1989 estimou que os ataques sul-africanos levaram a 1,5 milhão de mortes nos países vizinhos, sem contar o que estava acontecendo dentro da própria África do Sul. Forças cubanas finalmente derrotaram os agressores sul-africanos e os levaram a se retirar da Namíbia ilegalmente ocupada. Os Estados Unidos continuaram apoiando sozinhos o monstro Savimbi.
Em Cuba, após o fracasso da invasão na Baía dos Porcos em 1961, o presidente John F. Kennedy lançou uma campanha assassina e destrutiva para levar “os terrores da Terra” a Cuba –as palavras de um associado próximo de Kennedy, o historiador Arthur Schlesinger, em sua biografia semioficial de Robert Kennedy, que foi encarregado pela condução da guerra terrorista.
As atrocidades contra Cuba foram severas. Os planos eram para que o terrorismo culminasse em um levante em outubro de 1962, que levaria a uma invasão americana. Agora, estudos acadêmicos reconhecem que esse foi um dos motivos para o premiê russo Nikita Khruschov ter instalado mísseis em Cuba, iniciando uma crise que chegou perigosamente perto de uma guerra nuclear. O secretário de Defesa americano, Robert McNamara, reconheceu posteriormente que se ele fosse um líder cubano, ele “esperaria uma invasão americana”.
Os ataques terroristas americanos contra Cuba continuaram por mais de 30 anos. O custo para os cubanos foi severo, é claro. Os relatos das vítimas, pouco ouvidos nos Estados Unidos, foram relatados em detalhes pela primeira vez em um estudo de autoria do acadêmico canadense Keith Bolender, “Voices From the Other Side: an Oral History of Terrorism Against Cuba”, em 2010.
Avanço do Estado Islâmico provoca nova onda de violência no Oriente Médio
O preço da longa guerra terrorista foi ampliado por um embargo esmagador, que continua até hoje, em desafio ao mundo. Em 28 de outubro, a ONU, pela 23ª vez, endossou a “necessidade de encerrar o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos contra Cuba”. A votação foi de 188 a 2 (Estados Unidos e Israel), com abstenção de três dependências dos Estados Unidos no Pacífico.
Atualmente há alguma oposição ao embargo nos altos escalões nos Estados Unidos, como relata a “ABC News”, porque “não é mais útil” (citando o novo livro de Hillary Clinton, “Hard Choices”). O acadêmico francês Salim Lamrani analisa os custos amargos para os cubanos em seu livro de 2013, “The Economic War Against Cuba”.
A Nicarágua nem precisaria ser mencionada. A guerra terrorista do presidente Ronald Reagan foi condenada pelo Tribunal Internacional de Justiça, que ordenou aos Estados Unidos que encerrassem seu “uso ilegal de força” e que pagasse indenizações substanciais.
Washington respondeu com uma escalada da guerra e vetando uma resolução do Conselho de Segurança da ONU de 1986 exigindo que todos os Estados –isto é, os Estados Unidos– cumprissem a lei internacional.
Outro exemplo de terrorismo será comemorado em 16 de novembro, o 25º aniversário do assassinato de seus padres jesuítas em San Salvador, por uma unidade terrorista do exército salvadorenho, armado e treinado pelos Estados Unidos. Por ordem do alto comando militar, os soldados invadiram a universidade jesuíta para assassinar os padres e quaisquer testemunhas –incluindo a empregada deles e a filha dela.
Esse evento culminou as guerras terroristas americanas na América Central nos anos 80, apesar dos efeitos ainda estarem nas primeiras páginas dos jornais de hoje, nas reportagens sobre os “imigrantes ilegais”, fugindo em parte pelas consequências daquela carnificina, e sendo deportados dos Estados Unidos para sobreviverem, se puderem, nas ruínas de seus países de origem.
Washington também desponta como campeão mundial da geração de terror. O ex-analista da CIA, Paul Pillar, alerta sobre o “impacto gerador de ressentimento dos ataques americanos” na Síria, que podem induzir ainda mais as organizações jihadistas Jabhat al-Nusra e o Estado Islâmico a “repararem sua ruptura no ano passado e fazerem campanha em conjunto contra a intervenção americana, ao retratá-la como uma guerra contra o Islã”.
Essa já é uma consequência familiar das operações americanas, que ajudaram a espalhar o jihadismo de um canto do Afeganistão para grande parte do mundo.
A manifestação atual mais temível do jihadismo é o Estado Islâmico (EI), que estabeleceu seu califado assassino em grandes áreas do Iraque e da Síria.
“Eu acho que os Estados Unidos são um dos principais criadores dessa organização”, relata o ex-analista da CIA, Graham Fuller, um proeminente comentarista sobre a região. “Os Estados Unidos não planejaram a formação do EI”, ele acrescenta, “mas suas intervenções destrutivas no Oriente Médio e a Guerra no Iraque foram as causas básicas do nascimento do EI”.
A isso nós podemos acrescentar a maior campanha terrorista do mundo: o projeto global de Obama de assassinato de “terroristas”. O “impacto gerador de ressentimento” desses ataques com drones e forças especiais também já é bem conhecido, de modo que não exige comentário adicional.
Trata-se de um retrospecto para ser contemplado com certo espanto.

