"Os jornais são aparelhos ideológicos cuja função é transformar uma verdade de classe num senso comum, assimilado pelas demais classes como verdade coletiva - isto é, exerce o papel cultural de propagador de ideologia. Ela embute uma ética, mas a ética não é inocente. Ela é uma ética de classe." [Antonio Gramsci]

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Por um BRICS para os povos


Chefes de Estado dos BRICS, posam para foto, após 6ª reunião de cúpula do grupo, em julho, em Fortaleza
Chefes de Estado dos BRICS, posam para foto, após 6ª reunião de cúpula do grupo, em julho, em Fortaleza
Bloco parece de fato disposto a questionar hegemonia das potências ocidentais. Mas será possível levá-lo a considerar nova ordem mundial? 
Por Fátima Melo
Os resultados da VI Cúpula dos BRICS, expressos na Declaração de Fortaleza, evidenciam que o bloco passou a dar passos concretos em iniciativas de grande importância na disputa por uma nova ordem global que encontra-se em um longo processo de reconfiguração desde o fim da Guerra Fria.
A criação do Novo Banco de Desenvolvimento e do Arranjo Contingente de Reservas dão concretude à demanda por democratização da arquitetura financeira internacional e pela reforma das instituições de Bretton Woods. Mas a Declaração de Fortaleza não para por aí e afirma a disposição do bloco em atuar em uma ampla gama de temas estratégicos em disputa na arena global: sempre reiterando a centralidade das Nações Unidas, os BRICS se posicionam claramente em relação aos conflitos na Síria, no Irã e a questão nuclear, Afeganistão, Iraque, Ucrânia, Palestina, e reafirmam “a necessidade de uma reforma abrangente das Nações Unidas, incluindo seu Conselho de Segurança, com vistas a torná-lo mais representativo, eficaz e eficiente, de modo que possa responder adequadamente a desafios globais. China e Rússia reiteram a importância que atribuem ao status e papel de Brasil, Índia e África do Sul em assuntos internacionais e apoiam sua aspiração de desempenhar um papel maior nas Nações Unidas” (parágrafo 25). Somada à ênfase no reforço ao multilateralismo, a VI Cúpula dos BRICS deu clara sinalização de interesse no fortalecimento da articulação com a UNASUL, dando continuidade ao movimento feito na V Cúpula, realizada em Durban, quando também houve reunião com países africanos.
Não há dúvida que os BRICS incomodam as potências tradicionais. A população dos cinco países chega a quase metade da população e força de trabalho mundial; o território somado entre os membros do bloco ocupa um quarto da área do planeta; seus membros têm um papel central em suas respectivas regiões; o PIB do bloco tem peso percentual expressivo e crescente no PIB mundial; e o bloco começa a fazer movimentos concretos de disputa nas arenas econômica, financeira e estratégica. Um sinal evidente de que os BRICS estão incomodando foi o anúncio de novas sanções contra a Rússia feito pelo governo dos EUA no mesmo dia da reunião do bloco com a UNASUL.
A VI Cúpula escolheu como tema o “Crescimento Inclusivo: Soluções Sustentáveis”, e é precisamente no tema escolhido como principal que se encontram os maiores bloqueios e desafios a serem enfrentados pelo bloco. Se por um lado há que se louvar o destaque e frequência conferidos ao desenvolvimento sustentável na Declaração de Fortaleza, por outro não é possível encontrar nenhuma definição sobre o significado do termo ao longo do documento, o que dificulta a compreensão do sentido dado pelo bloco aos parágrafos dedicados à agenda das Nações Unidas sobre diversidade biológica, mudanças climáticas, energia, agenda pós-2015, Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, educação, direitos reprodutivos e agricultura familiar. O Novo Banco de Desenvolvimento também foi criado para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável, mas nas resoluções da VI Cúpula sobre o banco não existe qualquer definição ou qualificação do significado do termo.
Apesar do destaque dado à narrativa do desenvolvimento sustentável, os bloqueios relacionados à inclusão social com sustentabilidade são o problema central e estratégico para o futuro do bloco pois expõem a natureza do modelo de desenvolvimento dos países membros, baseado em fortes desigualdades sociais e na exploração intensiva de recursos naturais. Todos os membros dos BRICS possuem taxas elevadíssimas e crescentes de concentração da renda, exceto o Brasil cuja valorização do salário mínimo e programas de inclusão social realizados na última década resultaram em redução das desigualdades, embora o país continue sendo um dos mais desiguais na América Latina, que por sua vez é a região mais desigual do mundo.
Diálogos sobre Desenvolvimento: os BRICS na perspectiva dos Povos – Os países do bloco e seus entornos regionais encontram-se em acelerado processo de reprimarização de suas exportações em resposta a demanda da China por recursos naturais, que importa dos países do bloco e de seus vizinhos minérios, combustíveis fósseis, soja e outros produtos agrícolas produzidos em amplas extensões de monocultivos intensivos no uso de pesticidas e agrotóxicos e de baixo emprego de força de trabalho, ao mesmo tempo em que a importação de manufaturas chinesas produzidas em condições de trabalho aviltantes empurra nossas economias para a desindustrialização e pressiona pelo rebaixamento de direitos dos trabalhadores. Produtos primários e manufaturas baseadas em recursos naturais representam mais de 85% das exportações da América Latina para a China (*). A contrapartida da intensificação de um modelo baseado na extração de recursos naturais são os frequentes conflitos de terra e violações de direitos territoriais por parte de empresas do agronegócio e da extração mineral contra camponeses, indígenas, pescadores e quilombolas. No caso do Brasil, a especialização primário-exportadora se viabiliza contando com a elevada concentração da propriedade da terra e com a fragilização e flexibilização da legislação de defesa de direitos duramente conquistados. No caso da África do Sul, a economia centrada na extração mineral é acompanhada de elevadas taxas de emissões de gases do efeito estufa e graves violações de direitos humanos de trabalhadores, cujo símbolo mais gritante é o conhecido massacre de Marikana.
Em paralelo a VI Cúpula dos BRICS, foi realizada a IIIa Cúpula Sindical dos BRICS cuja ênfase foi a defesa dos direitos dos trabalhadores do bloco contra a pressão por rebaixamento e precarização, e a tentativa de harmonização destes direitos pelos mais altos padrões. Foram realizados também os “Diálogos sobre Desenvolvimento – Os BRICS na Perspectiva dos Povos”, onde organizações e movimentos sociais dos países do bloco e de países que serão atingidos pelos projetos do Novo Banco de Desenvolvimento debateram e articularam suas lutas por direitos frente ao avanço dos investimentos e empresas extrativas sobre seus territórios. Os temores de que o Novo Banco reproduza o padrão de injustiças socioambientais dos investimentos de bancos nacionais de desenvolvimento de alguns de seus membros, como é o caso do BNDES, se somaram a decisão de que os povos dos países membros passarão a articular de forma mais intensa suas lutas por direitos. Frente ao avanço da mineração, da usurpação de terras, da precarização das condições de trabalho, da exploração de combustíveis fósseis e expulsão de camponeses e populações tradicionais de suas terras, é preciso articular lutas locais, nacionais e entre os países do bloco.
Diante da indefinição por parte dos governos sobre o que se entende por desenvolvimento sustentável, os povos dos BRICS deverão demandar que o bloco priorize um novo caminho de desenvolvimento com ênfase na distribuição da renda e riqueza, valorização do trabalho e dos salários, fortalecimento dos direitos das maiorias, que defina limites à voracidade das empresas dos países do bloco que avançam sobre os territórios e usurpam direitos, que estabeleça formas de regulação social e ambiental para os financiamentos do Novo Banco. Os projetos de infraestrutura a serem financiados pelo Novo Banco, ao invés de repetirem os desastres socioambientais cometidos pelos bancos nacionais de desenvolvimento, devem dar prioridade a infraestrutura de moradia, saneamento, saúde, educação, apoio a sistemas de produção de alimentos camponeses e familiares, entre tantas outras necessidades urgentes para a conquista de direitos para as maiorias nos cinco países.
Durante a VI Cúpula dos BRICS os trabalhadores, organizações e movimentos sociais demonstraram de forma contundente que não apenas o Fórum Empresarial e o Fórum Acadêmico devem ser considerados. Os povos dos países do bloco, suas lutas e demandas, precisam ser ouvidos. Embora haja resistências de outros membros do bloco, espera-se que o Brasil acolha a demanda pela criação do Conselho Nacional sobre Política Externa, pois este será o espaço institucional adequado de consulta e diálogo sobre os BRICS e demais temas da agenda de política externa no país.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

