"Os jornais são aparelhos ideológicos cuja função é transformar uma verdade de classe num senso comum, assimilado pelas demais classes como verdade coletiva - isto é, exerce o papel cultural de propagador de ideologia. Ela embute uma ética, mas a ética não é inocente. Ela é uma ética de classe." [Antonio Gramsci]

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

André Biancareli : O “modelo” brasileiro de crescimento e distribuição esgotou-se?



O rumo que aqui se defende não ignora as dificuldades presentes e futuras para a retomada do crescimento nem minimiza os problemas que se avolumaram no período recente e requerem solução, mas entende que é possível buscar um caminho que aprofunde o caráter social que marcou o desenvolvimento brasileiro dos últimos anos

por André Biancareli


O governo Lula, na economia, iniciou-se com uma política monetária muito restritiva, grandes superávits fiscais, apreciação da taxa de câmbio e uma agenda de reformas estruturais em linha com as diretrizes do governo anterior. A urgência da situação recebida foi importante para essa opção, o que não diminui seu caráter conservador nem seus efeitos negativos. O “ajuste” assim conseguido, aliado à melhoria da situação externa, encaminhou a retomada que se seguiu.

O crescimento do PIB em 2004 (5,7%, depois de apenas 1,1% no ano anterior) iniciou uma sequência de cinco anos positivos. Nesse período, o dinamismo da economia teve a maior média em mais de duas décadas, atingindo 4,8%. Considerando-se todo o governo Lula, já incluídos o ano de crise de 2009 (queda de 0,3% do PIB) e a recuperação em 2010 (7,5%), essa média fica em torno de 4,1%.

Nesses anos, é possível falar em um “modelo”, ou arranjo, virtuoso. Se a demanda externa ajuda na recuperação, é a doméstica (principalmente o consumo, mas também o investimento induzido) que puxa o crescimento de 2004 em diante. Não há como desvincular esses traços da aceleração na distribuição de renda.

O índice de Gini, em suave redução ao longo dos anos 1990, ampliou seu ritmo de queda: de 0,589 em 2002, chega a 0,543 em 2009. Mais do que isso, a parcela de famílias pobres caiu de 34% em 2002 para 21% em 2009. Ainda de acordo com dados oficiais, o crescimento da renda dos 10% mais pobres entre 2001 e 2009 foi significativamente maior do que o dos mais ricos: 7,2% ao ano contra 1,4%. Em termos de capacidade de consumo, ascenderam 25 milhões de pessoas da classe D para a C – que no final do governo Lula representava 50% da população, ou cerca de 100 milhões de brasileiros.

Essas transformações não foram resultados espontâneos, tendo respondido a diferentes determinantes. O conservadorismo inicial foi sendo gradualmente substituído por uma concepção diferente sobre o papel do Estado, o tamanho e a importância dos bancos públicos e outras empresas estatais, por mecanismos de planejamento, revalorização do investimento público etc.

Para além desse retorno modificado do “desenvolvimentismo” e do cenário externo favorável, quatro foram os motivadores específicos da “criação” de um mercado de consumo de massas no Brasil, nem todos devidamente reconhecidos no debate público: políticas de transferência de renda (com o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada à frente); o sistema de proteção social (apesar de seus problemas, a herança da Constituição de 1988 é fundamental nessa história); a política de valorização do salário mínimo (mais de 50% de aumento real até 2010); e o bom comportamento do mercado de trabalho (notadamente a criação de novos empregos e a redução da informalidade). Interagindo com esses processos, mas também respondendo a outros fatores, a expansão do crédito desempenhou ainda papel importante.

Em poucas palavras, ao contrário de outros períodos na história, a economia brasileira crescia e distribuía renda. E crescia porque distribuía. Os problemas que já se gestavam nesse “modelo” pareciam menos importantes que essa lição principal, reforçada pela exitosa reação anticíclica aos efeitos da crise internacional.



II

Após o forte crescimento no ano eleitoral de 2010, alguma desaceleração era esperada. Os primeiros movimentos do governo Dilma foram nessa direção: cortes de gastos – que sempre afetam o investimento público mais do que os gastos correntes –, aumento das taxas de juros e “medidas macroprudenciais” para controlar o crédito. Hoje é possível dizer que não apenas o leque de instrumentos e a dose foram exagerados, mas que também houve uma leitura errada do contexto externo (com a crise desdobrando-se em novas pressões deflacionárias) e prudência excessiva com a inflação (que não se movia principalmente por excesso de demanda).

Algumas outras causas específicas – casos de corrupção paralisando projetos, dificuldades burocráticas etc. – podem ser consideradas, mas o fato é que a desaceleração foi fortemente influenciada pela mudança de direção na política econômica, especialmente na frente fiscal. Os efeitos contracionistas foram acentuados e perduraram: o PIB cresceu 2,7% em 2011 e, nos anos seguintes, não se conseguiu retomar o ritmo: apenas 1% em 2012; 2,5% em 2013; e não mais do que 1% projetado para 2014. Discute-se atualmente se o país caminha para a recessão, em meio a uma convenção pessimista e à contaminação nítida da conjuntura pelo calendário eleitoral.

Nem a mudança no mix macroeconômico em 2012 (com redução da taxa de juros até o piso histórico de 7,25% e um maior controle sobre a taxa de câmbio) nem os esforços de incentivo à indústria (por meio de isenções descoordenadas para setores específicos) foram capazes de reanimar a produção industrial e o conjunto da economia, que sofre outros males além do baixo dinamismo: deterioração nas contas externas, inflação rondando o teto da meta, piora nas contas fiscais em grande parte explicada pela queda na receita. A estrutura produtiva aprofunda os sinais de regressão e os problemas de infraestrutura logística têm sido enfrentados de forma lenta (que se pretende acelerar com o pacote de concessões para o setor privado).