Assim se constrói o Estado Global de Vigilância

141106-CitizenFour

Diretora de “Citizenfour”, o documentário sobre denúncias de Edward Snowden, alerta:controle social e esvaziamento da democracia ampliaram-seapós revelações.Esperança é consciência
Tom Englehardt, do Tom Dispatch,  entrevista Laura Poitras | Tradução: Mariana Bercht Ruy
Temos aqui uma estatística da nova era de vigilância global. Quantos norte-americanospossuem a chamada security clearance, que permite acesso aos dados sigilosos, das agências de espionagem, sobre pessoas e organizações? Resposta: 5,1 milhões – número que reflete o crescimento explosivo do Estado de segurança nacional no pós-11 de setembro. É algo equivalente à população da Noruega. E ainda assim é apenas 1,6% da população norte-americana. intenção é deixar os 98,4% restantes às cegasnum número crescentes de assuntosE isso é apresentado como se fosse algo “em favor denossa própria segurança”.
Estes fatos oferecem uma nova definição de democracia, na qual as pessoas devem saber apenas aquilo que o sistema de segurança nacional conta a elas. Sob esse sistema, a ignorância é o pré-requisito necessário e legalmente imposto para que as pessoas sintam-se protegidas. É significativo: o único delito pelo qual aqueles que estão dentro do sistema de segurança nacional podem ser responsabilizados, na Washington pós-11 de setembro, não é mentir diante do Congresso, destruir evidências de um crime, torturar, sequestrar, assassinar ou provocar morte de prisioneiros em sistemas prisionais extralegais — mas denunciar irregularidades. Ou seja, contar à sociedade algo que seu governo esteja fazendo. E esse “crime”, apenas esse, tem sido perseguido com toda a força da lei e mais – com um vigor nunca visto na história do país. Para oferecer um único exemplo, o único norte-americano preso pelo programa de tortura da CIA da era Bush foi John Kiriakou – um denunciante da CIA que revelou, a um repórter, o nome de um agente envolvido no programa.
esses anos, uma Casa Branca cada vez mais imperial lançou várias guerras (redefinidas pelos seus defensores como outra coisa qualquer), além uma campanhainternacional de assassinatos [por meio de drones], na qual a Presidência tem a sua própria “lista negra” e o presidente decide sobre ataques globais do tipo que matou Bin Laden.
E ainda assim isso não significa que nós, o povo, não saibamos nada. Contra obstáculos crescentes, surgiram algumas boas reportagens na imprensa “mainstream” – feitas por James Risen e Barton Gellman – sobre as atividades extra-legais do estado de segurança. Acima de tudo, apesar do uso regular que o govern Obama faz da Lei de Espionagem, da época da I Guerra Mundial, denunciantes têm dado um passo adiante dentro do governo para, às vezes, oferecer informações surpreendentes sobre o sistema que foi implantado em nosso nome, mas sem nosso conhecimento.
Entre eles, destaca-se um jovem, cujo nome é agora conhecido em todo o mundo. Em junho de 2013, graças ao jornalista Glenn Greenwald e à produtora Laura Poitras, Edward Snowden, que trabalhou na NSA e anteriormente na CIA, entrou em nossas vidas a partir de um quarto de hotel em Hong Kong. Com um tesouro de documentos que ainda estão sendo publicados, ele mudou a perspectiva pela qual praticamente todos nós víamos o mundo. Está sendo acusado sob a Lei de Espionagem. Se de fato ele era um “espião”, a espionagem que fez foi por nós e pelo mundo. O que ele revelou, a um planeta chocado, foi um estado de vigilância global cujos alcance e ambições eram únicos. Um sistema baseado em uma única premissa: que a privacidade já não existe e que ninguém é, em teoria (e, em grande medida, na prática) invigiável.