EUA precisam desesperadamente de iranianos e sauditas

John Kerry no Voice of America (11/9/2014)

[*] por MK BhadrakumarIndian Punchline − rediff BLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A complexa palavra que o Presidente dos EUA, Barack Obama, não pronunciou sequer uma vez no discurso da 4ª-feira (10/9/2014) em que expôs sua “estratégia” para combater o Estado Islâmico foi “Irã”. A ambiguidade estratégica que Washington quer preservar é autoevidente. Obama permanece em silêncio, mas o Secretário de Estado, John Kerry, fala pelos cotovelos pela rádio estatal Voice of America.

Kerry disse, ainda em Bagdá, na 4ª-feira (10/9/2014), pouco antes de Obama falar em Washington, que os iranianos “estão sozinhos” [por conta própria] na luta contra o Estado Islâmico, mas os EUA “não cooperamos militarmente ou de qualquer outro modo – nem temos qualquer intenção nesse processo de fazê-lo – com o Irã”. Hmm. Categórico demais, muito, além da conta.

Mas interessante é que tampouco Kerry desaprovou o envolvimento político-militar do Irã contra o Estado Islâmico no Iraque. Por outro lado, Voice of America publicou comentário logo no dia seguinte da fala de Kerry em Bagdá, cuja autora argumenta persuasivamente, que a “coalizão de vontades” comandada pelos EUA para lutar contra o Estado Islâmico “tem de incluir o Irã”.

O comentário revelou que o Vice-Secretário de Estado dos EUA, William Burns, “já levantou a questão do Iraque em reunião com funcionários iranianos pelo menos em duas ocasiões”.

Aiatolá Ali Khamenei e Hassan Rouhani (d)
Verdade é que também há especulações de que o Irã pode vir a ser convidado para participar da chamada ‘conferência internacional’ a realizar-se na 2ª-feira (15/9/2014) em Paris, convocada pela França. Não há dúvidas de que Washington examinou e “autorizou” a lista de convidados.

Enquanto esse jogo de sombras prossegue, Obama aparentemente apresentou pedido ao Congresso dos EUA de autorização para treinar um exército de rebeldes sírios em bases do exército na Arábia Saudita. De fato, na fala da 4ª-feira (10/9/2014), Obama jurou que se livrará do regime sírio, “de uma vez por todas”.

A ideia geral em Washington parece ser que as forças da “oposição” síria – o chamado Exército Sírio Livre – possam ser modeladas até se converterem em força de combate com real capacidade para derrotar as forças do governo legal. Kenneth Pollack, um dos mais citados especialistas norte-americanos em Oriente Médio, expôs, em longo artigo na revista Foreign Affairs, “uma estratégia plausível para vitória a custo aceitável”, com a qual os EUA “podem pôr fim à guerra civil síria em temos que interessam aos EUA (...) e sem envolver soldados norte-americanos em solo”.