Teria, enfim, chegado a um limite no governo Dilma a combinação virtuosa entre avanços econômicos e melhoras sociais?

Em relação às segundas, não há esgotamento. Com o aprimoramento da estratégia focalizada de combate à pobreza extrema e a continuidade dos aumentos do salário mínimo, a distribuição de renda pessoal continuou melhorando: o Gini atingiu 0,530 e a pobreza caiu para apenas 16% em 2012. Igualmente, o mercado de trabalho vem mostrando resiliência surpreendente (para a qual contribuem a política de crédito estudantil e a expansão do ensino, que retardam o ingresso no mercado de trabalho). A informalidade segue em queda e o desemprego registra mínimas históricas.

No entanto, é inegável que os efeitos positivos desses bons indicadores sobre o resto da economia são decrescentes e que a insatisfação social é uma realidade, a despeito dos avanços obtidos. Isso tudo ajuda a disseminar a ideia, justificada por diferentes caminhos, de que o modelo teria se esgotado – e precisaria ser substituído.



III

O primeiro dos argumentos sobre o “esgotamento” recorre a determinações macroeconômicas muito duvidosas. O modelo seria “insustentável” porque se baseia no consumo, que deveria ser reduzido (elevando-se a poupança) para ampliar o investimento, como se as categorias de gasto fossem concorrentes e como se cortar o dinamismo da demanda fosse incentivo para ampliar a capacidade produtiva. O segundo é sua contrapartida pelo lado da oferta e fundamenta-se na baixa produtividade da economia. Essa variável (de difícil mensuração, pró-cíclica e muito mais resultado do que causa de qualquer coisa), é tomada como indicador dos excessos do crescimento salarial verificado e explicação para a dificuldade de avanço nos investimentos.

Concordando parcial ou totalmente com esses diagnósticos, algumas propostas de mudança de rumos no desenvolvimento brasileiro mostram-se cada vez mais presentes no debate público.

De um lado, assiste-se a uma nova versão da agenda liberal sendo propagada por setores intelectuais e financeiros com grande exposição midiáticae unidade política. As principais propostas são uma nova rodada de abertura comercial (unilateral), a redução do tamanho e a reversão nos papéis assumidos pelo Estado, uma gestão macroeconômica bem mais rígida (especialmente na área fiscal), a redução dos custos do trabalho e uma ênfase genérica em educação e qualificação profissional. Como seria de esperar, nenhum papel está reservado à dimensão social na estratégia econômica, mas o caráter universal do sistema de proteção brasileiro é claramente criticado, e políticas mais focadas são recomendadas.

Tal visão parece basear-se em uma concepção primária de vantagens competitivas, às vezes defendendo a reespecialização produtiva, sem qualquer atenção às consequências em termos de emprego, salários, sustentabilidade das contas externas etc. Mais importante, sem os ganhos distributivos como os causados pela redução da inflação em 1994 (quando ideias similares se tornaram hegemônicas no Brasil), uma mudança de estratégia nessa direção provavelmente significaria uma reversão no caráter social do desenvolvimento insinuado na última década.

De outro lado, ganhou espaço no debate público e no interior do governo uma visão heterodoxa sobre questões macroeconômicas que se apresenta como uma estratégia de desenvolvimento.Criticando o crescimento com poupança externa e a apreciação da taxa de câmbio, e especialmente preocupados com o processo de “desindustrialização”, a receita aqui é concentrada em medidas de política macro. Uma importante desvalorização da moeda nacional (com vistas a emular a estratégia asiática de crescimento export-led), cortes nas taxas de juros e políticas de ajuste fiscal (corte de gastos) são as principais propostas.

Apesar de antiliberal e focado nos graves problemas da estrutura produtiva, esse conjunto de ideias também se mostra “neutro” a respeito do progresso social como motor econômico. Além disso, a ambição de um crescimento liderado pelas exportações no Brasil parece ignorar todas as outras vantagens dos países industrializados da Ásia (liderança tecnológica, decisões estratégicas das empresas multinacionais a respeito de sua localização, barreiras à entrada etc.) e também pode ser entendida como uma defesa de salários mais baixos como complemento ao câmbio desvalorizado, em busca da competitividade. Isso sem contar o ambiente internacional atual, pouco convidativo a novas potências exportadoras.

Assim, se o esgotamento da associação virtuosa entre crescimento e distribuição ainda é uma questão em aberto, o eventual predomínio de uma dessas duas visões resolveria a questão. A melhora nas condições de vida da população, nesse caso, voltaria a ser um subproduto complementar, quiçá desejável, do êxito econômico – que teria de ser buscado com medidas amargas. Não são poucas nem desimportantes as vozes que clamam, nos dias que correm, por uma submissão dos objetivos sociais à volta do crescimento baseado na eficiência ou na volta da “credibilidade” perdida.



IV

O rumo que aqui se defende não ignora as dificuldades presentes e futuras para a retomada do crescimento (que não decorrem apenas de fatores domésticos) nem minimiza os problemas que se avolumaram no período recente e requerem solução, mas entende que é possível buscar um caminho que aprofunde (em vez de negar) o caráter social que marcou o desenvolvimento brasileiro dos últimos anos.

Tal ênfase não tem como objetivo defender o que se conquistou nem considerar os progressos suficientes. Pelo contrário, a prioridade é justificada mais pelos desafios à frente do que pelos avanços obtidos. Há várias razões para isso.