Os criadores do sistema imaginaram uma única exceção: eles próprios. Foi, ao menos em parte, por isso que, quando Snowden nos permitiu espreitá-los, eles extravasaram ódio. Seja como for que tenham reagido, do ponto de vista político, é claro que também sentiram-se violados – algo que, até onde se sabe, deixou-os sem qualquer empatia diante do resto de nós. Snowden provou, de qualquer forma, que o sistema nasceu pronto para dar um tiro pela culatra.
Dezesseis meses depois que os documentos da NSA começaram a ser lançados pelo Guardian e pelo Washington Post, talvez seja possível falar numa Era Snowden. E agora, um novo filme notável, Citizenfour, que teve pré-estreia no Festival de Filmes de NovaYork em 10 de outubro, oferece uma janela para como tudo aconteceu. Já foi mencionado como possível vencedor do Oscar.
Laura Poitras, a diretora, é produtora de documentários, jornalista e artista. Tornou-se – assim como o repórter Glenn Greenwald – quase tão amplamente conhecida quanto o próprio Snowden. Seu novo filme, o último em uma trilogia (os anteriores são My Country, My Country sobre a Guerra do Iraque, e The Oath, sobre Guantanamo), remete-nos a junho de 2013 e nos leva ao quarto de hotel em Hong Kong em que Snowden começou a fazer suas revelações a Glenn Greenwald, Ewen MacAskill (do Guardian), e a própria Laura. Antes daquele momento, estávamos quase literalmente no escuro. Depois dele, temos mais noção, pelo menos, da natureza da escuridão que nos envolve. Tendo visto seu filme, dialoguei com Poitras em uma pequena sala de conferências de um hotel em Nova York para discutir como o mundo mudou e qual foi o papel dela nisso.
Você poderia começar expondo brevemente o que você acredita que aprendemos com Edward Snowden sobre como o mundo realmente funciona?
Laura Poitras: O mais impressionante que Snowden revelou é a profundidade do que a NSA e os chamados Cinco Olhos [Five Eyes, países anglo-saxões aliados: EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia] estão fazendo: sua fome por todos os dados, o enorme arrastão de vigilância onde tentam coletar o fluxo de todas as comunicações e fazê-lo de várias formas diferentes. Seu ethos é “coletar tudo”. Trabalhei em uma história com Jim Risen, do New York Times, sobre um documento – um plano de quatro anos para a interceptação de sinais. É um termo cunhado pelos autores. Para eles, a internet é isso: a base para uma era de ouro na qual se espia todo mundo.
Esse foco em vigilância do planeta maciça, dissimulada, e na forma de arrastão é certamente o mais impressionante. Muitos programas fizeram isso. Além disso, a NSA e a GCHQ [inteligência britânica] fazem coisas como atacar engenheiros de telecomunicações. Um artigo publicado pelo The Intercept, e baseado em documentos da NSA providos por Snowden, tinha um capítulo intitulado “Eu caço Syadmins” [administradores de sistema]. Eles tentaram encontrar os guardiões das informações, as pessoas que protegem os dados dos clientes, e atingi-los. Além disso, temos a coleta passiva de tudo: as informações que não conseguem de um jeito, obtêmde outro.
Eu acho que uma das coisas mais chocantes é como nossos governantes sabiam pouco sobre o que a NSA fazia. O Congresso está aprendendo a partir de reportagens, o que éimpressionante. Snowden e William Binney [ex-funcionário da NSA], que também está no filme como delator de uma outra geração, são técnicos que entendem os perigos. Nós, leigos, talvez entendamos alguma coisa dessas tecnologias, mas eles realmente compreendem o perigo existente na forma como elas podem ser usadas. Uma das coisas mais assustadoras, na minha opinião, é a capacidade de pesquisa retroativa, de voltar no tempo e descobrir os contatos que qualquer pessoa manteve e os locais que frequentou. No que diz respeito à minha profissão de jornalista, isso permite ao governo rastrear o que você está reportando, com quem fala e aonde vai. Não importa se eu tenho ou não o comprometimento de proteger minhas fontes: o governo tem acesso a informações que talvez lhe permitam identificar com quem estou falando.