Netanyahu fez discurso instruindo seu "poodle" Obama
Qual afinal é o plano de jogo de Obama no que tenha a ver com o papel do Irã? Para começar, Obama não pode ser visto em conversas com a liderança iraniana: Israel não gostaria. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez importante discurso no qual

(a) avisou Obama de que os esforços dos EUA para enfraquecer radicais sunitas não devem resultar em fortalecer “o Irã extremista”;
(b) repetiu que o Estado Islâmico e o Hezbollah são ramos da mesma árvore;
(c) um Irã com armas atômicas será, em todos os casos, o terror máximo;
(d) muitos estados árabes sunitas (leia-se: a Arábia Saudita) avaliaram sua relação com Israel — “Entendem que Israel não é inimiga deles, mas aliada na luta contra esse inimigo comum”;
(e) Israel apoia integralmente a conclamação que Obama fez, de ações unidas contra o Estado Islâmico – “Algumas das coisas são conhecidas; outras são menos conhecidas”.

É bem claro que a demanda de Netanyahu é que Obama não fique muito íntimo de Teerã, não importa o quão “grave'’ seja a ameaça que o Estado Islâmico implique.

Em segundo lugar, Obama não pode meter os dois, Arábia Saudita e Irã, na sua tenda. A Arábia Saudita nunca alivia nas diatribes contra as políticas do Irã. E, afinal, a Arábia Saudita, a quem caberá pagar a guerra contra o Estado Islâmico, é que é a aliada indispensável aos EUA.

Em terceiro lugar, Obama não poderá recompensar positivamente qualquer contribuição que receba do Irã na luta contra o Estado Islâmico. Teerã esperaalguma boa vontade dos EUA, pelo menos, na questão nuclear; mas Obama está com as mãos atadas e, simplesmente, não tem o capital político necessário para conter a oposição que vem de Netanyahu.

Por outro lado, Obama quer toda a ajuda que o Irã lhe possa dar militarmente e politicamente, para a guerra contra o Estado Islâmico – desde, é claro, que a ajuda venha sem condições. Por que Obama não poderia aceitar ajuda do Irã, se for grátis?

Os presidentes Assad (Síria) e Putin (Rússia)
Pode-se supor que, ao preservar tão atentamente a ambiguidade estratégicana fala da 4ª-feira (10/9/2014), Obama também espera fazer pressão sobre o governo sírio e, também, sobre Moscou. De fato, comentários russos recentes têm chamado a atenção para a importância de todos se manterem em alerta contra as tentativas, pelos EUA, de meterem uma cunha entre Moscou e Teerã.

Acima de tudo, o governo Obama parece trabalhar sobre a premissa de que haveria um cisma dentro do governo iraniano entre conservadores e reformistas, e que a luta surda pela supremacia aproxima-se de um momento de definição. Washington já não responde à retórica dos elementos “linha duríssima” em Teerã.

Na verdade, a declaração iraniana em nível do Ministério de Relações Exteriores distribuída no final da 5ª-feira (11/9/2014) parecia vazada em termos duros, mas evitava cuidadosamente qualquer referência direta à fala de Obama, da véspera.

Fazia uma crítica “genérica” e não contraditava a declaração explícita de Obama de seu projeto para atacar a Síria. Diferente disso, as declarações russa e síria denunciavam, em termos muito claros, que qualquer ataque dos EUA contra a Síria caracterizaria “agressão” e violação da lei internacional.

____________________


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

Os EUA estarão sempre em guerra?


Os EUA estarão sempre em guerra?

A decisão de Barack Obama declarar guerra unilateralmente contra o Estado Islâmico é, além de inconstitucional, legalmente irracional, pois usa uma lei que tem 13 anos para combater um grupo que nem existia quando a norma foi aprovada
Por Trevor Timm, no The Guardian | Reproduzido por Alternet | Tradução: Vinicius Gomes