A primeira delas refere-se ao alto nível de concentração de renda que ainda existe no Brasil. Embora importante, a redução do índice de Gini para cerca de 0,5 simplesmente coloca o país entre os dez ou vinte mais desiguais do mundo. A segunda razão é o fato de os resultados positivos concentrarem-se nessa dimensão, limitada, das diferenças sociais. Muito mais difícil de medir, a concentração de riqueza no Brasil é certamente pior do que a de renda, e há razões para imaginar que tenha piorado.

A terceira motivação é a natureza individual, muito associada ao poder de compra, que marca as melhoras. Elas deveriam ser preservadas, mas outro caminho foi pouco explorado: a infraestrutura social, os chamados bens de consumo coletivo ou público, como educação, saúde, transporte e as condições de vida urbana, como o saneamento. Em várias dessas dimensões, a mercantilização progressiva foi a tendência recente. Permitiu-se uma ampliação do acesso a vários desses serviços, descuidando-se, porém, dos aspectos de qualidade e conteúdo.

Ir além da ampliação do mercado de consumo de massas, avançando na dimensão dos direitos sociais (como, aliás, é previsto na Constituição de 1988), seria, portanto, a diretriz principal de uma nova fase do desenvolvimento brasileiro. Essa orientação pode ser justificada por seu conteúdo moral e civilizatório, mas também há um grande potencial propriamente econômico.

Maiores investimentos nessa direção teriam efeitos multiplicadores importantes em termos de emprego, renda e atividades econômicas locais. Além disso, a ampliação do alcance e da qualidade dos serviços públicos elevaria a renda disponível das famílias – efeito não alcançado com a concessão de subsídios às empresas prestadoras privadas, quase sempre com baixa qualidade.

Por fim, outra frente a ser explorada é a da estrutura tributária, complexa e concentrada em impostos indiretos (com baixa incidência sobre altos rendimentos e estoques de riqueza). As dificuldades envolvidas na tarefa de torná-la mais progressiva não reduzem sua importância para a construção de uma sociedade mais justa e com maior potencial de crescimento.



V

Em suma, as dificuldades atuais da economia brasileira e o clima de pessimismo que predomina em certos círculos fazem a resposta à pergunta título deste artigo parecer óbvia. Como toda afirmação peremptória, a tese do “esgotamento” mais esconde do que revela – no caso, a oposição a uma tentativa de desenvolvimento que, ainda de maneira muito incipiente, tomou as diferenças históricas que marcam a sociedade brasileira como oportunidade para o crescimento econômico. Contra um suposto fatalismo, o que se precisa é de renovação e aprofundamento dessa associação entre objetivos sociais e econômicos, até porque a maior parte das desigualdades no Brasil ainda permanece intocada¹.


André Biancareli é professor assistente do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp-SP.

fonte: http://diplomatique.org.br/artigo.php?id=1697

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Marina Silva, George Soros... e mais um suspeito acidente de avião


Eduardo Campos e Marina Silva 

[*] por Wayne MadsenStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


As eleições presidenciais no Brasil marcadas para outubro estavam sendo dadas como resolvidas, com a reeleição da atual presidenta Dilma Rousseff. Isso, até a morte, num acidente de avião, de um candidato absolutamente sem brilho ou força eleitoral próprios, economista e ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Dia 13/8, noticiou-se que o avião que levava Campos – candidato de centro, pró-business, que ocupava o 3º lugar nas pesquisas, atrás até do candidato do partido mais conservador (PSDB), Aécio Neves, também economista e defensor da ‘'austeridade'’ – espatifara-se numa área residencial de Santos, no estado de São Paulo, Brasil. Campos era candidato do Partido Socialista Brasileiro, antigamente da esquerda, mas hoje já completamente convertido em partido pró-business.

Como aconteceu nos partidos trabalhistas da Grã-Bretanha, da Austrália e Nova Zelândia, nos liberais e novos partidos democráticos canadenses, e no Partido Democrata dos EUA, interesses corporativos e sionistas infiltraram-se também no Partido Socialista Brasileiro e o converteram num partido da “Terceira Via”, pró-business e só muito fraudulentamente ainda denominado partido “socialista”.

Já é bem visível que os EUA tentam desestabilizar o Brasil, desde que a Agência de Segurança Nacional dos EUA espionou correspondência eletrônica e conversações telefônicas da presidenta Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT) e vários de seus ministros, o que levou ao cancelamento de uma visita de estado que Rousseff faria a Washington; e com o Brasil hospedando o presidente russo Vladimir Putin e outros líderes do bloco econômico dos BRICS em recente encontro de cúpula em Fortaleza.

Dilma, Aécio e Campos (e Marina) em maio/2014 

O Departamento de Estado dos EUA e a CIA só fazem procurar pontos frágeis no tecido social do Brasil de Rousseff, para criar aqui as mesmas condições de instabilidade que fomentaram em outros países na América Latina (Venezuela, Equador, Argentina – na Argentina mediante bloqueio de créditos para o país, em operação arquitetada por Paul Singer, capitalista-abutre sionista) – e na Bolívia.

Mas Rousseff, que antagonizou Washington ao anunciar, com outros líderes BRICS em Fortaleza, o estabelecimento de um banco de desenvolvimento dos países BRICS, para concorrer contra o Banco Mundial (controlado por EUA e União Europeia) parecia imbatível nas eleições de reeleição. A atual presidenta era, sem dúvida, candidata ainda imbatível quando, dia 13 de agosto, Campos e quatro de seus conselheiros de campanha, além do piloto e copiloto, embarcaram no avião Cessna 560XL, que cairia em Santos, matando todos a bordo.