Perguntando a mesma coisa de outra forma: como o mundo seria sem Edward Snowden? Porque me parece que, de alguma forma, nós estamos na Era Snowden
Laura Poitras: Snowden nos permitiu escolher sobre como queremos avançar para o futuro. Estamos em uma encruzilhada e ainda não sabemos qual caminho vamos tomar. Sem Snowden, praticamente todo mundo ainda estaria no escuro sobre a quantidade de informação que o governo norte-americano está coletando. Acho que ele mudou a consciência sobre os perigos da vigilância. Sabemos que muitos advogados deixam seus celulares fora das suas reuniões, agora. As pessoas estão começando a compreender que os aparelhos que carregamos conosco revelam nossa localização, com quem estamos falando, e todo tipo de informações. Houve uma mudança de consciência real, depois das revelações de Snowden.
Apesar disso, não houve nenhuma mudança na atitude do governo dos EUA
Laura Poitras: Os especialistas nos campos de vigilância, privacidade e tecnologia dizem que é necessário atuar dem dois campos: o político e o tecnológico. O caminho tecnológico é a criptografia. Funciona e, se você quer privacidade, deveria usar. Já há mudanças em grandes empresas – Google e Apple, por exemplo –, que agora entendem quão vulneráveis são os dados dos seus clientes. Também percebem que, desse modo, seus negócios também se tornam vulneráveis. Por isso, também, há uso crescente das tecnologias de criptografia. Porém, nenhum programa foi desmantelado em Washington, apesar da pressão internacional.
Em Citizenfouruma hora da ação se passa em um quarto de hotel em Hong Kong, com Snowden, Glenn Greenwald, Ewan MacAskill e você. Isso é fascinante. Snowden é quase preternaturalmente cativante e senhor de si. Imagino um romancista em cuja mente simplesmente entra o personagem dos sonhos. Deve ter sido assim com você e Snowden. Mas e se fosse um cara cinzento, com os mesmos documentos e coisas muito menos inteligentes para dizer sobre eles? Em outras palavras como exatamente a pessoa que ele era afetou o seu filme e reconstruiu seu mundo?
Laura Poitras: São duas questões importantes. Uma: qual foi a minha primeira sensação? Outra: como eu acho que isso teve impacto no filme? Editamos o filme e o exibimos para pequenos grupos. Não tive dúvida de que Snowden é articulado e verdadeiro, na tela. Mas vê-lo em uma sala cheia [na pré-estreia do Festival de Filmes de Nova York, em 10 de outubro], foi tipo, uau! Ele realmente domina a tela! E eu tive uma nova experiência sobre o filme, em uma sala cheia.
Mas qual foi sua primeira experiência com ele? Quero dizer, você não sabia quem ia conhecer, certo?
Laura Poitras: Eu mantive correspondência com uma fonte anônima por cerca de cinco meses antes. No processo de desenvolver um diálogo, você constrói ideias, é claro, sobre quem a pessoa talvez seja. Achava que ele seria uma pessoa com quarenta e tantos anos, ou pouco mais de cinquenta. Percebi que deveria ser da geração da internet por ser super ligado em tecnologia. Mas pensei que, dado o nível de acesso e informação que podia discutir, devera ser mais velho. Minha primeira experiência foi a necessidade de reprogramar minhas expectativas. Fantástico, sensacional, ele é jovem e carismático. Fiquei pensando: uau, isso muito tão desorientador, precisso fazer um reboot. Retrospectivamente, posse ver que é realmente forte que alguém tão inteligente, tão jovem e com tanto a perder tenha arriscado tanto.