Em um discurso que deixaria Dick Cheney orgulhoso, o presidente Barack Obama disse na semana passada que os EUA estão em guerra com o Estado Islâmico (ou Isis), “da mesma maneira que estamos em guerra com a al-Qaeda e seus afiliados” – uma guerra que continuará indefinidamente e é baseada em uma estratégia que tem fracassado há mais de uma década e nunca será legalmente chamada de “guerra”.
O que Obama realmente fez, todavia, foi confirmar a todos o que o falecido jornalista e escritor Hunter S. Thompson percebeu imediatamente após o 11 de Setembro, quando escreveu: “Agora nós estamos em guerra – com alguém – e nós sempre estaremos em guerra com aquele misterioso inimigo para o resto de nossas vidas”.
Enquanto a existência de uma Guerra Eterna é evidente há anos para qualquer um que esteja prestando atenção, foi apenas nesses últimos dias que se tornou cristalina a política norte-americana. Agora, até mesmo os generais estão concordando com os sentimentos de Thompson. “Nós não veremos o final disso [guerra] em nosso tempo de vida”, afirmou Charles F. Wald, general aposentado da Força Aérea, em entrevista ao Washington Post. “Não haverá nenhum momento onde poderemos declarar vitória. Assim que será o mundo para nós por bastante tempo.”
O presidente norte-americano também anunciou que ele não necessitaria de aprovação do Congresso para bombardeios no Iraque e na Síria, ignorando tanto suas obrigações constitucionais como suas próprias palavras em 2008, e que os EUA irão enviar mais armas a um grupo de combatentes “moderados” que dificilmente qualquer um acredita – incluindo Obama – serem moderados ou até mesmo bons combatentes.
Juristas e acadêmicos dos dois lados – esquerda e direita – denunciaram a decisão inconstitucional do presidente Obama em ignorar o Congresso e autorizar unilateralmente uma ação militar ao invocar a Autorização para Uso de Força Militar contra a al-Qaeda – uma lei criada em 2001, especificamente para combater a al-Qaeda, que expulsou o Isis de suas fileiras.
O Departamento de Justiça dos EUA, que já possui um horrendo hábito de classificar como confidenciais suas interpretações legais de leis públicas, talvez nem tenha se incomodado em colocar essa interpretação legal, particularmente torturante, em escrito. Como o Washington Postescreveu, quando questionados por repórteres, “oficiais da administração se recusaram a explicar detalhadamente a legalidade [na decisão em bombardear a Síria e o Iraque]”.
Não se enganem: se George W. Bush tivesse usado uma lei de 13 anos de idade para travar uma guerra com um grupo que nem existia quando tal lei foi aprovada – e com isso, conscientemente dando a volta no Congresso – os Democratas tomariam as ruas com protestos. Ao invés disso, Nancy Pelosi,  líder da minoria na Casa dos Representantes e Harry Reid, líder da maioria no Senado, deram suas bênçãos ao plano de Obama e apenas um pequeno grupo dissidente de senadores progressistas está tentando que a ação militar seja, pelo menos, colocada em votação.
Membros mais conservadores do Congresso – muitos daqueles que têm chamado Obama de covarde há semanas – decidiram agora, repentinamente, tomar o seu tempo antes de cumprirem com suas obrigações constitucionais, adiando qualquer votação até novembro (e olhe lá). Eles estão, aparentemente, mais preocupados com suas reeleições do que com a “mais cruel e bem financiada organização terrorista já vista”, como apontou a senadora Dianne Feinstein.
Felizmente, após o discurso de Obama, a mídia parece ter finalmente percebido que a guerra com o Isis é tão desnecessária, quanto impossível de ser vencida. Apesar da declaração de Feinstein de que “a ameaça que o Isis representa não pode ser descrita”, tanto o New York Times como o Washington Post publicaram artigos documentando como praticamente todas “agências de inteligência dos EUA concluíram que [o Isis] não é uma ameaça iminente aos EUA”. Isso faz um enorme contraste com as declarações do Congresso, que aparentemente, estão em um torneio de quem faz a mais ridícula declaração exagerada sobre o Isis.
Times e o Post também publicaram textos detalhados que projetam o inescapável caos no qual essa guerra rapidamente se tornará, assim como o “sucesso” que será provavelmente impossível de ser alcançado dada uma miríade de complexidades em questão – incluindo a precária coalizão governamental no Iraque, o suposto inimigo Bashar al-Assad na Síria e o jogo duplo que muitos dos supostos aliados dos EUA na região fazem.
De alguma maneira, apesar de tudo isso, a administração Obama acredita que pode “destruir” o Isis mesmo que, como o Post escreveu, o governo norte-americano não tenha sido capaz de destruir a al-Qaeda ou qualquer grupo terrorista na última década “através de duas guerras, milhares de ataques com drones e centenas de operações secretas ao redor do mundo”.
A única questão agora é o quão longe essa Guerra Eterna contra o Isis irá. Quanto tempo até que haja um clamor para uma invasão por terra no Iraque ou na Síria – ou em ambos – quando a atual estratégia de bombardeios ou o maciço fluxo de armas inevitavelmente fracassar?
Como Spencer Ackerman escreveu no The Guardian, existem atualmente 1.200 forças de operações especiais e “conselheiros” militares no Iraque. O próprio jornal do exército, Stars and Stripes (estrelas e faixas), escreveu que o Comando de Contratações do Exército dos EUA anunciou vagas para “contratados” – leia-se ex-soldados agindo como mercenários – para ajudar a fortalecer o governo iraquiano. Quantas tropas no local são necessárias para o governo admita que existem “tropas no local”?
Pois, na Guerra Eterna, isso é apenas uma questão de tempo.


Atenção BRICS: Serguei Lavrov está desistindo dos “EUA−ocidente”

The SakerVineyard of the Saker   
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ontem assisti a um interessante programa da TV russa, “O direito de saber”, que mostrou uma entrevista ao vivo, de uma hora, com Sergei Lavrov (abaixo,  sem legendas e em russo), Ministro de Relações Exteriores da Rússia, em conversa com cinco jornalistas russos. Nada tão importante que justifique o trabalho de traduzir, mas quero partilhar com vocês algumas coisas que já observei no passado e que reapareceram poderosamente expressas durante aquela conversa. (http://youtu.be/sWZ1pvr6Gng)

Como se poderia prever, os tópicos incluíram a guerra civil na Ucrânia; a situação da investigação sobre o ataque e derrubada do avião malaio MH17, sanções contra a Rússia, a expansão da OTAN, as negociações em Minsk e o engajamento da Rússia com os países BRICS.

Em todos esses tópicos o programa seguia roteiro semelhante: um dos jornalistas pedia que Lavrov comentasse o que acontecera numa ou outra circunstância e Lavrov confirmava:

(...) é verdade, tentamos tudo que foi possível, mas sem resultado positivo. Lamentamos muito.

O mais curioso foi que os jornalistas manifestavam surpresa, alguns até indignação por as coisas terem chegado ao ponto que chegaram, mas a reação de Lavrov era “é, vocês têm razão, não tem jeito mesmo. É situação completamente sem esperanças”. O efeito geral era de um conselho de classe escolar, com os professores discutindo a situação de um aluno inapelavelmente idiota e incapaz de melhorar. De diferente, só, que, naquele caso, o “aluno” era o chamado “ocidente”.

O silêncio dos MENTIROSOS
Por exemplo, sobre o caso do voo MH17, os jornalistas mostraram surpresa ante o vazio de resultados e a total esterilidade do relatório “oficial” recém divulgado. Observaram que toda a imprensa-empresa ocidental entrou em surto de histeria, com manchetes do tipo “Putin Terrorista” ou “Basta! Basta!”, como se não soubessem que a investigação continua.
A reação de Lavrov foi

(...) é verdade. Bom... fizemos o possível no Conselho de Segurança, apresentamos nossa contribuição, queríamos um total cessar-fogo para que o local do acidente pudesse ser periciado adequadamente, oferecemos as nossas informações, conversamos com os malaios, quisemos conversar com os especialistas, mas eles só conversaram com a Junta de Kiev, passaram 15 dias lá e só conversaram com a Junta. Ainda temos detalhes a esclarecer com os peritos, mas, ao que se vê, só nós continuamos interessados em obter investigação completa e completamente transparente (não é citação, mas é paráfrase bem confiável das palavras de Lavrov).