A queda do avião empurrou para a cabeça da chapa do PS a candidata que concorria como vice-presidente, Marina Silva. Em 2010, Silva recebeu inesperados 20% dos votos à presidência, como candidata de seu Partido Verde. Esse ano, em vez de concorrer sob a legenda de seu partido, Marina optou por agregar-se à chapa pró-business, mas ainda dita “socialista” de Campos. Hoje, Marina já está sendo apresentada – talvez com certo exagero muito precipitado! – como melhor aposta para derrotar Rousseff nas eleições presidenciais de outubro próximo.

Marina, que é pregadora cristã evangélica em país predominantemente cristão católico romano, também é conhecida por ser muito próxima da infraestrutura da “sociedade civil” global e dos grupos de “oposição controlada” financiados por George Soros, capitalista e operador de hedge fund globais. Conhecida por sua participação nos esforços para proteção da floresta amazônica brasileira, Marina tem sido muito elogiada por grupos do ambientalismo patrocinado pelo Instituto Open Society [Sociedade Aberta], de George Soros. A campanha de Marina, como já se vê, está repleta de palavras-senha da propaganda das organizações de Soros: “sociedade sustentável”, “sociedade do conhecimento” e “diversidade”.

Marina Silva - Olimpíadas de Londres/2010
Marina exibiu-se ao lado da equipe do Brasil na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. O ministro dos Esportes do Brasil, Aldo Rebelo, disse que a exibição de Marina naquela cerimônia havia sido aprovada pela Família Real Britânica, e que ela “sempre teve boas relações com a aristocracia europeia”.

Marina também apoia com muito mais empenho que Rousseff as políticas de Israel para a Palestina. Como se vê também nas Assembleias de Deus de cristãos pentecostais, Marina participa de uma facção religiosa que acolhe, não raro nas posições de comando organizacional, membros do movimento mundial dos “Cristãos Sionistas”, tão avidamente pró-Israel quanto organizações de judeus sionistas como B'nai B'rith e o World Jewish Congress. As Assembleias de Deus creem no seguinte, sobre Israel:

Segundo a Escritura, Israel tem importante papel a cumprir no fim dos tempos. Por séculos, estudiosos da Bíblia ponderaram sobre a profecia de uma Israel restaurada. “Eis o que diz o Senhor Soberano: Tirarei os israelitas das nações para as quais foram. Reuni-los-ei de todas as partes e os porei juntos na sua própria terra”. Quando o moderno estado de Israel foi criado em 1948, e os judeus começaram a ir para lá, de todos os cantos do mundo, os estudiosos da Bíblia viram ali a mão de Deus em ação; e que nós viveremos lá os últimos dias.

Marina Silva e Marco Feliciano... Parceiros?

Em 1996, Marina recebeu o Prêmio Ambiental Goldman, criado pelo fundador da Empresa Seguradora Goldman, Richard Goldman e sua esposa, Rhoda Goldman, uma das herdeiras da fortuna da empresa de roupas Levi-Strauss.

Em 2010, Marina foi listada, pela revista Foreign Policy, editada por David Rothkopf, do escritório de advogados Kissinger Associates, na lista de “principais pensadores globais”.

O mais provável é que jamais se conheçam todos os detalhes do acidente que matou Campos. Participam hoje das investigações sobre o acidente a National Transportation Safety Board (NTSB) e a Federal Aviation Administration, do governo dos EUA. Membros dessas duas organizações com certeza serão informados do andamento das investigações e passarão tudo que receberem para agentes da CIA estacionados em Brasília, os quais tudo farão para ter o título “Trágico Acidente” estampado no relatório final.

A CIA sempre conseguiu encobrir sua participação em outros acidentes de avião na América Latina que eliminaram opositores do imperialismo norte-americano naquela parte do mundo. Dia 31/7/1981, o presidente Omar Torrijos, do Panamá, morreu quando o avião da Força Aérea panamenha no qual viajava caiu perto de Penonomé, Panamá. Sabe-se que, depois que George H. W. Bush invadiu o Panamá em 1989, os documentos da investigação sobre o acidente, que estavam em posse do governo do general Manuel Noriega foram confiscados por militares norte-americanos e desapareceram.

Super King Air- 200, Beechcraft
Dois meses antes da morte de Torrijos, o presidente Jaime Roldós do Equador, líder populista que se opunha aos EUA, havia também morrido num acidente de avião: seu avião Super King Air (SKA), operado como principal aeronave de transporte oficial pela Força Aérea do Equador, caiu na Montanha Huairapungo na província de Loja. No avião, também viajavam a Primeira-Dama do Equador, e o Ministro da Defesa e esposa. Todos morreram na queda do avião. O avião não tinha Gravador de Dados do Voo, equipamento também chamado de “caixa preta”. A polícia de Zurique, Suíça, que conduziu investigação independente, descobriu que a investigação feita pelo governo do Equador encobria falhas graves. Por exemplo, o relatório do governo do Equador sobre a queda do SKA, não mencionava que os motores do avião estavam desligados quando a aeronave colidiu contra a parede da montanha.