Ele estava muito em paz com a escolha que tinha feito e sabia que as consequências podiam significar o fim da sua vida – ainda assim, havia tomado a decisão certa. Ele acreditava nisso e, quaisquer que fossem as consequências, estava pronto a aceitá-las. Conhecer alguém que tomou esse tipo de decisão é extraordinário. E poder documentar isso e também a forma como Glenn [Greenwald] interveio e se esforçou, de modo ativo, para que o relato se produzisse mudou a narrativa. Como Glenn e eu enxergamos tudo de uma perspectiva externa, a narrativa desenvolveu-se de forma a que ninguém sabia realmente como responder. Por, acho acho que a Casa Brana ficou, a princípio, transtornada. Não é todo dia que um denunciante está pronto para ser identificado.
Meu palpite é que Snowden nos deu o sentimento de que agora conhecemos a natureza do estado de vigilância global que nos observa. Mas sempre penso que ele é só um cara, vindo de um dos 17 órgãos de inteligência interligados. Seu filme termina de forma marcante – o golpe final – com outro ou outros informantes despontando em algum lugar do mundo, para revelar informações sobre a enorme lista de pessoas vigiadas, na qual você mesma está, fico curioso. O que você acredita que ainda existe para ser descoberto? Suspeito que se delatores estão para surgir, nas maiores cinco ou seis agências, com documentos similares aos de Snowden, vamos ficar aturdidos com o sistema que foi criado em nosso nome.
Laura Poitras: Não posso especular sobre aquilo que ainda não sabemos, mas acho que você tem razão sobre a escala e escopo das coisas, e a necessidade de essa informação tornar-se pública. Quero dizer, considere apenas a CIA e seu esforço para impedir o Senado dos EUA de conhecer seu programa de tortura. Considere o fato vivermos em um país que a) legalizou a tortura b) onde ninguém nunca foi responsabilizado por isso e agora a visão interna do governo sobre o que aconteceu está sendo suprimida pela CIA. É uma paisagem assustadora.
Laura Poitras: Realmente, rejeito a ideia de falar sobre um, dois ou três denunciantes. Nosso trabalho foi informado por muitas fontes e acho que temos, diante delas, dever de gratidão por terem assumido os riscos que assumiram. De uma perspectiva pessoal, porque estou numa lista de pessoas vigiadas. Passei anos tentando descobrir a razão. O governo recusou-se a confirmar ou negar a própria existência da tal lista. Foi muito significativo que sua existência real fosse revelada, para que o público saiba que ela existe. Agora, os tribunais podem decidir sobre a legalidade disso. Quero dizer, a pessoa que revelou isso fez um imenso serviço público e eu estou pessoalmente grata.
Você se refere ao delator desconhecido, que é mencionado visual e elipticamente ao final do seu filme, e que revelou a existência de uma imensa lista, com os nomes de mais de 1,2 milhão de pessoas vigiadas. Nesse contexto, como é viajar como Laura Poitras hoje? Como você encarna o novo estado de segurança nacional?
Laura Poitras: Em 2012, estava pronta para editar e escolhi deixar os EUA por que não sentia como se pudesse proteger minhas fontes. A decisão foi baseada em seis anos sendo parada e questionada todas as vezes que retornava aos EUA. Fiz as contas e percebi que seria muito arriscado editar nos EUA. Comecei a trabalhar em Berlim em 2012. Em janeiro de 2013, recebi o primeiro e-mail de Snowden.
Então você está protegendo…
Laura Poitras: Outra filmagem. Filmei com o denunciante da NSA William Binney, com Julian Assange, com Jacob Appelbaum do Tor Project. São pessoas também visadas pelos EUA, e senti que esse material que eu tinha não estava seguro. Fui incluída na lista em 2006. Fui detida e questionada na fronteira, ao regressar aos EUA, cerca de 40 vezes. Se contasse as paradas domésticas, e todas as vezes em que fui parada em pontos de trânsito europeus, provavelmente chegaria a algo entre 80 e 100 vezes. Tornou-se uma coisa regular, ser questionada sobre onde estive e com quem me encontrei. Me vi capturada em um sistema do qual aparentemente não se pode sair, nessa lista kafkiana que os EUA nem sequer reconhecem.