A impressão que resta da conversa toda é algo como

(...) sinceramente, com gente assim não há o que fazer. O que mais poderíamos tentar?


Sobre as sanções, os jornalistas disseram que vários países estão surpresos com a velocidade com a Rússia afastou-se do “ocidente” e começou a construir relações com Ásia, África, América Latina e com o subcontinente indiano. Mais uma vez, a resposta de Lavrov foi

(...) é, nós mesmos também nos surpreendemos, nós mesmos, com a rapidez dos eventos. Mas não tivemos escolha.

Não é o único programa de entrevistas que passa essa mensagem. A impressão que tenho é que a Rússia desistiu dos “EUA−ocidente”. Claro: vão continuar a conversar e a Rússia tentará, mesmo contra qualquer probabilidade, arrancar comportamento adulto responsável dos políticos ocidentais. Mas ninguém na Rússia tem qualquer esperança de conseguir.

Em outro programa desse tipo (Sunday Evening with Vladimir Soloviev) os participantes observaram que a Alemanha assumira o papel de pressionar a Finlândia, a República Eslovaca e outros países que não queriam adotar mais sanções. Outra vez, a mensagem russa foi

(...) esqueçam os alemães. Esse pessoal não tem jeito.

Creio que há sincero e muito difundido sentimento de desgosto e de descrença, na Rússia, em relação aos países da União Europeia. Quanto aos EUA, os russos já veem os norte-americanos como lunáticos messiânicos, militantes do ódio racista e nacionalista, capazes de fazer qualquer coisa para causar dano à Rússia, do modo que encontrem à mão, por doido, absurdo, inútil ou hipócrita que seja.

Tudo isso se resume a um consenso que se vai generalizando segundo o qual, por mais que qualquer guerra contra os EUA e OTAN deva ser evitada, pouco mais haveria a ganhar dos esforços para manter a paz. Muitos políticos dizem hoje que

(...) nossa política externa sempre foi excessivamente influenciada pelo “ocidente”. Isso agora tem de mudar – o futuro da Rússia está noutro lugar. 

Cuidado com minhas sanções!
A implantação de sanções contra a Rússia é perfeito exemplo disso. Enquanto apenas alguns direitistas mais ferozes e pró-EUA ainda reclamam (e, sim, é claro que essa gente sempre existe). Há também muita gente que entende que, apesar de não se encontrarem ostras belon francesas à venda em Moscou, as sanções chegam como perfeita bênção, uma vez que forçam a Rússia a separar-se do “ocidente” – separação que, para muitos russos, já deveria ter acontecido há muito tempo. No curto prazo, as sanções ocidentais “morderão”, sobretudo no mercado de alguns itens high-tech, mas no longo prazo e nos grandes números, muita gente entende que o principal erro, e erro muito mais grave, desde o início, era depender do “ocidente” para aquele tipo de produto.

Mais uma vez, a emoção dominante é de desgosto, estranheza e cansaço. Embora um homem tão finamente educado nas artes da diplomacia, como Lavrov, jamais o declare nesses termos, a reação geral já é claramente que “vocês, europeus estão em decadência; vocês fracassaram; não precisamos de vocês para nada; goodbye”. Mas dito sem qualquer ira e, de fato, quase que só com tristeza.

Não creio que diplomatas russos venham a fazer altas declarações antiocidente na ONU ou seja onde for. O contrário do amor não é o ódio: o contrário do amor é a indiferença.

Os funcionários do governo russo continuarão a falar de “nossos parceiros” e, até, de “nossos amigos”, mas, ao mesmo tempo em que a retórica bem-soante continuará, as relações com o Ocidente irão gradualmente deixando de ser prioridade para a diplomacia russa, para o business russo e mesmo para a opinião pública russa em geral. De fato, a Rússia já está construindo um mundo multipolar e, se o Ocidente não quer ter lugar nesse mundo... problema dele. Os russos sabem que o Ocidente não pode impedir a emergência desse novo mundo, e realmente pouco se incomodam se o Ocidente recusar-se a aceitar a nova realidade ou resistir contra dançar segundo as novas regras.

BRICS, um MUNDO MULTIPOLAR
Mais uma coisa: os russos estão, sim, com certeza, muito furiosos com a posição extremamente agressiva da OTAN, porque a interpretam – corretamente – como sinal de hostilidade.

Mas, ao contrário do que vários blogueiros têm dito, os russos não temem aameaça militar que a OTAN está fazendo. A reação dos russos contra os mais recentes movimentos da OTAN (novas bases e mais soldados na Europa Central, mais gastos, etc.) é denunciá-los como provocação. Mas todos os funcionários russos insistem em que a Rússia tem meios para responder à ameaça militar.

Como disse um deputado russo,

(...) cinco grupos de reação rápida [como a OTAN definiu sua “nova estratégia”] é problema que se resolve com um único míssil.

É fórmula simplista, mas basicamente correta. Putin disse exatamente a mesma coisa, quando informou, sem margem de dúvida, que, em caso de ataque convencional massivo “seja de quem for”, a Rússia, sim, usará suas armas atômicas táticas.

De fato, se a OTAN prosseguir com a estupidez que é o plano de estacionar tropas na Polônia e/ou nos países do Báltico, entendo que a Rússia se afastará do Tratado de Forças Nucleares Intermediárias (IRNF) e usará sucessores avançados do famoso RSD-10 (SS-20).  Como já escrevi antes, a decisão deduplicar o tamanho das Forças Russas Aerotransportadas e de atualizar o status do 45º Regimento Especial Aeroembarcado de elite, para dimensões de brigada, já foi tomada. Pode-se dizer que a Rússia estava prevendo a criação da força da OTAN, de 10 mil soldados,  no momento em que duplicou as dimensões de suas próprias forças aerotransportadas, de 36 mil, para 72 mil soldadosJá tendo, portanto, tomado as providências necessárias para dar conta da ameaça militar, o Kremlin pode agora passar a cuidar dos assuntos realmente importantes.