Cessna Citation 560XL
Como o avião de Roldós, o Cessna de Campos também não tinha gravador de dados de voo. Além disso, a Força Aérea Brasileira anunciou que duas horas de conversas gravadas pelo gravador de voz da cabine de voo do Cessna em que viajava Campos não incluem qualquer conversa entre o piloto, copiloto e torre de controle naquele dia 13 de agosto. O gravador de voz da cabine a bordo do fatídico Cessna 560XL foi fabricado por L-3 Communications, Inc.de New York City. Essa empresa L-3 é uma das principais fornecedoras de equipamento de inteligência e espionagem para a Agência de Segurança Nacional dos EUA, a mesma empresa que fornece grande parte das capacidades de escuta de seu cabo submarino, mediante contrato entre a ASN (Agência de Segurança Nacional – NSA em inglês) e a Global Crossing, subsidiária da L-3.

Embora Campos não fosse inimigo dos EUA, sua morte em circunstâncias suspeitas, apenas poucos meses antes da eleição presidencial, substituído, como candidato, por elemento importante na infraestrutura política coordenada por George Soros, cria alguma dificuldade eleitoral para a presidenta Rousseff, que Washington, sem dúvida possível, vê como adversária.

A "pedra no sapato" de Soros, da CIA e dos EUA
Os EUA e Soros pesquisam já há muito tempo várias vias para invadir e desmontar, por dentro, o grupo das nações BRICS. A tentativa de Soros-CIA para pôr na presidência da China um homem como Bo Xilai foi neutralizada, porque os chineses conseguiram capturá-lo e condená-lo por corrupção, antes.

Com Rússia e África do Sul absolutamente inacessíveis para esse tipo de ardil, restam Índia e Brasil, como alvos dos esforços da CIA e de Soros para fazer rachar e desmontar o grupo BRICS. Embora o governo do direitista Narendra Modi na Índia esteja apenas começando, há sinais de que pode vir a ser a cunha de que os EUA precisam para desarticular os BRICS. Por exemplo, a nova Ministra de Relações Exteriores da Índia, Sushma Swaraj, é conhecida como empenhada e muito comprometida aliada de Israel.

Outubro de 2013 - cria-se o "Cavalo de Tróia"
No Brasil, hoje governado por Rousseff, a melhor oportunidade para infiltrar no governo um dos “seus” parece ser, aos olhos da CIA e Soros, a eleição de Marina Silva. Seria como um “Cavalo de Tróia” infiltrado no comando de um dos países do grupo BRICS, em posição para atacar por dentro aquele bloco econômico, mais importante a cada dia.

A queda do avião que matou Eduardo Campos ajudou a empurrar para muito mais perto do Palácio da Alvorada, em Brasília, uma agente-operadora dos grupos financiados por George Soros.
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[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al JazeeraStrategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.

Fonte: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/08/marina-silva-george-soros-e-mais-um.html

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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

David Harvey e as 17 contradições e o fim do capitalismo

As engrenagens ocultas do capital – e as contradições que poderão levar ao fim do capitalismo


Marx descreveu o capital como um sistema permeado de contradições internas; David Harvey listou e destrinchou todas elas, são dezessete...
Para a moderna sociedade ocidental, o capitalismo é o ar que respiramos, e boa parte das pessoas raramente pensam em questioná-lo, para bem ou para mal. Mas saber o que faz o capitalismo funcionar – e o que o faz quebrar – é crucial para compreender sua saúde a longo prazo, e as vastas implicações para a economia global que seguem.
Em 17 contradições e o fim do capitalismo, o geógrafo britânico David Harvey examina as contradições internas ao fluxo do capital que precipitaram crises recentes. Ele insiste que apesar das contradições terem tornado flexível e resiliente o capitalismo, elas também contém as sementes de uma catástrofe sistêmica. Muitas das contradições são geríveis, mas algumas são fatais.
"O que procuro fazer aqui é fornecer uma melhor compreensão das contradições do capital, não do capitalismo. Quero saber como o motor econômico do capitalismo funciona da forma pela qual funciona, e porque ele às vezes engasga, entra em estagnação e parece estar à beira colapso. Quero também mostrar por que esse motor econômico deve ser substituido e com o que."
Leia aqui um trecho exclusivo do livro antecipado no Blog da Boitempo: "A violência nas ruas e o fim do capital".
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Depois de Gaza: o BDS é uma opção


Ilan Pappé*, o mais conhecido dos “novos historiadores” israelitas, visitou recentemente a África do Sul para impulsionar a campanha internacional de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Deu esta entrevista ao jornalista Shaun de Waal do semanário Mail &Guardian.

Caracteriza Israel como um estado-colono e estabelece uma diferença entre o colonialismo e o estado-colono. Basicamente, no estado-colono, o colono não tem uma casa de origem à qual possa voltar. Isto é o que nós, sul-africanos, chamamos “colonialismo de tipo especial”. 

Sim! O primeiro sionismo utiliza a palavra “colonialismo” para descrever o que o sionismo queria, porque a imagem do colonialismo no século XIX era muito boa. Estavam orgulhosos de qualificar o sionismo como um projeto colonial de sucesso.
Mas na década de 1930, e após a fundação do Estado de Israel, a imagem do colonialismo tinha mudado.
Os primeiros estudiosos do sionismo inventaram uma nova palavra – nem sequer posso pronunciá-la, uma espécie de corrupção ortográfica de “colonização” em hebraico – para demonstrar que este projeto era único.
O sionismo começou a falar da volta a uma antiga pátria, da redenção de uma terra vazia. Isto significava que não podia descrever o movimento anticolonialista palestiniano como tal, mas sim como terroristas que tentavam destruir um estado democrático moderno.
Israel e os seus partidários usam o argumento de que Israel é um exemplo de democracia: o único estado democrático na região. 