Você foi parada quanto entrou nos EUA, dessa vez?
Laura Poitras: Não. As detenções pararam em 2012, depois de um incidente bastante extraordinário. Eu estava voltando pelo Aeroporto de Newark [nas proximidades de Nova York] e fui detida. Peguei meu caderno, porque sempre tomo notas sobre quando sou parada, quem são os agentes e coisas assim. Dessa vez, ameaçaram me algemar por tomar notas. Disseram “Abaixe a caneta!” Alegaram que a minha caneta podia ser uma arma e ferir alguém.
“Abaixe a caneta! A caneta é perigosa!” Eu fiquei imaginando que fossem malucos. Várias pessoas gritavam comigo, todas as vezes que eu movia minha caneta para baixo, para tomar notas – como se el afosse uma faca. Depois disso, decidi que era maluquice demais, eu precisava fazer alguma coisa. Chamei Glenn Greenwald. Ele escreveu um texto sobre as minhas experiências. Depois do artigo, recuaram.
Snowden nos contou muito sobre a estrutura de vigilância global que está sendo construída. Nós sabemos muito pouco sobre o que estão fazendo com toda essa informação. Me choca como foram inábeis em usar essa informação em sua gerra ao terror, por exemplo. Quero dizer, eles sempre parecem estar um passo atrás no Oriente Médio – não apenas atrás dos acontecimentos, mas atrás do que acredito que uma pessoa, usando apenas informações abertas, poderia informar a eles. Acho isso surpreendente. Que sentido faz você fazer o que estão fazendo com a montanha de informações, os yottabytes, todos os dados que estão recolhendo?
Snowden e muitas outras pessoas, inclusive Bill Binney, disseram que essa mentalidade – de tentar sugar tudo o que podem – deixou-os tão afogados em informações que perdem as ligações mais óbvias. No final, o sistema que criaram não leva ao que descreveram como seu objetivo, que é segurança – porque têm infomação demais para processar.
Laura Poitras: Não sei realmente como compreender tudo isso. Penso muito a respeito, porque fiz um filme sobre a Guerra do Iraque e outro sobre Guantanamo. Da minha perspectiva, em resposta aos ataques de 11 de setembro, os EUA envolveram-se em atividades que criaram duas gerações de pessoas nutridas por sentimentos anti-americano – em resposta a coisas como Guantanamo e Abu Ghraib. Ao invés de responder a um grupo pequeno de terroristas, criamos gerações de pessoas irritadas e que nos odeiam. Então, penso: se o objetivo é segurança, como essas coisas se alinham? Por que há, agora, mais gente que odeia os Estados Unidos, mais gente que tenciona fazer-nos mal? Ou o objetivo que o sistema de segurança proclama não é o real, ou eles são simplesmente incapazes de dialogar com o fato de que comenteram grandes erros, pelos quais agora pagamos.
Me impressiona como a falha converteu-se, de alguma maneira, em rampa de lançamento para o sucesso. Quero dizer, a construção de um aparato de inteligência sem paralelos e a a maior coleta de informações da história veio da falha de 11 de setembro. Ninguém foi responsabilizado, ninguém foi punido, ninguém foi rebaixado nem nada. Todas as falhas semelhantes, incluindo uma recente, no gramado da Casa Branca, simplesmente levam ao reforço do sistema.
Laura Poitras: Como você entende isso?
Não acho que essas pessoas estejam pensando: precisamos falhar, para termos sucesso. Não sou conspiratório nesse sentido, mas eu acho que, estranhamente, a falha construiu o sistema e acho isso estranho. Mais que isso, não sei.
Laura Poitras: Não discordo. O fato de que a CIA sabia que dois dos sequestradores do 11 de setembro estavam entrando nos Estados Unidos, mas não notificou o FBI e ninguém perdeu seu emprego por isso, é chocante. Ao invés disso, ocupamos o Iraque, que não tinha nada a ver com o 11 de setembro. Quero dizer, como essas escolhas são feitas?