Dentre as várias concepções distorcidas que acolhemos em nossa cabeça durante nosso “adestramento” ocidental (não consigo chamar a coisa de “educação”), nós, no ocidente, temos uma tendência a ver nossa parte do mundo como o centro do planeta, e alguns até enchem a boca para dizer que os EUA seriam a única nação indispensável, a única realmente importante. É o que se vê até em nossos mapas sistematicamente centrados na Europa ou nos EUA e na crença já quase dogmática nos EUA de que ninguém é ou será jamais mais importante que os norte-americanos. Tudo isso está errado.

“Nosso norte é o sul”, mapa de Joaquin Torres Garcia, 1943
De fato, o Império Anglo-Sionista Norte-Americano está em declínio lento, mas inexorável. Todo o resto do mundo lhe fará ainda algumas reverências, mas, mais ou menos rapidamente, lhe dará as costas e seguirá adiante. Se, nas instalações de adestramento a que chamamos “escolas” houvesse professores realmente capazes de educar gerações para o mundo em que realmente viverão, todos já teriam começado a desenhar mapas centrados na China e ensinariam aos jovens trainees que já ninguém mais leva a sério os chamados “valores ocidentais”.

Até Obama já anunciou seu “pivô” para a Ásia! Só que, à maneira típica dos anglo-sionistas, o tal “pivô” significava, apenas, que os EUA usariam mais forças militares e mais pressões para obrigar o mundo a obedecer aos desejos do Império. De modo bem diferente do que fazem os EUA, a Rússia não anunciou “pivô” algum, mas Putin já se reuniu quatro vezes, só em 2014, com Xi Jinping; e os dois lados declararam que sua parceria estratégica é a mais forte que jamais houve na história das relações entre os dois países.

Não há dúvida de que a Rússia está realmente voltando o olhar para a China, a América Latina, África e outras partes do mundo. Seus diplomatas continuam a conversar, sorrir, falam de “parceiros” e “amigos”, mas creio que estamos assistindo a um evento histórico: pela primeira vez, desde o século XIII, a Rússia está-se distanciando do Ocidente e começou a apostar o próprio futuro em associação com a Ásia (e o resto do planeta).


FONTE: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/09/atencao-brics-serguei-lavrov-esta.html

::

Guinada de Marina levou-a para longe de dúvida sobre transgênicos

rato

Ratos que desenvolveram câncer depois de ingerir milho transgênico e receber doses de glifosato; a União Europeia está investindo 3 milhões de euros para que o estudo seja refeito. O Viomundo noticiou o resultado da pesquisa aqui. O milho OGM NK603 tratado com Roundup (o herbicida mais utilizado do mundo) é liberado no Brasil. A CTNBio, Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, decidiu não fazer estudo semelhante no país.

*****

Marina Silva, em discurso de 2002, usando a Bíblia para justificar sua oposição aos transgênicos, conforme reproduzido no blog do Mário Magalhães
“Em Gênesis 21,33, o próprio Patriarca Abraão, com mais de 80 anos, resolve plantar um bosque. Quem planta um bosque com quase 100 anos está pensando nas gerações futuras, que têm direito a um ambiente saudável. Era esse o significado simbólico do texto. No Êxodo 22,6, há determinação explícita no sentido de que quando alguém atear fogo a uma floresta ou bosque deverá pagar tudo aquilo que queimou. Talvez essa regra seja mais rigorosa do que as do Ibama. Com relação aos transgênicos, o livro Levíticos 22,9 expressa claramente que não se deve profanar a semente da vinha e que cada uma deve ser pura segundo a sua espécie”.
*****
Captura de Tela 2014-09-14 às 17.42.23
Trecho de projeto de lei da senadora Marina Silva, de 1997, ainda no PT, que estabelecia “moratória do plantio, comércio e consumo de organismo geneticamente modificados (OGM) e seus derivados”. O projeto foi arquivado; página 189 da biografia “A vida por uma causa”
*****
Já candidata a presidente pelo PV, Marina “calibrou” mais uma vez sua posição (página 173 do mesmo livro)
Eis outra falácia: dizer que sou contra transgênicos. Nunca fui. Sou a favor, isso sim, de um regime de coexistência, em que seria possível ter transgênicos e não transgênicos. Mas agora este debate está prejudicado, porque a legislação aprovada é tão permissiva que não será mais possível o modelo de coexistência. Já há uma contaminação irreversível das lavouras de milho, algodão e soja.

por Luiz Carlos Azenha

Estava eu a assistir uma entrevista de Marina Silva ao Jornal Nacional quando ouvi a candidata dizer que sua oposição aos transgênicos era “uma lenda”. Diante de Willian Bonner e Patrícia Poeta, reafirmou que acreditava “na coexistência”, lado a lado, de lavouras com e sem OGMs (Organismos Geneticamente Modificados).

Estranhei. Graças ao interesse específico de Conceição Lemes pelo assunto, o Viomundo tem acompanhado de forma crítica a atuação da CTNBio, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, encarregada de liberar ou não os transgênicos no país. Faz o mesmo em relação à Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, encarregada entre outras coisas de monitorar o uso de agrotóxicos.

Por exemplo? Aquiaquiaquiaqui aqui. Sigam os links postados no pé dos textos para outras entrevistas e reportagens. Nossa ideia sempre foi transformar este espaço, aos poucos, num banco de dados para jovens que buscam informação sobre transgênicos e agrotóxicos, informação quase ausente da mídia corporativa por conta do apoio dos barões da mídia ao agronegócio (a Globo é integrante da associação do agronegócio, denuncia João Pedro Stedile) e às verbas publicitárias que irrigam o bolso dos Marinho, Frias, Mesquita e outros.

Estivemos entre os primeiros a dar publicidade aos documentários O Mundo Segundo a Monsanto,Comida S/A e aos documentários-denúncia de Silvio Tendler sobre o uso de agrotóxicos no Brasil, aqui eaqui.