Há dois Israel: o Israel não ocupado, que é uma democracia, e depois há o Israel com ocupação temporária. É como se Israel dissesse: “Não podemos ser julgados pela ocupação, porque é temporária.” Mas a ocupação tem lugar desde 1967! E, evidentemente, os árabes em Israel estavam submetidos a um regime militar até 1967 que depois se estendeu aos territórios ocupados.
Israel escapa a qualquer definição de uma sociedade democrática, especialmente pela sua atitude em relação aos povos autóctones. Este argumento de que é uma democracia não funcionou no caso da África do Sul do apartheid, por que deveria funcionar no caso de Israel?
Houve um momento da Primavera árabe, quando esta parecia muito promissora, muito democrática, que foi muito preocupante para Israel, como se refletiu nos meios de comunicação israelitas. A possibilidade de que pudesse haver uma democracia alternativa ou uma verdadeira democracia no Médio Oriente parecia abalar os fundamentos estratégicos do Estado de Israel.
Israel também afirma que Hamas, que é o partido dirigente em Gaza, diz no seu programa que quer acabar com o estado de Israel. Esta é uma poderosa arma ideológica que permite aos sionistas mobilizar apoio a Israel, porque podem acusar a Hamas de querer outro Holocausto. 

Sim, estou a ver. Mas não se pode utilizar os direitos humanos para julgar os movimentos anticolonialistas no apogeu das suas lutas contra o colonialismo. O Hamas é uma reação palestiniana determinada num momento histórico específico. Não posso ir ter com a população de Gaza, estrangulada por Israel, e dizer que deixem de lançar foguetes contra Israel, que se deixem matar em Gaza. Preciso ter uma conversa séria com eles, num ambiente que lhes permita ver as diferentes opções.
Por isso o movimento BDS é tão importante. É preciso dar uma opção às pessoas. Muitas vezes digo aos meus amigos que propõem ações mais radicais contra Israel: cem mil mísseis lançados de Gaza não teriam o mesmo efeito que um único governo no mundo que estivesse disposto a romper relações com Israel.
Isto seria bem mais eficaz, e seria não-violento. Permitir-nos-ia construir algo novo, sem o legado de fundo da violência. Digo aos meus amigos palestinianos: a era do nacionalismo acabou. Temos de impulsionar a mobilização em relação aos direitos humanos.
O governo israelita não fez reuniões de emergência sobre a ocupação durante muitos anos: até que o movimento BDS começou a ter alguns êxitos. E é por este motivo que a reação do governo da África do Sul perante a última crise em Gaza foi tão dececionante. Pelo menos poderia ter pedido a retirada do embaixador de Israel.
O fundador do Hamas, que foi assassinado por Israel, disse que se o seu opressor tivesse sido muçulmano ou árabe, ou mesmo palestiniano, teria resistido da mesma forma.
O programa da Fatah costumava dizer que os judeus que chegaram após 1918 deviam voltar aos seus países de origem. Mas no momento em que a Fatah pensou que tinha uma possibilidade de diálogo, em Oslo, admitiu que isto era absurdo. Disseram que nem sequer exigem que os russos voltem para casa, os russos que chegaram ontem.
Eu não sou partidário do Hamas, mas precisamos de um longo diálogo entre pessoas de diferentes religiões e origens, porque no final encontrar-nos-emos com um estado de diálogo. Desejo começar esta viagem com os meus amigos muçulmanos.
E que dizer da recente iniciativa dos Estados Unidos liderada pelo secretário de Estado, John Kerry? 

A solução dos dois estados está morta há anos. O corpo está na morgue. De vez em quando aparece um secretário de estado dos EUA entusiasta que retira o cadáver da morgue e finge que o ressuscita e que está vivo. Mas quando deixa de funcionar, devolve o cadáver à morgue. Acho que deveríamos enterrá-lo já.
Não sei como poderemos desenvolver um novo estado de Israel-Palestina, mas nem sequer posso começar este diálogo se toda a gente está cativa de um falso paradigma.
A solução dos dois estados reduz o que seria a Palestina a 20% do território. Não se pode dizer que a Palestina é só a Cisjordânia e Gaza. E não se pode reduzir o povo palestiniano à população de Gaza e da Cisjordânia. Se não se abordar o problema de 5,5 milhões de refugiados, seja como for, a solução dos dois estados será pura quimera.
As elites políticas são bem mais produto da inércia do que admitem. Uma mudança de paradigma requer estudo e aprendizagem, e são preguiçosas. Significa pôr em risco a sua popularidade. Implica uma grande incerteza.
Precisamos desta mudança de paradigma, e temos de preparar o terreno para esse momento.

*Ilan Pappé é o mais conhecido dos “novos historiadores” israelitas, autor entre outros de A Limpeza Étnica da Palestina (2006). Expulso das universidades israelitas, ensina atualmente na Universidade de Exeter, no Reino Unido, e impulsiona internacionalmente o movimento BDS. Shaun de Waal é jornalista do semanário sul-africano Mail & Guardian desde 1989.
Tradução para o português de Luis Leiria para o Esquerda.net 


Fonte: http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=2496

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EUA e luta de classes − A Próxima Guerra Racial Não Será Racial

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Manifestante de Ferguson (17/8/2014)
Você provavelmente já ouviu falar sobre o tiroteio na Estadual Kent: dia 4/5/1970, a Guarda Nacional de Ohio abriu fogo contra estudantes que protestavam na Universidade Estadual Kent. Naqueles 13 segundos de tiroteio, quatro estudantes foram mortos e nove foram feridos, um dos quais ficou paralítico para sempre. O choque e os protestos resultaram numa greve nacional de 4 milhões de estudantes, que fecharam mais de 450 campus no país. Cinco dias depois do tiroteio, 100 mil manifestantes reuniram para protestar em Washington, D.C. E a juventude da nação foi energicamente mobilizada para pôr fim à Guerra do Vietnã, ao racismo, ao sexismo e à fé cega depositada em políticos do establishment.