Agora, é guerra total contra os BRICS

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BRICS - Reunião de Fortaleza - 15/7/2014 


por Pepe EscobarRússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Apertem os cintos, a guerra de informação já desencadeada contra a Rússia deve expandir-se para Brasil, Índia e China.

Brasil, Rússia, Índia e China, como o mundo inteiro sabe, são os quatro principais países do grupo BRICS de potências emergentes, que também inclui a África do Sul e em futuro próximo incorporará também outras nações do Sul Global. Os BRICS perturbam imensamente Washington – e sua Think-Tank-elândia – porque são a corporificação do impulso concertado do Sul Global rumo a um mundo multipolar.

Podem-se apostar garrafas de champanhe crimeano que a resposta dos EUA a esse processo deve ser alguma espécie de guerra total de informação – não muito diferente, em espírito, do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)], elemento central da Doutrina da Dominação de Pleno Espectro, do Pentágono. Os BRICS são vistos como importante ameaça –, e conseguir contratorpedeá-los implica dominar toda a grade informacional.

Vladimir Davydov, diretor do Instituto de América Latina da Academia de Ciências da Rússia, acertou o olho do alvo quando observou que:

(...) a situação atual mostra que há tentativas para suprimir não só a Rússia, mas também os BRICS, dado que o papel global daquela associação só faz crescer.

A demonização da Rússia escalou rapidamente nos EUA, das sanções relacionadas à Ucrânia, para Putin o “novo Hitler” e a ressureição do bicho-papão bem testado ao longo da Guerra Fria, tipo “Os Russos estão chegando”.

Dilma Rousseff
No caso do Brasil a guerra de informação já começou antes da reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Assim como Wall Street e suas elites comprador locais faziam de tudo para bombardear o que definem como economia “estatista”, Dilma foi também pessoalmente demonizada.

Passos não inimagináveis para futuro próximo talvez incluam sanções contra a China, por causa de sua posição “agressiva” no Mar do Sul da China, ou Hong Kong, ou Tibet; sanções contra a Índia por causa do Kashmir; sanções contra o Brasil por causa de violações de direitos humanos ou excesso de desflorestamento. Seletos diplomatas indianos, lamentam, off the record, que o primeiro dos BRICS a ser afivelado sob pressão será a Índia.

Dado que os BRICS são tijolos realmente chaves na construção de um sistema global de relações internacionais e um sistema financeiro mais inclusivo – e não há outros no mercado – eles que, pelo menos, mantenham-se bem alertas. Se não, cada um deles será abatido, um depois do outro.

Georgy Toloraya, diretor executivo da Comissão Nacional Russa de Pesquisa sobre os BRICS, lembra que hoje, pelo menos, há “mais e mais comunicação acontecendo pelos canais BRICS.”

Os brasileiros, por exemplo, estão particularmente interessados em cooperação de investimentos. O Banco de Desenvolvimento dos BRICS será realidade já em 2015. E uma equipe russa está preparando relatório detalhado sobre perspectivas futuras para cooperação entre os BRICS, para ser discutido em Pequim, em profundidade, durante uma semana, enquanto acontece a reunião de cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico [orig., Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC].

Da guerra de energia à guerra da moeda

O novo choque do petróleo dos sauditas – que, no mínimo, recebeu luz verde do governo Obama – combina perfeitamente com o padrão “Conhecimento Total de Informação” (TIA), em termos de ofensiva contra os BRICS, com dois deles no papel de alvos chaves: Rússia e Brasil.

O preço do petróleo é a questão
Mais de 50% do orçamento da Rússia vem da venda de petróleo e gás. Cada redução de US$ 10 no preço do barril de petróleo significa que a Rússia deixa de receber coisa como US$ 14,6 bilhões por ano. Pode ser, de certo modo, compensado pela desvalorização do rublo – mais de 25% contra o dólar norte-americano, desde o início de 2014. E a Rússia, claro, ainda tem cerca de US$ 450 bilhões em reservas. Mesmo assim, a economia russa pode crescer só de0,5 a 2% em 2015.

Com a redução de US$ 1 nos preços do petróleo cru, a maior empresa brasileira, Petrobras, perde mais de US$ 900 milhões. Aos preços atuais do petróleo, a Petrobras estará perdendo em torno de US$ 14 bilhões por ano. A queda dos preços portanto mina a expansão de longo prazo da Petrobrás para financiar novos projetos de infraestrutura e de exploração conectados aos seus valiosos depósitos de petróleo do pré-sal. A Petrobras foi alvo preferencial para a demonização de Rousseff.