O que me intrigou na resposta de Marina Silva foi o fato de que a ambientalista falou, em pleno 2014, em “convivência” entre lavouras, justamente num momento em que está se formando um consenso mundial sobre os transgênicos e suas consequências.

Não é um consenso pelo banimento puro e simples, mas por uma reavaliação aprofundada do impacto ambiental e à saúde humana que causam.

Não por acaso, surgem em todo canto as feiras de alimentos orgânicos. Não por acaso, já existe em Nova York um supermercado de tamanho considerável só de produtos sem corantes, conservantes e outros químicos. No Brasil, o MST desenvolve projetos para oferecer, na merenda escolar, alimentos livres de venenos e outros químicos.

Como sou um leitor voraz sobre o assunto, porém amador e sem formação científica, fui ouvir o pesquisador Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade de Santa Catarina – UFSC. Ele faz parte de um grupo crescente de estudiosos brasileiros que se debruça sobre o assunto e acompanha as pesquisas nacionais e internacionais.

Resumo da entrevista: a tecnologia dos transgênicos/agrotóxicos “se descolou da Ciência”. Algumas pesquisas “desmentem os pressupostos” utilizados para aprová-los. Existe um “vazio de conhecimento” que causa dúvidas crescentes sobre os riscos à saúde humana e ao meio ambiente.

Para nossos jovens leitores, é essencial explicar a relação entre os transgênicos e os agrotóxicos. Eles são produzidos por um grupo de empresas, conhecidas lá fora como Gene Giants, que auferem lucros extraordinários com as tecnologias. Em 2011, algo em torno de U$ 80 bilhões. Do grupo fazem parte, entre outras, a Monsanto, a Syngenta, a Dow, a Dupont, a Pioneer, a Basf e a Bayer.

Curiosamente, as duas últimas são sediadas na Alemanha, país que tem endurecido sua legislação contra os transgênicos. Há um forte confronto em andamento entre as Gene Giants e governos preocupados com a saúde pública, sob pressão de seus cidadãos.

As Gene Giants ganham rios de dinheiro fazendo modificações genéticas em plantas e patenteando as sementes, pelas quais cobram royalties dos agricultores, safra a safra. Nos Estados Unidos e no Canadá, agricultores já foram processados na Justiça por guardar sementes transgênicas de uma safra e utilizar na seguinte sem pagar os royalties. As modificações tornam as plantas resistentes ao uso dos agrotóxicos produzidos pelas mesmas empresas. O resultado concreto é a explosão no uso dos venenos, que com as chuvas correm para os rios e contaminam pessoas durante e depois da aplicação.

Como o Viomundo noticiou em primeira mão, a pesquisadora Danielly Palma, da equipe de Wanderlei Pignati, descobriu a presença de agrotóxicos no leite materno numa pesquisa feita em Lucas do Rio Verde, uma das capitais do agronegócio brasileiro. Pignati nos disse que podem existir “até 13 metais pesados, 13 solventes, 22 agrotóxicos e 6 desinfetantes na água que você bebe”.

Sobre a possibilidade de plantio lado a lado de lavouras com e sem OGMs — a que se referiu a candidata Marina Silva, no Jornal Nacional – as dúvidas são crescentes.

No caso do milho, por exemplo, nosso entrevistado Leonardo Melgarejo sugere que o leitor visite uma lavoura num dia quente. Aquele bafo de calor provoca um movimento de ar ascendente, que carrega o pólen do milho geneticamente modificado a altitudes elevadas. Em alguns casos, ele congela por causa da altitude. É incorporado a massas de ar que se deslocam por quilômetros e quilômetros. Depois, cai e pode fecundar, ou “contaminar”, plantações de milho que não são transgênicas.

Segundo a legislação brasileira, em condições médias a contaminação é inferior a 1%  quando existe uma distância de 100 metros entre as lavouras com e sem OGMs. Porém, estudos já registraram o deslocamento do pólen de 600 metros a alguns quilômetros. Isso, obviamente, prejudica os agricultores que não querem usar transgênicos. Alguns apostam na produção orgânica, outros simplesmente não querem ficar escravos do pagamento anual de royalties.
Leonardo Melgarejo avaliou o comentário de Marina Silva: “Plantar lado a lado é uma atitude ingênua, equivocada. O plantio lado a lado assegura a contaminação e prejudica o direito de quem não gostaria de cultivar transgênicos”.
No caso do chamado milho Bt, as Genes Giants introduziram genes de uma bactéria que age como inseticida, matando uma lagarta que prejudica a produção.

No passado, o controle da lagarta era feito por inspeção pessoal. Nas áreas de lavoura onde houvesse um número superior de lagartas ao considerado adequado era aplicado o veneno.

Agora, com o milho Bt, joga-se agrotóxico em tudo. O veneno atinge da ponta da raiz ao pólen. “A planta absorve o veneno, metaboliza, transforma em outras coisas, enquanto [as plantas]  que estão em volta morrem. Cria num primeiro momento um vazio, que traz uma nova geração de plantas resistentes”, explica Melgarejo. Ou seja, a tendência do produtor é de aplicar cada vez mais veneno, gerando mais lucro para as Gene Giants.

Melgarejo sugere outra expedição pessoal ao leitor do Viomundo. No Centro-Oeste, visite uma plantação de soja e note a presença de plantas de milho crescendo bem lá no meio. São sementes de milho tolerantes ao veneno mais comum, o glifosato, que germinam no meio da soja.

Ou seja, agora o agricultor precisa combinar agrotóxicos distintos para dar conta das plantas resistentes.

Por isso surgem venenos cada vez mais poderosos ou que atuam com mecanismos distintos, o que aumenta a pressão para que os órgãos públicos aprovem rapidamente novos produtos, sem avaliação adequada.