Você provavelmente nunca ouviu falar sobre o tiroteio na Estadual Jackson.

Dia 14/5/1970, dez dias depois que a Estadual Kent pôs fogo no país, na Universidade Estadual Jackson, de alunos predominantemente negros, a polícia assassinou a tiros dois estudantes negros (um aluno do último ano do secundário; o outro, pai de um bebê de 18 meses) e feriu outros doze.

Não houve indignação nacional. O país não foi mobilizado para fazer coisa alguma. O leviatã sem coração a que chamamos história engoliu o evento de Jackson inteiro, sem mastigar, apagando-o da memória nacional.

E, a menos que queiramos que a atrocidade em Ferguson também seja engolida e vire nada além de irritação nos intestinos na história, temos de tratar o caso não como mais um ato do racismo sistêmico nesse país, mas como o que o caso em Ferguson também é: guerra de classes.

Focando exclusivamente o aspecto racial, passa-se a discutir se a morte de Michael Brown – ou a morte dos outros três negros desarmados também assassinados pela polícia nos EUA, no período de um mês – é questão de discriminação ou não; e se a polícia tem justificativa para o que faz ou não. E perguntaremos se não há tanto racismo de negros contra brancos nos EUA, quanto de brancos contra negros. (E há. Mas o racismo de brancos contra negros tem impacto econômico no futuro da comunidade negra. Negros contra brancos praticamente têm efeito social zero).

E perguntaremos se a Polícia nos EUA não é, ela própria, mais uma minoria ameaçada nos EUA, sempre discriminada por causa da cor: azul [como seus uniformes]. E é. Há muitos fatores a considerar, antes de condenar a Polícia, dentre os quais as pressões políticas, o treinamento inadequado, políticas antiquadas. E perguntaremos se os pretos não são tão frequentemente mortos pela Polícia, porque cometem maior número de crimes. (De fato, estudos mostram que os negros são atingidos com maior frequência em algumas cidades, como New York City. É difícil pintar quadro nacional mais amplo, porque os estudos são escandalosamente imprestáveis. O estudo do Departamento de Defesa mostra que nos EUA, entre 2003 e 2009, dentre mortes relacionadas a detenções, há pequena diferença entre os números de negros, brancos ou latinos. Mas o estudo não informa quantos deles estavam desarmados).  

O movimento sempre repetido de “protesto”, de todos-em-geral, contra o racismo-dos-outros, só faz distrair os EUA para que não vejam a questão maior, de que a reação desproporcional dos alvos-de-polícia (áudio-vídeo com Itamar Assunção, no fim do parágrafo) baseia-se menos na cor da pele e mais, muito mais, num tormento muito pior, de nível-Ebola: ser pobre. É claro que para muitos, nos EUA, ser “de cor” é sinônimo de ser pobre; e ser pobre é sinônimo de ser criminoso. Ironicamente, essa cadeia de erros é encontrada também entre os pobres.

E isso, precisamente, é o que o status quo deseja.

O Relatório do Censo dos EUA descobriu que 50 milhões de norte-americanos são pobres. 50 milhões de eleitores é bloco poderoso, se organizados num esforço orientado para buscar seus objetivos econômicos partilhados. Assim sendo, é crucial que os riquíssimos “1%” mantenham separados os pobres, isolados uns dos outros em grupos que se criam em torno de questões emocionais-passionais como imigração, aborto, controle de armas, de modo tal que, assim, divididos “por temas”, os pobres jamais parem para pensar por que sempre são tão ferrados, há tanto tempo.

Um modo para preservar as fraturas que geram tantos grupos é a desinformação. Pesquisa recente sobre as redes de notícias concluiu que 60% de tudo que é noticiado na rede Fox e pelo Canal Fox News é falso. Nas redes NBC e MSNBC, 46% do que é noticiado é falso. “Fiquem agora com o Jornal Nacional”, pessoal!

Durante os eventos em Ferguson, o canal Fox News pôs no ar uma foto em branco e preto do Dr. Martin Luther King, Jr., com a seguinte frase no gerador de caracteres: “Esquecida a mensagem de MLK/Protestos no Missouri degeneram em violência”. Será que quando os dois presidentes Bush invadiram o Iraque, a Fox “noticiou” que “Esquecida a mensagem de Cristo/EUA não oferecem outra face e assassinam milhares de civis”?

Como é possível que os telespectadores façam escolhas racionais, numa democracia, se as fontes de informação estão todas corrompidas? Não é possível. E os telespectadores não fazem escolhas racionais – exatamente assim é que o “1%” controla o destino dos “99%”.


Ainda pior que isso, alguns políticos e empresários conspiram para manter os pobres exatamente como estão. No programa de sátira do noticiário que mantém no canal HBO, “Last Week Tonight”, John Oliver fez um panorama da indústria dos empréstimos a assalariados, e dos que viciosamente vivem de explorar o desespero dos pobres. Como é possível que o estado admita a existência de uma indústria que extorque juros de até 1.900%? No Texas, o deputado estadual Gary Elkins impediu a aprovação de lei que regulamentaria essa indústria (ele mesmo é proprietário de uma rede de estabelecimento de empréstimos desse tipo). E a deputada que não parava de criticar Elkins por causa do conflito de interesses, Vicki Truitt, passou a trabalhar como lobbyista da ACE Cash Express apenas 17 dias depois de deixar a Câmara de Deputados. Na essência, Oliver mostrou como os pobres são atraídos para um empréstimo, só para não conseguirem quitar as prestações e serem obrigados a contrair outro empréstimo. O ciclo não pode ser rompido.