O Irã não é membro dos BRICS, mas partilha o impulso do grupo com vistas a um mundo multipolar. Para equilibrar o próprio orçamento, o Irã precisa de petróleo a US$ 136 o barril. Um acordo nuclear a ser firmado com o P5+1 em três semanas, dia 24/11/2014, pode levar a um alívio nas sanções – pelo menos as vindas da Europa – e permitir que o Irã melhore suas exportações de petróleo. Mas em Teerã não há ilusões sobre o quanto a manipulação dos preços foi cerebrada para desestabilizar ainda mais a economia iraniana e minar sua posição nas negociações nucleares.

 Acordo nuclear Irã e P5+1
No front econômico, a doutrina do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)] manifesta-se em o Fed pôr fim ao quantitative easing,  QE [injeção de dólares recém impressos na economia, lit. “facilitação quantitativa” ou “alívio quantitativo”]: significa que o dólar dos EUA continuará a subir e mais dólares dos EUA deixarão os mercados emergentes. A rede chinesa Xinhua expôs e discutiu seriamente essa questão.

O dólar norte-americano e o Yuan estão efetivamente ligados. Quando o dólar norte-americano sobe, o Yuan também sobe. Mas é a economia chinesa que sofre. O que preocupa Pequim é que é possível que a manufatura chinesa torne-se excessivamente cara, em muitíssimos países nos quais as margens de lucro já são muito estreitas.

Portanto, o que com certeza acontecerá é o Banco Central da China determinar uma queda controlada do Yuan – e ao mesmo tempo desenvolver mecanismos para combater a saída de dinheiro quente, sobretudo para Hong Kong.

A China pode até ser relativamente imune ao fim do QE. Mas todos na Ásia lembram ainda muito bem da crise financeira de 1997, que respingou na Rússia em 1998. Os únicos beneficiados então foram – e quem seria?! – os interesses privados norte-americanos e a hegemonia de Washington.

O centro não se mantém coeso [orig. The center cannot hold]

A demonização dos BRICS, em graus diferentes, prossegue sem parar – com o foco central na Rússia, a qual, por falar dela, iniciará a IIIª Guerra Mundial. Por quê? Porque os EUA dizem que sim.

A adesão de outros países do Sul-Global fortalece os BRICS
A mais recente ação envolve o Serviço de Inteligência da Defesa Dinamarquesa [orig. Danish Defense Intelligence Service (DDIS)], que noticiou, semana passada que a Rússia simulara um ataque com jatos e mísseis sobre a ilha de Bornholm em junho/2014.

DDIS não distribuiu qualquer detalhe concreto sobre o ataque simulado. Mas enfatizou que foi o maior exercício militar russo sobre o Mar Báltico desce 1991. DDIS distribuiu um documento “Avaliação de Risco 2014” [orig. Risk Assessment 2014], no qual prevê que:

(...) ao longo dos próximos poucos anos, a situação no leste da Ucrânia tem alta probabilidade de converter-se em novo conflito europeu frio.

Mas os dinamarqueses foram muito claros:

Não há indicações de que a Rússia constitua crescente ameaça militar direta ao território dinamarquês.

Immanuel Wallerstein
Nada disso impediu que os chefes militares norte-americanos de sempre se pusessem a repetir que a Rússia se prepara para iniciar a IIIª Guerra Mundial.

Não há absolutamente nenhuma prova de que Washington esteja preparada sequer para discutir a possibilidade de modificar o atual sistema-mundo, como teorizado por Immanuel Wallerstein, na busca por gestão mais democrática. A próxima reunião do G20 na Austrália, mais uma vez, deixará isso bem claro.

O que se vê, portanto, é o sistema, cada dia mais fragmentado, deslizando inexoravelmente rumo a um catastrófico ponto de ruptura.  O “Conhecimento Total de Informação” [orig.Total Information Awareness (TIA)] e suas reviravoltas e circunvoluções não passam de “estratégia” desesperada para adiar uma decadência inevitável.

No fim, Wallerstein estava certo. O mundo do pós-Guerra Fria está condenado a permanecer imensamente volátil.

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.


FONTE: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/11/pepe-escobar-agora-e-guerra-total.html

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