No caso do milho Bt, o argumento que antecedeu a aprovação dava conta de que o “inseticida” inserido na variedade para matar a lagarta seria destruído sem problemas no trato digestivo dos seres humanos. Porém, o pesquisador Azis Aris, professor de Obstetrícia e Ginecologia da Universidade de Sherbrook, no Canadá, descobriu a proteína tanto no cordão umbilical quanto em fetos, antes do nascimento.

Quais as consequências? Continuamos totalmente no escuro.

No caso do milho NK 603, o pesquisador Gilles-Eric Seralini, da Universidade de Caen, na França, coordenou um estudo cuja divulgação causou grande estrondo (fotos no topo deste post).
“Os resultados são alarmantes. Observamos, por exemplo, uma mortalidade duas ou três vezes maior entre as fêmeas tratadas com OGM. Há entre duas e três vezes mais tumores nos ratos tratados dos dois sexos”, explicou Para realizar a pesquisa, 200 ratos foram alimentados durante um prazo máximo de dois anos de três maneiras distintas: apenas com milho OGM NK603, com milho OGM NK603 tratado com Roundup (o herbicida mais utilizado do mundo) e com milho não alterado geneticamente tratado com Roundup. Os dois produtos (o milho NK603 e o herbicida) são propriedade do grupo americano Monsanto. Durante o estudo, o milho fazia parte de uma dieta equilibrada, em proporções equivalentes ao regime alimentar nos Estados Unidos. “Os resultados revelam uma mortalidade muito mais rápida e maior durante o consumo dos dois produtos”, afirmou Seralini, cientista que integra ou integrou comissões oficiais sobre os alimentos transgênicos em 30 países.
O estudo foi alvo de fortes críticas, inclusive de cientistas ligados às Gene Giants. A União Europeia destinou 3 milhões de euros para refazê-lo. No Brasil, a CTNBio decidiu contra novos estudos. Estamos, portanto, consumindo o NK603 na incerteza.

Outro estudo recente de grande impacto, segundo Melgarejo, foi o de Charles Benbrook, da Universidade Estadual de Washington, nos Estados Unidos. Ele pesquisou áreas onde houve o uso sucessivo de glifosato em várias safras. Constatou que o veneno altera a composição dos microoganismos que vivem no solo da região. Provoca a redução das bactérias associadas às raízes das leguminosas, que ajudam a fixar o nitrogênio do ar. Ou seja, o agricultor precisa recorrer ao adubo nitrogenado, com forte impacto econômico para ele e para países importadores.

“Isso não é considerado no Brasil pela CTNBio”, alerta Melgarejo. A aprovação ou não, segundo ele, é feita com uma visão estreita, que não considera o conjunto dos impactos sócio-econômicos.

No caso do milho Bt ou do NK 603, a CTNBio não exige testes em animais em gestação ou em pelo menos duas gerações de animais, como outros países exigem. O argumento das Gene Giants é de que os transgênicos tem sido consumidos há mais de 20 anos sem causar danos à saúde pública. Não causam, por exemplo, reações alérgicas.
Porém, para Melgarejo isso “não nos dá segurança”. Ele lembra que em períodos da vida de grande alteração hormonal — gestação, puberdade, menopausa/andropausa — os seres humanos são mais suscetíveis a expressar alterações resultantes do consumo alimentar e que isso ainda não foi suficientemente estudado.

Para ele, os transgênicos/agrotóxicos “estão sendo liberados de maneira apressada e com estudos superficiais”.
Melgarejo lembra que no Brasil não existe um protocolo para avaliar insetos transgênicos. Ainda assim, a CTNBio liberou o mosquito que supostamente vai ajudar a combater a dengue, testado em Jacobina, na Bahia. Ao copular com a fêmea, o Aedes aegypti macho bloqueia a reprodução das larvas.

Porém, essa capacidade pode ser naturalmente desativada por um antibiótico muito comum em rações para animais.

Não há, portanto, garantia de redução da população de mosquitos transmissores da dengue. Pode ser até que a população aumente!

Além disso, diz Melgarejo, “na natureza não existe espaço vazio. Outros possíveis vetores da dengue podem aparecer”. A condição natural do vírus da dengue, como de todo ser vivo, é de se reproduzir. “Se não se reproduz é possível que sofra mutações”, acrescenta. Mutações para as quais os serviços de saúde estão completamente despreparados.

“O fato concreto é que em Jacobina a população de mosquitos caiu, mas no ano seguinte o prefeito foi obrigado a decretar estado de emergência por conta da dengue”, afirma.

Por causa do óbvio poder econômico das Gene Giants (leia aqui, Projeto de Vaccarezza é redigido por lobby da Monsanto), Leonardo Melgarejo acredita que só a indignação dos cidadãos com os riscos a que estão sendo submetidos pode provocar mudanças. Isso depende de informação, infelizmente indisponível de maneira contextualizada na mídia corporativa.

Sobre a atual campanha política, ele vê “Dilma tolerante e Marina favorável” ao atual estado de coisas.

A ex-ministra do Meio Ambiente, citada pelo New York Times como “ícone” da luta ambiental, premiada em várias partes do mundo por suas propostas na área e proponente de uma “nova política”, que a distinguiria dos adversários, parece ter dado uma guinada e tanto ao longo do tempo, pelo menos em relação aos transgênicos: “Eu acredito que a Marina tem seus interesses [políticos] nesse momento. Espero que ela não tenha mudado por dentro tanto assim”.

O que deixa o pesquisador angustiado é o fato de que o processo não tem volta. “O milho Bt, não é mais possível retirá-lo da Natureza. Não tem como recolher. Não tem volta”, afirma. O mesmo vale para todos os novos produtos que, anualmente, rendem bilhões de dólares e o controle de boa parte da cadeia alimentar às Gene Giants.

[A produção de conteúdo exclusivo como este é generosamente bancada por nossos assinantes. Torne-se um deles]

Para ouvir a entrevista completa, altamente recomendável, clique abaixo nas setas vermelhas:

https://soundcloud.com/azenha/leonardo-melgarejo-duvidas-sobre-os-transgenicos