Livros e filmes distópicos como Snowpiercer, The Giver, Divergent, Hunger Games, e Elysium fizeram furor em anos recentes. Não porque tematizem a frustração adolescente ante figuras de autoridade. Isso explicaria a popularidade entre audiências mais jovens, mas não entre jovens na casa dos 20 e, até, entre adultos de mais idade. A razão real pela qual todos acorremos para ver o retrato de louça que Donald Sutherland constrói em Hunger Games, de um presidente dos EUA frio, cruel, implacável, dedicado a preservar os mais ricos enquanto pisa na garganta dos pobres, é que ali percebemos ecos reais da real sociedade onde realmente vivemos, uma sociedade na qual “1%” enriquece cada vez mais, enquanto as classes intermediárias vão-se tornando mais pobres, a cada dia, já se aproximando do colapso.

Não há exagero aqui; estatísticas comprovam que é verdade. Segundo estudo do Pew Research Center de 2012, apenas metade dos lares nos EUA classificam-se como de renda média, 11% menos, na comparação com os anos 1970s; a renda média da classe média-média caiu 5% nos últimos dez anos; a riqueza total encolheu 28%. Menos pessoas (apenas 23%) entendem que tenham meios suficientes para se aposentarem. O pior de tudo: hoje, menos norte-americanos do que jamais antes creem no mantra nacional segundo o qual o trabalho-duro os arrancará da miséria.

Em vez de nos unirmos para enfrentar o inimigo real – políticos, legisladores e executivos eleitos e outros no poder que nada fazem – caímos da armadilha de nos pôr uns contra os outros, consumindo nossa energia combatendo gente-como-a-gente, em vez de combater nossos inimigos. Não se trata só de incluir todas as raças e todos os partidos políticos: trata-se também de não se deixar dividir por gênero. Em seu livro Unspeakable Things: Sex, Lies and Revolution [Do que não se fala: sexo, mentiras e revolução], Laurie Penny sugere que o número sempre reduzido de oportunidades para homens jovens na sociedade, os torna menos valiosos para as mulheres; resultado disso, eles deslocam a própria ira: em vez de dirigi-la contra os que causam o problema, dirigem-na contra outra figura que também sofre consequências do processo: as mulheres.

Ah, sim, sei bem que é injusto pintar os mais ricos nesses traços tão gerais. Há alguns tipos super ricos que também super apoiam suas comunidades. Há quem sinta algum pudor da própria riqueza e saia, no esforço para ajudar outros. Mas não é absolutamente o caso da multidão de milionários e bilionários que fazem lobby para diminuir a distribuição de vales-comida, para diminuir o número de médicos em serviços públicos de saúde, contra qualquer medida que reduza o peso das dívidas de educação sobre nossos jovens e que se opõem à extensão de benefícios a desempregados.



Ferguson: Policial dispara contra manifestantes
Com cada novo evento de tiroteio/atrocidades mortos/defenda seu grupo, a Polícia e o sistema judicial são novamente vistos como defensores de um status quo injusto. A ira dos injustiçados cresce, e recomeçam os protestos exigindo justiça. A imprensa-empresa entrevista qualquer “especialista” [desde que absolutamente nada diga de novidade] e os “especialistas” distribuem culpas e condenações.

E daí? Fazer o quê?

Não estou dizendo que os protestos em Ferguson não sejam justificados – eles são perfeitamente justificados. De fato, precisamos de mais protestos nos EUA. Onde está nossa Kent Estadual? Quanto tempo, até que se mobilizem 4 milhões de estudantes, em protesto pacífico nos EUA? Porque sem isso nunca haverá mudança real.

A classe média tem de se unir aos pobres; os norte-americanos brancos têm de se unir aos norte-americanos negros em manifestações de massa, para derrubar os políticos corruptos, para boicotar empresas de exploração, para fazer aprovar leis que promovam a igualdade econômica e de oportunidades, e para punir os que fazem de nosso futuro financeiro objeto de desenfreada jogatina.

Sem isso, só conseguiremos o que conseguimos em Ferguson: um bando de celebridades e políticos, “ofendidos-de-televisão”, a manifestar simpatia. Se não tivermos agenda específica – uma lista do que queremos mudar e como, exatamente – continuaremos todos, outra vez e outra vez, a nos reunir em torno dos cadáveres dos nossos filhos, pais, vizinhos assassinados.

Espero que John Steinbeck esteja certo, quando escreveu em Vinhas da Ira, que “a repressão só serve para aproximar e unir os oprimidos”. Mas estou mais inclinado a fazer eco a Marvin Gaye, em Inner City Blues escrita um ano depois dos tiroteios nas universidades estaduais Kent e Jackson:

Inflação. Sem chance
de melhorar as finanças.
As contas, em pilhas, até o céu.
E matam aquele garoto.
Me dá vontade de gritar.
O jeito como eles mexem co’a minha vida,
me dá vontade de gritar.
O jeito como eles mexem co’a minha vida.


[*] Kareem Abdul-Jabbar é seis vezes campeão (Los Angeles Lakers) da National Basketball Association (NBA) e também 6 vezes considerado o Most Valuable Player (Jogador Mais Valioso) da NBA. É festejado escritor, cineasta e embaixador educacional de grande sucesso nos EUA.


Fonte:  http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/08/eua-e-luta-de-classes-proxima-guerra.html

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